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OPINIÃO

Milly Lacombe: o futebol feminino e a matada no peito

Victoria Albuquerque comemora após marcar o terceiro gol do Corinthians sobre o Palmeiras na final do Brasileirão Imagem: FERNANDO ROBERTO/UAI FOTO/ESTADÃO CONTEÚDO
Milly Lacombe

Colunista do UOL

26/09/2021 22h55

Como você mata uma bola no peito?, me perguntou um colega de jogo logo depois de eu executar a manobra durante uma pelada. Foi a primeira vez que eu entendi que alguns homens ficavam inquietos e curiosos quando matávamos a bola no peito. Não tive tempo de responder como uma mulher é capaz de matar a bola no peito porque, afinal, a bola estava em jogo. Quando o jogo acabou, eu fui até meu amigo e respondi com uma pergunta: como você pedala uma bicicleta? Ele riu e assim me deu a impressão de ter entendido.

Mulheres matam a bola no peito porque a bola é encaixada acima dos seios, e quem assistiu a final do Brasileiro feminino viu quando Victoria fez exatamente isso antes de emendar, de puxeta, para fazer o terceiro gol do Corinthians na partida.

Não há, com efeito, nenhum fundamento que uma mulher seja incapaz de executar no futebol. Com pouco tempo de vida formal, o futebol feminino mostra, para quem estiver a fim de ver, que a capacidade técnica não deixa a desejar para a dos homens. Mesmo que não sejamos encorajadas a praticar futebol na infância, na juventude ou em qualquer outra fase da vida. Mesmo que tenhamos que fazer isso quase clandestinamente, e muitas vezes nos misturando a homens.

Pouco antes de matar no peito e, com a puxeta, fazer um gol, Victoria tinha executado uma bicicleta perfeita dentro da área, num cruzamento de Adriana.

A matada no peito é uma das minhas manobras prediletas no futebol. Encaixar a bola ali logo abaixo do pescoço, escutar o barulho que ela faz em contato com o peito e ver a bola deslizando em direção ao chão (quanto mais perto do corpo, melhor a matada). A estética da arte de matar no peito é incomparável.

Há quem diga que a matada no peito é um fundamento muito nosso - assim como o drible. De fato, tivemos grandes matadores de bola no peito, como lembrou Ruy Castro em coluna recente: Domingos da Guia, Luis Pereira, Pelé... e agora seria justo acrescentar Victoria Albuquerque, a atacante corintiana.

O Corinthians venceu o Palmeiras com excelência e autoridade. O segundo jogo da final, ao contrário do primeiro, foi um jogo aberto, ofensivo e atraente, especialmente no primeiro tempo. O Corinthians, com sua camisa roxa em homenagem às lutas feministas, se firma como o time mais forte e organizado do Brasil. Adriana, Yasmin e Victoria são craques e é um prazer ver esse time jogar sem o freio de mão puxado.

Representamos 53% da massa corintiana, segundo pesquisa encomendada pela diretoria do time. Enfim, estamos sendo vistas, incluídas, representadas. É o começo de uma travessia que nos levará muito mais longe. Vai, Corinthians. Vai, futebol feminino.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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