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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: O futebol feminino precisa imitar o masculino?

Jogadoras do Corinthians e do Palmeiras disputam a bola durante o primeiro jogo da final do Brasileiro-2021 - Marco Galvão/Agência Corinthians
Jogadoras do Corinthians e do Palmeiras disputam a bola durante o primeiro jogo da final do Brasileiro-2021 Imagem: Marco Galvão/Agência Corinthians
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

13/09/2021 19h30

O primeiro jogo entre Palmeiras e Corinthians pela final do Campeonato Brasileiro de futebol feminino me acendeu um alerta. É inegável que o futebol praticado por mulheres provou que pode ser altamente competitivo. Acho que nem há mais espaço para muito ramirrami nessa área.

Não existe nenhum fundamento do jogo que uma mulher execute de forma menos técnica do que um homem. A cobrança da falta que resultou no gol corintiano pode servir de prova se ainda houver por aqui algum plantonista da incredulidade. Victoria colocou a bola na área com uma precisão que, francamente, é rara no futebol mundial. O toque na bola, o cálculo da velocidade, da curva e do alcance são dignos de muitos elogios a despeito de estarmos falando de jogadoras ou de jogadores.

Mas se a técnica não deixa nada a desejar, talvez possamos olhar para tática e estratégia; ao simplesmente copiarmos o que fazem os homens talvez estejamos caminhando para um território perigoso.

O futebol masculino, salvo exceções, está chato, acovardado, truncado, faltoso, defensivo, conservador. Não existe mais muita coisa de criativo, de inovador, de transgressor. Nem no campo, nem nas entrevistas, nem nas comemorações. E, depois do jogo desse domingo, fiquei com a impressão de que estamos nos baseando num modelo fracassado para construirmos o nosso jeito de jogar.

O drible, esse fundamento que é mais nosso do que de qualquer outra cultura, não se faz mais presente. A organização do time em torno de conceitos defensivos e de marcação, o terrível medo de sofrer um gol que paralisa ações ofensivas, as faltas constantes e regulares e até a dancinha na comemoração do gol , tudo isso estamos importando do futebol dos rapazes.

Eu me pergunto se precisamos disso para construir a nossa forma de existir em um campo de futebol. Mais do que tentar encontrar respostas fáceis, gostaria de colocar aqui algumas dúvidas e inquietudes.

No futebol feminino, as comissões técnicas ainda são majoritariamente masculinas e é natural que apenas repliquemos o que é feito por lá. Então, um começo seria o de transformar as comissões técnicas em ambientes majoritariamente femininos - ou pelo menos equilibradamente distribuídos.

Novos jeitos de pensar o jogo, novas estratégias, novas táticas, novas organizações de defesa, de articulação de jogadas podem surgir dessa mistura. E aqui me refiro a incluir nas comissões técnicas mais mulheres cisgêneras, mas também mulheres e homens trans. Precisamos é de novos olhares e novos pontos de vista para desbloquear nossa imaginação que está irremediavelmente travada para quase todas as questões importantes da vida - e o futebol é uma delas. A chegada de novos atores capazes de imaginar o jogo sob múltiplos aspectos pode revolucionar o esporte.

Enquanto apenas imitarmos o que fazem os homens, seremos sempre a eles comparadas e, nessa corrida maluca e injusta, largamos décadas depois deles, o que revela apenas um dos aspectos da bizarrice da comparação.

É de se esperar que para o segundo jogo da final (o Corinthians chega com a vantagem da vitória no primeiro jogo) os times estejam mais abertos e ofereçam um espetáculo mais interessante. Mas deixo aqui esses questionamentos e uma proposta de debate sobre os caminhos do futebol feminino no Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL