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Julio Gomes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Fernandinho foi o melhor brasileiro em campo e apagou Neymar em Manchester

Fernandinho marca Neymar na semifinal da Champions League - PHIL NOBLE/REUTERS
Fernandinho marca Neymar na semifinal da Champions League Imagem: PHIL NOBLE/REUTERS
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

04/05/2021 17h57

Nós, brasileiros, somos muito mal acostumados com o futebol. Em uma semifinal de Liga dos Campeões da Europa, tínhamos dois brasileiros trocando flâmulas e disputando o cara ou coroa. Marquinhos, capitão do PSG. Fernandinho, do Manchester City.

Imaginem se fossem dois mexicanos? Ou dois coreanos? Ou dois nigerianos? Seriam capa de jornal, sem dúvida. Mas o Brasil é protagonista no futebol. Sempre foi e sempre continuará sendo. Então nem damos bola para essas coisas.

Nosso problema é achar que somos os melhores disparados. Não somos. Os brasileiros estão entre os melhores. Tem mais gente muito boa jogando, pensando, trabalhando futebol hoje em dia. O esporte não é mais nosso monopólio. Já faz um tempo.

Aliás, quem foi o grande cara da semifinal? Um tal Mahrez, nascido 30 anos atrás em Sarcennes, na França, de origem argelina. Fez três dos quatro gols do City na soma dos resultados (2 a 1 e 2 a 0). O futebol é global.

Hoje, três brasileiros jogaram muito na vitória do City sobre o PSG. Ederson, reserva imediato de Alisson no gol da seleção, fez um lançamento extraordinário para Zinchenko no lance do primeiro gol do time de Manchester. Fora isso, sempre seguro com os pés, com as mãos, cada vez mais justifica o altíssimo investimento feito nele.

O capitão do City, Fernandinho, foi um monstro. Completou 36 anos hoje, ganhou de presente a titularidade e simplesmente anulou Neymar. Ainda arrumou uma expulsão para Di María e impediu a expulsão de meia dúzia de nervosinhos do próprio time dele.

Sim, eu sei que Fernandinho foi mal no fatídico 7 a 1 de 2014 e também faltou sorte a ele, para dizer o mínimo, na derrota para a Bélgica em 2018. Gostamos de escolher heróis e vilões, principalmente em função de Copas do Mundo. Fernandinho não é herói com a camisa da seleção brasileira. Mas tem uma carreira estratosférica, que pouquíssimos tiveram na Europa. Em Manchester, é herói. Depois de hoje, ainda mais.

Do outro lado, Marquinhos foi Marquinhos novamente. Seguro, muito eficiente, segurando várias barras atrás e ainda ameaçando na frente. Depois de tantos gols decisivos nestes mata-matas da Champions, acertou a trave hoje no primeiro tempo. Sofreu na defesa, é claro. O time precisava ganhar e se expôs. Mas provou de novo ser um zagueiro de garantias. Só faltou leitura de jogo. Na entrevista após a partida, concluiu que foi "nos detalhes" que o City se classificou. Bem, foi um pouco mais do que isso.

Desconsiderando Gabriel Jesus, que entrou no finalzinho, o pior brasileiro em campo acabou sendo Neymar mesmo. Sem Mbappé, perdeu companhia. Não teve os apoios necessários, mas tampouco se mostrou capaz de tirar coelhos da cartola.

Sendo benevolente, dá para chamar de "OK" a participação de Neymar nos dois jogos das semifinais. Não esteve à altura do que a história pedia para o jogador mais caro de futebol do mundo.

Neymar é o melhor dos brasileiros, mas há vários fazendo coisas interessantes na Europa, que equivocadamente continuamos menosprezando. O Real Madrid, por exemplo, que pode ser o outro finalista, tem brasileiros importantíssimos: Casemiro, Vinícius Jr, Marcelo (mesmo em fim de carreira), Militão (jogando muito na ausência de Sergio Ramos).

Em campo, não vimos Neymar, mas vimos Ederson e Fernandinho. E o Manchester City chega a sua primeira final de Champions, jogando uma bola que não deixa a desejar a nenhuma das grandes seleções que tivemos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL