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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Mano Brown faz entrevista histórica com os Meninos da Vila

O rapper Mano Brown na torcida pelo Santos - Reprodução/Instagram@manobrown
O rapper Mano Brown na torcida pelo Santos Imagem: Reprodução/Instagram@manobrown
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

17/09/2021 17h26

O que você admira nos seus rivais? Acho que todos nós temos aquele lugar onde guardamos uma espécie de admiração pelo clube que, em público, juramos detestar. Faz parte da cultura do futebol tentar esquecer que esse tipo de afeto existe. O Santos, por exemplo. Como corintiana o manual me incentiva a escutar Santos e imediatamente responder "sete a um eterno". Quase nunca falei sobre o que senti a primeira vez que fui a Vila Belmiro ver um jogo. Ou quando estive por lá para fazer entrevistas e coloquei os pés no estádio vazio numa terça-feira qualquer. A Vila Belmiro vazia nunca está de fato vazia. Um estádio não pode estar vazio, especialmente um estádio que foi a casa de Pelé. Colocar os pés ali com atenção é perceber que o tempo se contrai e existe um desdobramento temporal onde o Santos ainda joga com Pelé, Coutinho, Clodoaldo, Giovanni, Juary, Giba, Pita, Ailton Lira, Pepe, Zito, Neymar.

Eu estava no Morumbi quando o Santos foi campeão Paulista em 78 com seus Meninos da Vila. Era um estádio lotado, quase 90 mil pessoas, e uma geração memorável. Foi uma noite inesquecível mesmo para quem, como eu, não estava torcendo nem para um, nem para outro.

Todas essas sensações voltaram para mim ao escutar a entrevista que Mano Brown fez com Pita, Giba e Juary. Um papo sincero, reto, solto. Muitas memórias, muito bastidor, muita opinião sem media training, muita criatividade. Brown é um entrevistador requintado: deixa a conversa fluir, entra quando é relevante, faz o papo andar. Uma boa entrevista é como uma boa triangulação; precisa ser dinâmica, envolver e, especialmente, chegar em outro lugar.

Brown usa o futebol para falar de Brasil, de um Brasil que muitos de nós finge que não existe. Usa o futebol para explicar como nos formamos enquanto sujeitos ao nos apaixonarmos por uma camisa. Ao escutar o amor de Brown pelo Santos me pergunto se ele teria sobrevivido sem esse amor, sem essa troca de afetos, sem ter o Santos como fonte eterna de paixão, respiro, esperança. É poderoso perceber como um clube constroi as pessoas que somos e a forma como existimos no mundo.

As opiniões de Brown são sempre interessantes e num dos trechos que mais gostei ele reclama do Santos jogar às vezes com calções pretos, o que considera uma descaracterização. Concordo. Sinto a mesma coisa quando vejo o Corinthians entrar em campo com calções e camisas brancas. Esse não é o Corinthians. Jogar inteiro de branco deveria ser proibido pelo regulamento. Calções cinzas, por exemplo, já resolveriam a questão. Nesse trecho Brown diz para alegria dos entrevistados: "O que é o Santos? Homens pretos de roupa branca".

A entrevista é maravilhosa e qualquer um que goste de futebol certamente curtirá escutar. Única consideração que eu faria seria dialogar com uma declaração de Giba que disse que um jogador de futebol no Brasil tem média salarial alta. Sempre que posso considero importante acabar com essa romantização da carreira de boleiro no país.

Uma pesquisa divulgada pela plataforma Cupomvalido.com.br, que reuniu dados da CBF, Statista e E& Y, mostrou que mais da metade dos jogadores tem de se virar com um salário mínimo. Pior: 55% recebe remuneração de R$ 1.100, (sem direitos de imagem). Entre os jogadores que faturam até R$ 5.000 o porcentual cai para 33%. E apenas 12% têm remuneração superior a R$ 5.001. Isso apenas no futebol masculino. Os números do feminino são infinitamente mais duros. O futebol não existe num universo suspenso, completamente separado da nossa realidade social, econômica e política. Ele reflete o Brasil de forma real e absoluta. Para o que temos de bom, de nem tão bom e de miserável. Viva Mano Brown, Eliane Dias e o podcast que eles lancaram. Precisávamos demais disso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL