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Julio Gomes


Champions, Olimpíada, Euro, eliminatórias: Criem coragem e adiem tudo!

Estátua de Vicente Navarro, torcedor-símbolo do Valencia - UEFA Pool/Getty Images
Estátua de Vicente Navarro, torcedor-símbolo do Valencia Imagem: UEFA Pool/Getty Images
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

11/03/2020 04h00

Jogos com portões fechados, seletivas olímpicas canceladas, risco à saúde pública. Dirigentes esportivos estão empurrando com a barriga algo que parece ser inevitável: tudo terá de ser adiado.

Champions League, Euro-2020, Olimpíada, Libertadores, eliminatórias... qual o ponto de manter isso tudo na agenda com a epidemia do coronavírus se alastrando por todos os continentes?

Com a água batendo no bumbum, os países europeus já estão proibindo aglomerações de pessoas. E isso tem gerado situações esportivamente inaceitáveis, como a que teremos hoje na Liga dos Campeões.

Paris Saint-Germain e Borussia Dortmund jogarão a partida de volta das oitavas de final com portões fechados - uma clara desvantagem para o time francês, que precisou jogar com torcida contra a ida, na Alemanha.

O mesmo acontecerá com Barcelona x Napoli e Bayern de Munique x Chelsea, na semana que vem, e esses jogos com portões fechados vão se multiplicando. Até aqui do lado, no Paraguai, já estão proibidos eventos esportivos com público.

Jogos sem público são a maior tristeza possível no esporte. O público é a alma, é a razão de ser. Guardiola mesmo disse isso ontem: "Qual o ponto de jogar se as pessoas não puderem ir?". E mais: jogos sem público levam centenas, milhares de pessoas a se reunirem em bares ou outros locais do tipo para... assistirem aos jogos! Essa é uma cultura europeia, é pior ainda estarem juntas no bar do que em um estádio aberto.

A Europa League, por exemplo. As oitavas de final começam na quinta-feira. O Getafe já anunciou que não viajará a Milão - a Lombardia é o epicentro do coronavírus na Europa. Para que iniciar a fase de mata-mata, com alguns times jogando em casa e outros jogando sem torcida??

Jogos de eliminatórias para a Copa de 2022 têm dois anos para serem realizados! A Eurocopa, que por coincidência não está marcada para ser em um lugar só e, sim, em 12 países europeus, com enormes massas de torcedores se deslocando e se misturando, pode ficar para o ano que vem, oras bolas!

Aliás, se a Euro fosse adiada, com a chegada da primavera e depois o verão na Europa, daria tranquilamente para empurrar para maio, junho e até julho os campeonatos domésticos, Champions League e Europa League.

Por que desafiar o vírus neste momento de pânico? Por que criar situações esportivas tão anormais, com esses jogos fechados? Que adiem, puxa vida.

No caso olímpico, a data está um pouquinho mais longe, mas várias seletivas ou eventos estão sendo adiados. Pensem que para todas as modalidades, menos futebol, a Olimpíada é a coisa mais importante que existe! Há atletas que vivem para o ciclo olímpico e que às vezes só conseguem competir um ciclo olímpico. Nem todo mundo é Michael Phelps.

Há atletas que desenharam sua programação para ter o pico em determinado momento, para disputar a competição preparatória X, para se classificar na seletiva Y. E se algum contrair o vírus? Certamente haverá muitos. Essas pessoas não podem ser prejudicadas dessa forma. Viagens, hotéis, tudo isso pode ser remarcado. A Olimpíada precisa ser adiada por alguns meses, em nome da justiça esportiva com todos os atletas.

O mundo claramente está seguindo na direção de confinamento nas próximas semanas, meses. Não acho que governantes saibam exatamente o caminho a seguir, mas é uma tentativa de diminuir interações sociais enquanto não chega o calor no hemisfério norte e enquanto não sai dos laboratórios algum tipo de vacina que ajude a conter o coronavírus e evitar a morte das pessoas de mais idade ou condições físicas debilitadas - as vítimas fatais do corona.

Os hospitais estão lotados, os serviços de saúde não estão dando conta e não vão dar conta quando a coisa começar a se espalhar aqui no hemisfério Sul. Não há o que fazer. É preciso ter coragem. Vai ser necessário adiar tudo, desagradar televisão, desagradar patrocinadores, remarcar campeonatos e adaptar o calendário a uma realidade que ninguém queria enfrentar.

Paciência, que assim seja feito. Agora, jogos com portões fechados? Não mais, por favor!

Julio Gomes