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De Maradona a Messi: Relembre craques que o Barcelona conseguiu perder

Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

27/08/2020 08h27

Messi tem um pé fora do Barcelona. Parece inacreditável, surreal, nunca achamos que este momento fosse chegar. Mas tem toda a pinta de que a decisão do argentino seja irreversível, ainda que a convulsão social na Catalunha possa acabar em renúncia do presidente Josep Maria Bartomeu e, talvez, uma mudança de rota.

"A Catalunha é um grande lugar para viver. Menos para um jogador de futebol". A frase é de Diego Armando Maradona, um dos craques históricos que estiveram no Barcelona por menos tempo do que deveriam. Entre Maradona e Messi, os casos se repetiram. Existe um padrão que não é visto em nenhum outro gigante europeu.

Messi está no time profissional do Barcelona há 15 anos e, neste período, mudou a história do clube. Com ele, o Barça passou de uma Champions para cinco. De zero Mundiais para três. De 16 Ligas para 26. E por aí vai.

Mas, se por um lado o Barcelona é um clube famoso mundialmente, que desperta paixões por sua proximidade com um estilo agradável de enxergar futebol, por outro estamos falando de uma instituição que já fez uma quantidade incrível de bobagens administrativas. Messi não será o único nem o último a sair do clube pela porta de trás.

O Barça tem a incrível capacidade de seduzir jogadores, que sonham em vestir a camisa blaugrana, mas também de expulsá-los. Parece não se esforçar para mantê-los, não usar as palavras certas para que sigam no clube após um ou outro problema que apareça. Qualquer chuvinha acaba em alagamento na Catalunha.

Nem irei considerar aqui na lista o famoso trio Ronaldinho, Deco e Eto'o, porque neste caso foi uma decisão estratégica do clube deixá-los sair e investir em uma renovação capitaneada por Messi e Guardiola. De todas as formas, o que aconteceu ali em 2008 mostra como o padrão se repete: craques que saem do clube pela porta dos fundos, sem o devido respeito por parte dos dirigentes.

O próprio Rivaldo deixou o Barça, em 2003, de forma constrangedora. Daniel Alves, mais recentemente, saiu do mesmo jeito, reclamando da falta de valorização. Thiago Alcântara, cria do clube, não passou os melhores anos no Barça e partiu para o Bayern por falta de espaço.

Vamos relembrar outros craques que deveriam ter ficado mais tempo no Barcelona, mas que acabaram se mandando em conflito com os dirigentes da vez.

LUIS SUÁREZ

Calma, não estou falando do uruguaio, que acaba de ser dispensado pelo clube. E, sim, do único espanhol até hoje a conquistar a Bola de Ouro (1960). O Barça foi buscar Suárez em La Coruña e, com ele, conseguiu finalmente, no final dos anos 50, romper o domínio absurdo do Real Madrid de Di Stefano. Havia, entre a própria torcida, uma corrente que apoiava a renovação do clube e o futebol dinâmico que trazia Suárez e outra que apoiava o tradicionalismo e jogadores da velha guarda, como Kubala. Após a traumática derrota na final europeia de 61, para o Benfica, o Barcelona vende Suárez para a Inter de Milão - por uma marca recorde na época. Resultado? O Barça, bi espanhol em 59 e 60, só voltaria a ganhar La Liga de novo em 1974, já com Cruyff. E Suárez foi ser bicampeão europeu com a Inter, sendo pedra angular de alguns dos melhores anos do clube de Milão, e ainda ajudou a Espanha a conquistar a Eurocopa em 1964.

Maradona e Messi -  -

DIEGO MARADONA

Ele chegou ao Barcelona em 1982, logo após a Copa, em uma transferência recorde para a época (US$ 7,6 milhões). Até chegou a ganhar uma Copa do Rei, fazer golaço em clássico no Bernabéu. Maradona era um gênio e fatalmente teria dado muitas alegrias ao Barça nos anos 80 - como deu ao Napoli e à Argentina. Mas uma batalha campal na final da Copa do Rei de 84 deu uma queimada no filme do argentino, que fora do campo tinha atritos com o presidente do clube, Josep Lluís Nuñez. Saiu pela porta dos fundos e cuspindo marimbondos.

Romário no Barcelona - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

ROMÁRIO

Aqui, convenhamos, não foi tanto culpa do clube. O Barcelona foi buscar Romário no PSV e o Baixinho jogou uma temporada e meia pelo clube. Foi com a camisa do Barça que ele fez o ano que fez em 1994, transformando-se em Bola de Ouro. Romário saiu para "buscar a felicidade" no Rio de Janeiro e veio jogar no Flamengo. Talvez o Barça pudesse ter encontrado maneiras melhores para deixar seu maior craque feliz. O grande companheiro de Romário, o búlgaro Stoichkov, sairia do clube em 1998 em ruptura total com os dirigentes, assim como, 10 anos antes, havia acontecido com o alemão Bernd Schuster, que pegaria o trem rumo a Madrid.

Ronaldo no Barcelona - AP Photo/Denis Doyle - AP Photo/Denis Doyle
Imagem: AP Photo/Denis Doyle

RONALDO FENÔMENO

Essa, para mim, é a mais absurda de todas. O Barcelona foi buscar Ronaldo no PSV em 1996, na transferência mais cara da história à época (US$ 19,5 milhões), e foi um tiro certíssimo. Ronaldo explodiu de vez com a camisa blaugrana, fez uma temporada 96/97 histórica (artilheiro da Europa, campeão da Recopa Europeia e Copa do Rei), virou o Fenômeno e se transformou no melhor jogador do mundo com apenas 20 anos. Mas novamente o presidente Nuñez entrou em rota de atrito com seu maior craque e empresários e, depois de apenas um ano, Ronaldo se mandou para a Inter de Milão, que pagou a cláusula recorde de US$ 27 milhões. É preciso dar o crédito a Nuñez, um empreiteiro que foi presidente de 78 a 2000 e mudou o status do clube. Mas o cara não podia ter perdido Ronaldo...

FIGO

... e nem Figo. Aliás, a saída de Figo para o Real Madrid foi a gota d'água e acabou na renúncia de Nuñez após 22 anos. O português jogou cinco anos no Barça e, quando sentou-se à mesa com uma oferta do Real Madrid, o presidente do Barcelona interpretou que ele estava apenas querendo melhorar seu contrato, que não sairia. Mas saiu. Porque o candidato à presidência do Real era Florentino Pérez, um empreiteiro cheio de grana e visão, como foi Nuñez em seu tempo. Pérez pagou a cláusula de 62 milhões de euros e levou Figo, que seria eleito o melhor do mundo naquele mesmo ano 2000. Pela quarta vez, o Barça perdia um melhor do mundo sem que os caras jogassem seus melhores anos com a camisa do clube.

neymar e messi - GettyImages - GettyImages
Imagem: GettyImages

NEYMAR

Mais um que saiu com cláusula paga por um rival, no caso o Paris Saint-Germain. A quinta transferência recorde de um jogador saindo do Barça, mais uma vez mais diante de olhares impotentes dos torcedores. OK, não podemos falar que Neymar fosse o melhor do mundo em 2017, como eram Suárez, Maradona, Romário, Ronaldo e Figo, mas já era um dos melhores. E o pior: com seus anos mais produtivos claramente ainda pela frente. Se o Barcelona não tivesse perdido Neymar, hoje não estaria tão assustado e sem chão com a provável saída de Messi. Neymar saiu porque quis? Sim. Mas também porque, pela enésima vez, o Barça não soube valorizar e convencer um craque a ficar.

Messi, sem dúvida, viveu o auge e deu ao clube tudo o que poderia ter dado. Ao contrário de Suárez, Maradona, Romário, Ronaldo e Neymar. O caso do argentino é mais parecido, guardadas as proporções, com os de Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho. Pelo menos o Barça teve o melhor desses caras. Mas todos saíram pela porta dos fundos. O que fala mais do clube do que deles.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL