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Julio Gomes


Champions League: Finais são prêmio para Portugal e podem até ter torcida

Estádio da Luz, em Lisboa, receberá a final europeia novamente após seis anos - Getty Images
Estádio da Luz, em Lisboa, receberá a final europeia novamente após seis anos Imagem: Getty Images
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

17/06/2020 11h12

Aqui no Brasil, faltam palavras para falar da volta forçada do futebol no Rio de Janeiro, enquanto corpos se amontoam e o que mais importa no Maracanã é o hospital montado por ali. Na Europa, a pandemia está em outro estágio. Morreu muita gente, houve muito sofrimento, mas as medidas duras e coesas dos governos nacionais conseguiram ajudar a controlar a disseminação do vírus e salvar vidas. Pouco a poucos, as coisas vão se encaminhando para um "novo normal". A reabertura está em curso, com padrões, regras, estágios, uma certa inteligência por trás.

O futebol já voltou nos principais centros - falta só a Premier League inglesa, que volta nesta quarta - e a Uefa decidiu que a Champions League será retomada em agosto, com um formato diferente. Os jogos de quartas de final e semifinais serão únicos, assim como a decisão. Esse "final eight" (12 a 23 de agosto) será todo disputado em Lisboa, nos estádios do Benfica e do Sporting, que foram construídos para a Euro-2004.

E a Uefa, através de seu presidente, Alexsander Ceferin, deixou aberta até mesmo a possibilidade de haver torcedores nas arquibancadas. "Hoje, o plano é termos portões fechados. Mas as coisas estão mudando e estamos avaliando todos os dias. Tomaremos uma decisão (sobre presença ou não de torcedores) até o meio de julho", disse, deixando as portas abertas.

"Lembrem-se de como estava a Europa dois meses atrás. As finais serão daqui a praticamente dois meses. As coisas mudam. Em julho, determinaremos se não haverá torcida, se só haverá torcida local ou se fãs dos clubes envolvidos poderão viajar a Lisboa para os jogos."

Istambul, que seria sede da final neste ano, fica para o ano que vem. As partidas de volta de oitavas de final que ainda precisam ser realizadas podem acontecer nas cidades portuguesas de Porto e Guimarães ou nos estádios dos times mandantes (em 7 e 8 de agosto). Essa decisão será tomada na primeira semana de julho.

É uma solução inteligente da Uefa. Encurta o torneio, concentra os times em uma mesma cidade por duas semanas, realiza grandes jogos, sem preocupações com voos, fronteiras, contágio, etc. Dentro do prejuízo inevitável, vai pelo menos gerar economia para os clubes e para a própria entidade, que faz a transmissão do evento. E a escolha não é à toa.

Lisboa foi apontada a sede desta Champions sui generis, entre outros motivos, porque Portugal foi e é um dos países que melhor lidaram com a pandemia. Tanto que o próprio Ceferin admitiu não haver plano B. Portugal é o destino da Champions, a Alemanha receberá as fases finais da Europa League.

"A Federação Portuguesa foi a primeira a oferecer ajuda para a Uefa", explicou Ceferin.

Situação e oposição portuguesas sentaram na mesma, conversaram, as linhas adotadas pelo governo tiveram apoio geral e irrestrito. A população portuguesa entendeu a necessidade do isolamento social e a quarentena foi realizada de forma muito mais voluntária do que forçada através de multas ou coisas do tipo.

Quem vive em Portugal relata como o país, ao ver o que estava acontecendo na Itália e começando a acontecer na vizinha Espanha, rapidamente fechou as fronteiras em março e soube compreender a necessidade do sacrifício para poupar vidas. E poupou. A Alemanha, dos países que lideram a União Europeia economicamente, deu uma aula de como lidar como a pandemia - mas da Alemanha já esperamos sempre coisas boas. Portugal foi quem surpreendeu, deu um show de civilidade e coesão e melhorou ainda mais sua imagem dentro da Europa.

Um país pequeno, lá no cantinho, desprezado por muitos, até. Que voltou a mostrar o seu valor no pior momento. Na esfera esportiva, recebe o prêmio simbólico de abrigar as finais da Champions League. Financeiramente, pode não significar nada para o país. Podem não haver torcida, turistas, ganhos. Mas é a imagem. No futuro, um país que já vive de turismo receberá a recompensa pelo trabalho bem feito.

Deveríamos nos inspirar em Portugal em vez de seguir agindo como loucos individualistas, que é o que se faz aqui no Brasil, de cima abaixo.

Julio Gomes