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Julio Gomes


Dez anos atrás, o gol que eternizou Iniesta e a Espanha

Iniesta, Sergio Ramos e Xabi Alonso comemoram a conquista da Copa de 2010 da Espanha - Alex Livesey - FIFA/FIFA via Getty Images
Iniesta, Sergio Ramos e Xabi Alonso comemoram a conquista da Copa de 2010 da Espanha Imagem: Alex Livesey - FIFA/FIFA via Getty Images
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

11/07/2020 13h41

O passe de Fàbregas, o chute, o gol. De Iniesta. De San Andrés. O homem aplaudido em todos os campos da Espanha. O ser perfeito, que não se envolve em brigas nem polêmicas, que não fala mal de ninguém e nem pede independência de regiões espanholas - e nem se diz contra.

Para que a Espanha tivesse um herói de verdade, ele não podia estar mais para um lado ou para o outro. Tinha que ser Andrés, o correto.

No dia 11 de julho, em uma noite nem tão fria em Joanesburgo quanto outras daquela Copa, a Espanha entrou no seleto grupo de campeões mundiais. Ganhou o respeito no campo, respeito que nunca teve por parte de tantos. Aquele "jogou como nunca, perdeu como sempre", que tantas vezes falamos sobre o México, encaixava-se perfeitamente aos espanhóis.

E eles tomaram gosto. Quando ganharam, ganharam de verdade, uma dinastia. Euro-08, Copa-10, Euro-12 na sequência. Às vezes jogando melhor, às vezes pior. Mas ganhando. No futebol, como em muitos esportes, ganhar tem tudo a ver com acreditar que pode ganhar. A confiança decide títulos.

Mas não só, logicamente. Não dá para falar em falta de confiança quando um jogador como Robben perde os dois gols que perdeu naquela final - não foram apenas gols perdidos, diga-se, não dá para tirar o mérito de Casillas, um gigante no mano a mano.

Mas sim, pode-se falar em muita confiança quando revemos aquela partida e observamos como a Espanha foi para o golpe da morte ao sentir que podia ganhar. Del Bosque fez três substituições, o time estava inteiro em campo e percebeu que a Holanda, após passar mais de 100 minutos correndo atrás da bola, estava mortinha de cansaço.

Foi na prorrogação que a Espanha começou a criar uma chance atrás da outra e foi buscar a vitória. O gol de Iniesta não foi resultado só disso, foi a consagração de uma geração forjada no bom futebol, em que talento e inteligência foram priorizados em detrimento da força bruto e do jogo pragmático.

Na final, sete jogadores do Barcelona começaram como titulares. O time formado por Guardiola, campeão da Europa em 2009 e 2011 e dominador como poucos foram na história, brilhava paralelamente à seleção. O Barça tinha Messi, a Espanha, não.

Del Bosque, sucessor de Aragonés, decidiu montar um time mais sólido defensivamente para o Mundial da África. Houve a derrota na estreia, para a Suíça, em que a Espanha jogou bem e perdeu dezenas de chances, mas ficou marcada pelo resultado. Houve uma primeira fase sem sal, com vitórias sobre Honduras e Chile. Nas oitavas, um bom jogo contra Portugal, mas um péssimo contra o Paraguai. Na semifinal, a grande partida daquele time, se impondo sobre a Alemanha durante 90 minutos e chegando ao gol com Puyol. E depois, a final.

Foram quatro 1 a 0 seguidos, o que faz muitos pensarem que era uma seleção que jogava para o gasto. Um equívoco. É preciso olhar para o que foram as partidas, mais além dos placares. À exceção do jogo contra os paraguaios, foram ótimas exibições, em todas elas as vitórias deveriam ter sido mais elásticas. Exibições de um time que se impunha sobre o outro e tinha extrema confiança no futebol que praticava.

Talvez tenham saído poucos gols pela má fase que vivia Fernando Torres. Para a semifinal e a final, ele acabou saindo do time para a entrada de Pedro.

iniesta sem camisa -  -

Mas, claro, era o time de Iniesta. Um jogador que foi só melhorando com o tempo, ganhando confiança, passando a tentar, a dominar, a deixar os adversários sem muitas opções. Iniesta, que ainda joga lá no Japão, é um supercraque dos nossos tempos. Especialmente para quem valoriza o meio-campista, esse tão raro ser do futebol de hoje em dia. O jogador que pensa, que olha o jogo, que domina o tempo e o espaço. E que toma as melhores decisões quase que instintivamente, de alguma forma sabendo que aquilo é o melhor a fazer.

Inesta também tomou a melhor decisão ao homenagear Jarque, um jogador pouco famoso na Espanha, que havia tragicamente morrido meses antes. Era jogador do Espanyol, rival do Barcelona. Mas foi o nome dele que apareceu escrito a mão, na camiseta branca, quando Iniesta ajoelhou-se para comemorar o gol do título mundial e tirou a da Espanha.

Ele pensava em tudo. Assim como aquele time controlava tudo. Dez anos atrás, a Espanha quebrava uma barreira que parecia inquebrável. E ainda, de quebra, ganhava um super herói.

Julio Gomes