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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: O sexismo da tentativa de ensinar uma mulher a falar de futebol

"Somos apaixonada por um esporte que, de verdade, ainda não gosta tanto assim da gente" - Fernando Moreno/AGIF
"Somos apaixonada por um esporte que, de verdade, ainda não gosta tanto assim da gente" Imagem: Fernando Moreno/AGIF
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

18/09/2021 16h01

Chegou a mim um texto assinado pelo experiente cronista Ugo Giorgetti cujo título é "Mulheres no Futebol", originalmente publicado no blog do meu colega José Trajano mas que, por algum motivo que não foi explicado, não está mais lá. Li com atenção e venho aqui fazer algumas considerações que julgo importantes.

O texto tem, como está sendo apontado por muitas amigas desse meio e de outros, algumas derrapadas sexistas fenomenais - e sobre elas quero falar em detalhes.

Mas o texto também tenta (embora não consiga nem de perto) chegar a um território que eu consideraria importante ao debate público, que é o seguinte: o de estarmos ocupando lugares nunca antes ocupados - dentro e fora dos campos - e de algum modo estarmos repetindo o que fazem de nem tão bom, nem tão criativo e de nem tão inclusivo nossos companheiros boleiros e jornalistas.

Escrevi sobre isso aqui mesmo há alguns dias e não sei de verdade se Giorgetti leu o que escrevi e, a partir daí, traçou sua lógica derrapante. Existe um debate interessante dentro desse tema, mas ele não pode ser proposto por um homem, e vou explicar o porquê.

Preciso dizer, antes de mais nada, que lugar de fala é coisa séria, mas que ele só funciona se a gente não se enjaular dentro de alguns princípios. Acho que Giorgetti tem o direito de se manifestar sobre universos femininos e elaborar suas ideias, não vejo impeditivos. É apenas necessário saber dos riscos que se corre porque, nesse caso, ele estará entrando em um campo de jogo que não domina.

Teria sido importante, por exemplo, que uma colega pudesse ler o texto antes que ele fosse publicado. Giorgetti teria escapado de muitos deslizes. Outro dia fui escrever uma crônica com uma personagem trans para minha coluna na revistas Trip e Tpm e, antes de publicar, pedi que uma pessoa trans lesse o que escrevi. Se eu tivesse publicado como estava, teria levado muitos tapas.

Mas sabemos que existe nos homens brancos em situações de poder uma espécie de autoestima fenomenal que faz com que eles acreditem piamente que podem fazer o que quiserem, errar como quiserem, derrapar como quiserem pois nada vai acontecer com eles. Deve ser bom viver assim, e digo isso sem nenhum sarcasmo. Dar a si mesmo o direito de errar magnífica e grandiosamente.

Afinal, quem nunca errou? E quem aprende sem errar? Eu, infelizmente, jamais. Meus maiores aprendizados na vida vieram de erros - alguns enormes e públicos, outros pequenos e privados.

Ainda sobre lugar de fala: eu poderia, por exemplo, querer escrever críticas aos movimentos negros? Poderia, sem dúvida. Mas faria isso por minha conta e risco porque, ao escrever sobre uma realidade que não é a minha, eu iria cometer deslizes, para dizer o mínimo. Então, tento me educar com as pessoas negras no miudinho e treino ser antirracista no dia-a-dia.

A questão é que o homem branco poderoso não foi construído achando que precisa pedir permissões, ou escutar outros pontos de vista. Se eu fosse um homem branco em situação de poder provavelmente teria agido do mesmo jeito antes de buscar o caminho da desconstrução. Era mais fácil e leve ser homem branco antes? Opa se era. Mas se a gente quer construir uma coisa nova - como o texto de Giorgetti pede - vai ser preciso que esse homem, que até ontem só falava, passe a escutar.

Aqui é aquela hora em que alguém deve estar pensando "ah, mas nem todo homem é assim". E essa pessoa estaria certa. Nem todo homem é assim. Mas essa colocação, primeiro, não acrescenta ao debate. Segundo: ela interrompe o pensamento para chamar a atenção para aquele que disse "nem todo homem".

O que a colocação sugere? Que o interlocutor está dizendo: "Eu não sou assim. Eu sou bacana. Eu tô do lado de vocês". Pode ser. Mas o que nós, feministas, escutamos é: "Eu, eu, eu. Vamos falar de mim agora! Olha pra mim!". Segura a onda na carência e vem com a gente na luta para acabar com o machismo que, todos os dias, mata corpos femininos e censura a sensibilidade no espírito masculino.

O machismo é uma estrutura de poder. Nem todo homem é machista, verdade, mas todos se beneficiam dessa estrutura. Nem toda mulher é feminista, verdade, mas todas sofrem com ela.

Tudo isso dito, vou analisar o texto de Giorgetti no detalhe, mas sem querer cancelar o autor. Não pretendo criticar o texto para tornar o debate irreconciliável. Pretendo criticar para elevar o debate a um lugar de mais significado.

Ao texto:

O pontapé inicial do cronista começa com uma frase vazia: "As mulheres veem a vida de modo diferente de homens". O vazio é perigosíssimo porque ele nunca fica de fato vazio e, assim, poderá ser ocupado por toda sorte de preconceitos e intolerâncias. Dizer que vemos a vida de modo diferente e deixar a frase solta é um chute no vácuo sem finalidade de drible. Sim, enxergamos as coisas de modo diferente, mas não porque temos um chip que nos torna mais sensíveis, emotivas, inclusivas, solidárias. Isso acontece porque a construção desse específico feminino começa quando nascemos.

Nos vestem de rosa, nos enfiam bonecas goela abaixo, nos incentivam a brincar de casinha, a sonhar com um príncipe, nos dizem que devemos ser delicadas, falar baixo, sentar com as perninhas fechadas, que devemos ser cativantes e que ser cativante é se curvar ao mundo dos homens, aos seus desejos, regras, normas e comportamentos.

Só que essa especificidade que o cronista atribui ao feminino pertence a todos nós, homens e mulheres. A diferença é que, enquanto em todas nós essas são características internalizadas, nos homens elas são evitadas.

Homem não chora, homem aguenta o tranco, homem não se mostra vulnerável, homem não se deixa atravessar por fortes emoções, homem não rebola, homem não abraça outros homens a menos que seja maricas, homem aguenta o mundo nas costas sem reclamar. Estamos falando de construções, e isso é fundamental deixar claro porque quando repetimos que o futuro é feminino não estamos com isso querendo dizer que o futuro às mulheres pertence, mas sim que só haverá um futuro se essas características atribuídas ao feminino prevalecerem e nos inundarem a todos, todas, todes.

Em seguida, Giorgetti começa a nos aferir culpas que absolutamente não nos pertencem.

Ele sugere que, se soubermos respeitar nossas características, aí sim brilharemos mesmo em ambientes dominados por homens. Escreve isso listando elogios que, para qualquer mulher atenta, soam como ofensas. Sugere que, por não estarmos sendo mulheres de verdade, devidamente implicadas em todas essa lista de qualidades femininas, não estamos conseguindo ser tudo o que podemos ser nesse meio esportivo. Mas, deixa claro, ele ainda tem esperança na gente.

Vejam, antes de mais nada, não estamos aqui para salvar coisa nenhuma. Não estamos aqui para transformar nada. Não estamos aqui para deixar o jogo mais alegre, sensível, comovente, feminino. Não cabe àqueles a quem nunca foi dado o direito de pertencimento na construção desse edifício chamado Futebol Brasileiro a tarefa de renová-lo.

Estamos aqui porque queremos e podemos. Estamos aqui porque, na raça, amamos esse jogo que nunca nos incluiu. Estamos aqui porque a sociedade está cansada de escutar sempre as mesmas histórias contadas sempre pelos mesmos sujeitos com os mesmos pontos de vista. E ainda faltam muitas de nós: as mulheres negras, as indígenas e as trans por exemplo. Até aqui somos um reduto de mulheres brancas ocupando um espaço dentro do qual, francamente, muitos não nos querem.

Giorgetti tem razão quando reflete sobre o fato de, quem sabe, estarmos sendo represadas pela indústria, instruídas de alguma forma a atuarmos como homens - seja elaborando estratégias e táticas de jogo, seja analisando uma partida, seja reportando a rodada. Mas não é preciso ser genial para saber que é assim que funciona.

Primeiro porque estamos dentro de uma estrutura machista de poder e todas as grandes empresas são assim organizadas. Algumas, sabemos, estão tentando mudar, mas trata-se de um processo e não de um evento.

Então, todas as vezes que buscamos alguma inovação, o meio - de forma sutil ou direta - nos silencia. Há, claro, os chamados mais duros em nome de uma adaptação às regras e convenções, eu mesma passei por isso na TV.

E há os chamados sigilosos que vêm da noção de que, se agirmos assim ou assado, perderemos o emprego. Mas a primeira censura está sempre em cada uma de nós. Isso acontece porque o machismo internaliza o opressor em todas as mulheres. Somos nossos mais perversos juízes, nossos mais cruéis críticos.

Fomos ensinadas a nos limitar, a achar que o mundo é dos homens, que se quisermos entrar nesse clube precisaremos ser um deles. É penoso ir se desconstruindo dessas internalizações. É uma luta diária com a voz em nossas cabeças que diz: fale menos, não seja ríspida, não vá pra cama no primeiro encontro, emagreça, seja dócil, seja mais amável, não responda, silencie.

E tem o recuo tático.

Vez ou outra estamos no ar e temos que escutar caladas o narrador dizer que Cuca (condenado por envolvimento em estupro) é um cara muito decente, digno, cordial, gentil, bacana. A todo o instante, somos interrompidas em nossas falas - até pelos homens mais bacanas - e precisamos seguir sorrindo sem chamar a atenção do colega de trabalho para a interrupção (que ele não faria com um homem) porque estamos numa transmissão ao vivo. Vez ou outra, temos que escutar alguém da patente de Galvão Bueno pedir "calma" a uma repórter e, com essa simples frase, reforçar séculos de opressão: você só pede calma a quem julga não estar em condições de se controlar emocionalmente como você acha que seria razoável que a pessoa se comportasse - uma acusação que pesa sobre todas nós há séculos. Somos as malucas, as loucas, as que não se controlam.

Então, sim, Giorgetti: o meio nos represa. Assim como represa qualquer um que tente, minimamente, agir revolucionariamente. É como se nos dissessem: podem entrar desde que se comportem do jeito que queremos. Podem entrar desde que se sujeitem ao nosso estilo. Fazer sucesso dentro desse jogo sórdido é um desafio tremendo. E, ainda assim, estamos conseguindo. Um dia por vez. Um tijolo derrubado por dia.

Giorgetti diz "precisamos de algo novo", sugerindo que isso deveria estar vindo das mulheres. Meu caro colega, se você acha que precisa de algo novo, crie. Faça você mesmo. Voa. Arrasa. Arrebenta. Mas não venha cobrar inovação daquelas que acabaram de chegar, e que só conseguiram chegar dando murros.

Outro ponto importante: não existe uma ordem totalizante na categoria "mulher". Somos diferentes, pensamos diferente, agimos diferente, nos afetamos diferentemente. Acreditar que "mulheres" devem fazer isso ou aquilo é considerar que o universal é o homem e que, a partir disso e em relação a isso, tudo se compara. Pensar assim é tirar de todas nós nossas identidades, nossos predicados, nossos atributos.

Esse pensamento justifica, por exemplo, que não haja duas mulheres comentando um mesmo jogo porque, claro, uma opinião "de mulher" basta. Esse tipo de pensamento leva a um território perigoso e totalitário.

Pois é, gente: o meio é machista. Muito machista. Porque o mundo é machista. É raro topar com pessoas como Roger Machado, Casagrande e Milton Leite.

Mesmo aqueles profissionais muitíssimo bem intencionados, aqueles que se dizem aliados, aqueles que fecham com a gente publicamente, trabalham, conscientemente ou não, para manter as estruturas funcionando. E fazem isso, muitas vezes, jogando uma mulher contra a outra. É uma tática antiga e todo homem sabe como executá-la.

O verdadeiro aliado não fala muito, não faz alarde, não quer ficar bem na fita. O verdadeiro aliado não interrompe o pensamento, a colocação, a fala de uma mulher.

O aliado é aquele que tem peito para corrigir a declaração machista do colega, é aquele que chama a atenção dos amigos nos grupos de Whatsapp diante de uma frase machista ou misógina, aquele que não faz elogio público ao caráter de alguém condenado por estupro, aquele não nos objetifica nem no privado. Se vocês atuassem mais na crítica uns dos outros estariam fazendo uma enormidade pela causa feminista.

Mas eu estou com Giorgetti quando ele diz que pode existir um outro futebol. Gosto dessa ideia e quero acreditar que estamos indo para lá. Só que ele não será construído pelos que sempre foram excluídos. Ele será construído em mutirão.

Meu colega termina o texto dizendo que gostaria de ouvir a gente falar com nossas próprias vozes. E eu digo que, para que ele escute nossas vozes, basta escutar com ouvidos de quem quer ouvir. Nós estamos falando. Estamos berrando. Estamos nos manifestando. Estamos respirando e sobrevivendo. É um trabalho de guerrilha, um machista por minuto, mas é o que estamos fazendo. Com alguns recuos táticos porque sabemos que o importante é seguir nesses espaços e ocupar um pouco mais a cada dia.

E se o texto começou com uma frase vazia ele termina com uma frase equivocada. Nela, o cronista diz que nossas sensibilidades são privilegiadas. Mil vezes não. Nossas sensibilidades não são um privilégio, muito pelo contrário: elas nos custam caríssimo. Elas são ensinadas. São imposições feitas de formas dilacerantes e devastadoras. São construções.

O que seria importante saber aqui é que essa sensibilidade que nos é atribuída como um privilégio e que nos custa caro está ao alcance de todos. Separar dessa forma os gêneros é, no subtexto, reconhecer que homens podem ser brutos e insensíveis porque essas são qualidades masculinas. Os piores crimes são aturados a partir dessa falsa premissa.

Enfim. Para quem chegou até aqui, meu muito obrigada. E para todas as mulheres que estão nesse meio, dentro ou fora do campo, meu maior respeito, carinho e admiração. Somos apaixonada por um esporte que, de verdade, ainda não gosta tanto assim da gente. Seguir amando esse jogo é um desafio diário. Mas a gente não tem medo de desafios e, assim, caminhamos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL