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Julio Gomes


Sincerão: Por que eu acho Ronaldo Fenômeno superestimado

Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

15/04/2020 04h00

O UOL Esporte pediu e nós, claro, obedecemos! Minha participação no quadro "Sincerão" passou por vários temas, e explicarei um pouco melhor cada um deles aqui no blog. A começar pelo que talvez seja o mais polêmico. Me pediram para falar o nome de um jogador superestimado e eu respondi... Ronaldo.

Oras bolas, mas como assim??

Vamos lá. Primeiro, precisamos definir diretrizes. Ser superestimado não é ser ruim, certo? Eu apenas considero que Ronaldo não merece o tamanho que adquiriu. Para mim o tamanho dele é enorme, foi um craque. Mas não tanto quanto o que a maioria das pessoas e colegas dão.

Um amigo diz que Ronaldo, pelo que fez nos clubes, está mais para Eto'o, Ibrahimovic, do que para Messi, Cristiano Ronaldo. Eu vou discordar dele. Para mim, está no meio.

Não consigo colocar Ronaldo como um dos 10 maiores da história, como muita gente faz. Tirem da equação a Copa do Mundo de 2002 e todo o hype em cima dele feito pela emissora oficial. E verão que, a nível de clubes, ele ganhou pouca coisa. E olha que sempre jogou em grandes da Europa.

Ronaldo foi realmente um fenômeno entre 94 e 99. Era o melhor jogador de futebol do mundo com 20 anos de idade. Depois, nunca mais passou perto disso. Por causa das lesões? Sim, claro que as lesões graves de joelho mudaram seu destino. Mas, em 2002, após o penta, ele tinha apenas 25 anos. Quando saiu do Real Madrid, com 31 recém-completados, parecia (e já fazia tempo) um ex-jogador em atividade.

Aqueles anos pós-penta de Ronaldo foram, a meu ver, lamentáveis. Fez bastante gol? Fez. Mas caramba. O cara jogava no Real Madrid, com um monte de craques. Não era para terem sido anos mais memoráveis? Saiu pela porta dos fundos, assim como saiu do Barcelona e da Inter. Mas, desta vez, não porque quis, e sim porque foi escorraçado por Fábio Capello no meio da temporada.

Será que o Brasil teria sido campeão em 2002 sem a explosão de Ronaldo? Não sei. Sei que o melhor jogador brasileiro naquela Copa foi Rivaldo, mas não tiro os méritos de Ronaldo pela linda volta por cima, com dois gols na final, etc.

Rebato com outra pergunta. Será que o Brasil teria conseguido não ser campeão em 2006, com o time que tinha, se Ronaldo não tivesse sido convocado por Parreira? Vamos lembrar que o grande momento da seleção desde o penta foi aquela Copa das Confederações de 2005, com Robinho e Adriano no ataque, Kaká e Ronaldinho jogando sem a sombra da hierarquia do Fenômeno.

Ronaldo no Real Madrid - Fernando Camino/Cover/Getty Images - Fernando Camino/Cover/Getty Images
Imagem: Fernando Camino/Cover/Getty Images

Ronaldo não era chamado de presidente à toa. Na seleção, ele fazia o que queria. No Real Madrid, fazia o que queria. Tudo girava em torno dele, ninguém ousava desafiá-lo. Então, a meu ver, entre 2003 e 2008, Ronaldo foi muito mais nocivo do que benéfico para seus times e para a seleção. Essa crítica é rara, quase inexistente. E eu vi tudo isso de perto, ninguém me contou.

Essa crítica não apaga o monstro de jogador que foi Ronaldo entre 94 e 99, justamente eleito o melhor do mundo duas vezes.

Ronaldo jogou bola demais. Mas acho que, lesões à parte, poderia ter sido muito melhor do que foi na segunda metade de sua carreira. Por mais boa gente que ele tenha sido com seus pares (nunca conheci um jogador que falasse mal dele), creio que Ronaldo não teve a mesma boa vontade com seus treinadores e empregadores.

Sua imagem ao longo da carreira ficou preservada por causa da história de recuperação e, claro, porque era necessário preservá-la para o produto seleção brasileira. Depois, vieram os anos de bom moço no Corinthians para encerrar a carreira, o que deu uma melhorada na imagem dele aqui dentro.

Para mim, ele está na estante de grandes craques, como Ronaldinho, como Rivaldo, como Zico, como Garrincha, até. Mas não dá para colocá-lo no nível histórico de Messi e Cristiano Ronaldo, como muita gente põe. A carreira dele na Europa, em termos de números e títulos, talvez não entre nem em um top 30 histórico.

Ronaldo poderia, sim, ter sido um dos 5 ou 10 maiores da história do futebol. Pelo início, lá nos anos 90, fica claro que tinha potencial para isso. Mas não foi.

Acho que muitos o colocam em um Olimpo da bola ao qual ele não pertence.

Julio Gomes