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Julio Gomes


Sincerão: Xavi e a Espanha não têm o tamanho que merecem no Brasil

Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

22/04/2020 04h00

Quem foi melhor? Xavi ou Zidane?

Vamos melhorar a pergunta. Quem foi mais importante para o funcionamento de seus times? Xavi ou Zidane?

Acho que as simples perguntas já deixam muita gente de cabelo em pé aqui no Brasil. Que absurdo é esse de colocar Xavi e Zidane na mesma conversa? Pois é. O absurdo, para mim, é não colocar. É por essas e outras que disse no quadro "Sincerão" (vídeo acima) que Xavi e a seleção espanhola são subestimados.

É claro que me refiro ao público brasileiro. Na Europa, Xavi e a Espanha têm todo o respeito que merecem. Mas, aqui no Brasil, existe uma mania que considero emblemática sobre nossa falta de humildade: quem triunfa contra o Brasil é muito mais respeitado e valorizado do que quem não o faz. Ganhar dos outros vale menos.

Zidane é um gênio. Eu até coloco o francês no meu top 10 da história. Mas ele sem dúvida tem um tamanho maior no Brasil do que em outros lugares. E isso acontece por ter destruído a seleção brasileira em duas Copas do Mundo. O mesmo acontece com Paolo Rossi, por exemplo, e tantos outros.

Xavi também é um gênio. Mas, quando enfrentou o Brasil, naquela final da Copa das Confederações de 2013, saiu humilhado do Maracanã. Claro que pouco importa que aquela seleção espanhola já vivia sua decadência (que seria comprovada na Copa-14 e na Euro-16) e que boa parte dessa queda passava justamente pela queda de Xavi, já com 33 anos e na reta final da carreira em alto nível.

Eu admiro demais o jogo de Xavi por uma série de razões. Ele nunca foi o mais alto nem o mais forte nem o mais rápido. Nunca foi goleador e nem de dar carrinho. Tinha tudo, pois, para não sobreviver no futebol contemporâneo. Não só sobreviveu, como triunfou. Porque o atributo era outro: nunca havia em campo alguém mais inteligente do que ele. O jogador capaz de ler as partidas, de entender perfeitamente o ritmo que seu time precisava que fosse imposto. Quando Xavi estava em campo, era ele quem estabelecia a velocidade do jogo.

Não era só isso, logicamente. Muita classe, muita visão de jogo, muita antecipação de movimentos. O cara era um monstro.

Foi assim no Barcelona e, claro, na Espanha. Em um período de quatro anos, a seleção espanhola ganhou uma Copa do Mundo e duas Euros. Nunca houve, na história do futebol europeu, uma seleção dominante por tanto tempo. A Alemanha de Beckenbauer se aproximou disso nos anos 70, a França de Zidane, entre 98 e 2000. Mas não por tanto tempo e nem com a mesma imposição de jogo.

Não é absurdo algum colocar a Espanha 08-12 no topo, como a melhor seleção europeia da história. Mas, aqui no Brasil, isso soará absurdo.

Como assim? Aquela Espanha que levou ferro aqui no Maracanã em 2013? Que na Copa perdeu da Suíça e suou sangue contra Paraguai, Portugal...?

espanha 2010 - GettyImages - GettyImages
Imagem: GettyImages

Sim, aquela Espanha. Aquela Espanha de um goleiro espetacular (Casillas), de três defensores de altíssimo nível e poder de decisão (Ramos, Puyol, Piqué), de volantes de talento e garantias (Senna, depois Xabi Alonso e Busquets), de meias extraordinários (Xavi, Iniesta, Silva, Fàbregas), de atacantes letais (Torres, Villa).

O time mais bacana era o de 2008, o mais ofensivo, sorridente, corajoso, descarado. O time de Luís Aragonés após os erros de 2006, um Aragonés literalmente sem medo de ser feliz. O time que superou a barreira contra a Itália (quartas), que jogou muita bola, que uniu um país que simplesmente parece impossível de ser unido - pelas diferenças regionais.

Em 2010, já com Del Bosque, era um time mais seguro, sim, mais medroso, até. Mas mais confiante e sabedor de suas forças e fraquezas. A Espanha troca um atacante por um volante, dá sorte, sim, em vários momentos. Mas faz um jogo imperial na semi contra a Alemanha, um banho de bola. E, em 2012, é campeã europeia quase no piloto automático que aquele time, jogando de cor.

Entre 2008 e 2012, por cinco anos, Xavi foi top 5 da votação para a Bola de Ouro. Ficou em terceiro em 09, 10 e 11. Estamos falando da era Messi-Ronaldo. Ele era o grande cérebro por trás dos feitos da Espanha.

No Brasil, essa turma não tem a admiração que merece. Deveriam estar lá no alto, em qualquer debate que se preze sobre "melhores da história".

Julio Gomes