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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Se o jogo não pode parar por ser entretenimento, então que seja gratuito

Zico em 1982, na seleção brasileira - Jorge Araujo/Folhapress
Zico em 1982, na seleção brasileira Imagem: Jorge Araujo/Folhapress
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

04/04/2021 13h08

Outro dia li um cartaz que dizia: "Seja gentil com as pessoas; ninguém está bem". Achei que fazia muito sentido. Ninguém que eu conheço anda lá muito bem. Estamos enfrentando o desafio de nossas gerações, estamos sendo afetados a todo o instante por paixões tristes como o medo, o desespero e a desesperança. E o futebol, essa potência, não tem conseguido fazer muito para ajudar a gente a respirar.

Estou no time das pessoas que acham que os campeonatos deveriam ser interrompidos. Não apenas porque a cada jogo e a cada treino a vida daqueles profissionais é colocada em risco, mas também porque interromper é mandar o recado de que o momento é sério e exige atenção. Se a ocasião pede gentileza, essa seria uma delas.

Mas há quem argumente que futebol é entretenimento, e estamos precisando nos entreter. Discordo outra vez. Primeiro porque se fosse isso o sinal dos jogos - de todos os jogos - seria liberado gratuitamente. E a escala dos jogos seria feita para que um jogo não acontecesse no mesmo horário de outro. Assim, poderíamos ver todos eles. Isso não é feito; pelo contrário: jogos são marcados em horários coincidentes porque emissoras concorrentes usam a tática para brigar uma com a outra.

Abrir o sinal de todos jogos até a pandemia passar seria uma atitude de gentileza e de empatia.

E em segundo lugar não concordo porque mais do que entretenimento estamos carentes de consciência social e sanitária - e o futebol poderia ser usado como ferramenta para difusão de recados importantes sobre esse momento de nossas vidas. Clubes, CBF, Federações deveriam estar unidos em campanha nacional que comunicasse atitudes que podem salvar vidas, como não aglomerar, usar máscara, ficar em casa se possível, manter distância de dois metros de outras pessoas se tiver que sair.

Enquanto vivemos nosso inferno particular, o resto do mundo começa a flertar com uma espécie de volta a situações mais normais de vida: até Neymar retornou a campo com sua imaturidade ridiculamente irritante. Mas nem tudo é notícia ruim. De nossas TVs, podemos ver o genial Pep Guardiola e seu City funcionarem de fato como um tipo bem-vindo de entretenimento.

Não sabemos quando sairemos disso, mas sabemos que não sairemos sozinhos. Até que as coisas voltem a um tipo de normalidade - mesmo que jamais como antes - enfrentaremos mais perdas e mais tristezas.

Vamos sair do outro lado, sem dúvida. E vamos voltar a frequentar estádios e poder nos abraçar depois daquele gol improvável no final do jogo. Tudo isso vai acontecer. Resta saber se teremos aprendido algumas lições importantes e uma delas diz respeito ao que queremos do futebol profissional: ser torcedores passivos que se submetem a jogos tediosos e a dirigentes preocupados com o lucro acima da vida, ou tomar as rédeas desse jogo tão importante e lutar para que ele volte a ser grande, a ser arte e a ter apelo social?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL