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Julio Gomes


No futebol, como na pandemia, cada vez mais o país do 'cada um por si'

Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

09/07/2020 04h00

Depois de todo o imbroglio, recursos, liminares, etc, o Fla-Flu que decidiu a Taça Rio foi transmitido pela Flu TV. Bom narrador, transmissão honesta, redonda. Clubista, claro, mas nada exagerado.

Mas vocês gostaram?

Dizer que esta é a evolução do futebol é absurdo, isso não ocorre na Europa. É a mídia independente dos clubes que segue fazendo as transmissões. Há melhores e piores, mas são essencialmente transmissões jornalísticas e sem lado.

Essa MP do Flamengo, que dá ao mandante o direito completo sobre o jogo, é mais um aprofundamento do "cada um por si" que marca nossa sociedade. É o individualismo pisando no coletivo. O interesse financeiro e comercial de cada um esmagando o crescimento do bolo de forma conjunta, dividida e equilibrada.

A pandemia do coronavírus escancarou o que, para mim, sempre foi claro. Somos uma sociedade falida no sentido coletivo. Cada um está de olho no seu, em resolver da melhor maneira as coisas para si e família. Não necessariamente deseja-se o mal alheio. Apenas ignora-se o outro. Não faz parte das preocupações de cada um tentar imaginar o que seria melhor para o todo.

Basta olhar para o trânsito, para a reunião de condomínio, para o empurra-empurra de todos os dias no transporte público, para o mercado de atestados médicos, etc, etc, etc. Por que o futebol seria diferente?

A transmissão do Fla-Flu teve um pico de mais de 3,5 milhões de conectados. É bastante gente. Certamente, muitos eram flamenguistas. E aí, curtiram? Caiu a ficha de que haverá FlaTV nos jogos em casa, mas haverá a TV adversária nos outros?

Isso que estamos vendo apenas faz ampliar bolhas de isolamento. Já não se fala mais de política para evitar desentendimento, já não se discute religião, agora vamos deixar o futebol ser dividido em guetos. Vozes que não se misturam, opiniões que não são confrontadas, nem mesmo ouvidas. Cada um em seu mundo.

Essa é a mensagem difundida no país. É a vitória de quem quer dividir.

Julio Gomes