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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Vai ter Olimpíada? Enquanto Tóquio flutua na pandemia, nem japoneses sabem

No fim do ano passado, os anéis olímpicos foram recolocados em Tóquio após quatro meses escondidos - Issei Kato/Reuters
No fim do ano passado, os anéis olímpicos foram recolocados em Tóquio após quatro meses escondidos Imagem: Issei Kato/Reuters
Denise Mirás

Denise Mirás

Jornalista especializada em esportes, perto de cobrir sua nona Olimpíada (ou passar uma temporada em Tóquio contemplando as cerejeiras).

20/04/2021 13h35

Fim de abril e os Jogos Olímpicos de Tóquio, com início marcado para daqui a três meses, ainda "estão no telhado". Jornalistas de todo mundo só têm em mãos o guia de imprensa enviado globalmente em fevereiro, com informações defasadas. Sobram dúvidas e incertezas. Estou com apartamento reservado e pago desde 2019 e preciso comprar passagem. Mas como saber se estarei trabalhando na minha nona Olimpíada?

Enquanto a Covid-19 entra em sua quarta onda no Japão, não dá nem para ter certeza quanto à realização desta 32ª edição olímpica. Ou se faz algum sentido competir pelo "congraçamento dos povos" em meio ao caos mundial. O Comitê Executivo do Comitê Olímpico Internacional (COI) com certeza estará na linha de tiro de perguntas cruzadas na coletiva online marcada para começar às 7h de Brasília desta quarta-feira (21).

Queda-de-braço

Seiko Hashimoto, presidente do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos de Tóquio - Yamazaki Yuichi/Pool via Xinhua - Yamazaki Yuichi/Pool via Xinhua
Hashimoto Seiko, presidente do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos de Tóquio
Imagem: Yamazaki Yuichi/Pool via Xinhua

Passei os últimos dias lendo entrelinhas da imprensa japonesa (as edições em inglês...) na tentativa de captar alguma informação mais segura. O que se infere das declarações de políticos, dirigentes esportivos e especialistas em saúde pública é uma queda-de-braço entre aqueles que defendem a Olimpíada e os que apelam por seu adiamento ou mesmo cancelamento. Há ainda papagaios de pirata assistindo à disputa, se equilibrando em cima do muro para ganhar tempo.

Como 70% da população está contra os Jogos segundo pesquisas mais recentes, fico imaginando como seria a recepção dos brasileiros, com nossa fama de caldeirão de cepas no coronavírus. Os políticos japoneses debatem entre si e/ou se contrapõem a epidemiologistas, que classificam a realização da Olimpíada como irresponsável, antiética e anticientífica. O alerta é que na pós-Olimpíada o Japão pode se tornar um "superespalhador" de variantes do vírus pelo mundo, coletadas de representantes de mais de 200 países competindo em 33 esportes e espalhados em 42 instalações esportivas.

Mesmo sem público estrangeiro e restrição de delegações, apenas com voluntários e funcionários voltados a serviços essenciais relacionados a alimentação e lixo, por exemplo, a conta de quem está envolvido com a Olimpíada já chega a 150 mil pessoas.

De toda forma, Tóquio 2020 já se afasta dos princípios olímpicos de igualdade: para começar, atletas de países que nem conseguiram treinar vão competir contra outros que tiveram todas as condições. Federações esportivas internacionais se omitem e o COI se despe desse espírito, trocado pelo aconchego junto aos patrocinadores.

E o encontro entre os povos, representado pela Vila Olímpica? Também foi para o espaço? Ou será "aglomeração com distanciamento"? Só um exemplo do pesadelo logístico em tempos de coronavírus: em uma Olimpíada, os mais de 12 mil atletas costumam comer todos no mesmo refeitório...

Terceiro "estado de emergência"

Japoneses rezam no templo Teppou-zu Inari, em Tóquio, pelo fim da pandemia do coronavírus - Christopher Jue/Getty Images - Christopher Jue/Getty Images
Japoneses rezam no templo Teppou-zu Inari, em Tóquio, pelo fim da pandemia do coronavírus
Imagem: Christopher Jue/Getty Images

De objetivo nesta semana há um pedido pelo terceiro "estado de emergência" na área metropolitana de Tóquio, esboçado no domingo (18) por causa da aceleração no número de infectados. A doença se mostra mais rápida e mais letal, atingindo pessoas entre 20 e 30 anos, e os japoneses estão assombrados com 4.000 casos/dia no país todo (aqui, os 4.000 são o número de mortes ao dia).

A demanda está sendo discutida na área de saúde, com fechamento total de bares e restaurantes, e pode ser apresentada ao governo central na sexta-feira (23) deles (que ainda pode ser quinta para nós, dependendo do horário).

A cada dia mais áreas metropolitanas apelam ao governo central japonês e já entram em estado de emergência. As pesquisas seguem apontando alta taxa de rejeição dos Jogos Olímpicos pela opinião pública, com passeatas pelas ruas de Tóquio.

Alguns políticos dizem que realizar a Olimpíada seria uma prova de que a humanidade pode vencer o vírus —e amenizaria prejuízos, além de ser uma responsabilidade para com o mundo, já que o Japão se comprometeu com a festa. Outros afirmam que o dinheiro gasto poderia ser empregado na pandemia ou em Fukushima, área ainda abalada pelo tsunami e o acidente nuclear de 2011. O COI meio que deixa a decisão para os japoneses, mas não quer abrir mão do bilionário montante de dinheiro que seus patrocinadores e e a rede de TV norte-americana NBC pagam pelo evento. Questão de sobrevivência.

Cadê as vacinas?

Primeiro-ministro do Japão, Yoshihide Suga, é vacinado contra covid-19 em Tóquio - Kyodo/via Reuters - Kyodo/via Reuters
Primeiro-ministro do Japão, Yoshihide Suga, foi vacinado contra covid-19 em 16 de março
Imagem: Kyodo/via Reuters

Em meio a tantas notícias picadas, contra e a favor, o melhor termômetro é uma amiga de anos, japonesa de Tóquio. Ela me conta sobre o dia-a-dia em geral: a população passou a usar duas máscaras, as pessoas - conscientes - só saem de casa para ir ao mercado e o trabalho presencial em escritórios acontece duas ou três vezes por semana.

Mas... e quem prepara para trabalhar nos Jogos? Como quem está vindo de outros países ficarão alojados? E a indicação de que "transporte público só com permissão especial" vinda do comitê organizador? Dos responsáveis por Tokyo2020, como eles se chamam, só consegui uma resposta automática: "Leia o guia; por enquanto é o que temos". Para me ajudar, a amiga bem-humorada telefona, ouve a mesma mensagem, rebate que a versão de fevereiro do guia não serve de nada, porque a situação é outra, e finaliza (para mim): "Estou desiludida com o governo". Ora, ora!

O que me espanta, se é que ainda consigo me espantar, é quando me diz que a vacinação estava sendo apenas para médicos e enfermeiros da linha de frente —nesta semana, li que começaram com a faixa acima de 90 anos. Ela acredita que a vacinação de idosos vá até o fim de junho e depois comece para aqueles com risco de doenças.

Há outro "pequeno" problema, a amiga lembra: o Japão ainda debate qual vacina irá comprar. E há ainda o secular desencontro com a China. A oferta dos chineses de uma remessa para imunização dos atletas japoneses foi devidamente dispensada. Aproveito para saudar mentalmente o SUS, porque até junho devo estar imunizada.

Cerejeiras em 2022?

Homem fotografa flores de cerejeira em Tóquio, no Japão, em 2014: a época de floração é marcada por festas no país - Toru Hanai/Reuters - Toru Hanai/Reuters
Homem fotografa flores de cerejeira em Tóquio, no Japão, em 2014: a época de floração é marcada por festas no país
Imagem: Toru Hanai/Reuters

A amiga se mostra preocupada com os muitos casos na região de Osaka (mesmo que não tão próxima de Tóquio, no Japão tudo é perto). Na região metropolitana da capital foram 543 casos —ou mais de 500 pelo sexto dia consecutivo, como publica a imprensa, com aumento de 20% em relação à semana anterior. Ela diz que morre de medo e pensa em sair da cidade durante o período da Olimpíada, levando os parentes idosos. Não está sozinha, como se vê por depoimentos na mídia japonesa.

Enquanto isso, segue o baile. Ops, o revezamento da tocha. Só com uns desvios das áreas mais infectadas (para os padrões japoneses, claro). Decisões também vão passando de mão em mão, como a tocha, à espera de que a pandemia se reduza sem a devida vacinação em massa. Mas não dá mais para desviar da urgência de respostas: afinal, compro ou não compro minha passagem para Tóquio?

Será que poderia mudar de novo o airb&b, se for o caso, para ver as cerejeiras em flor de 2022?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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