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Esporte Íntegro como ferramenta de desenvolvimento do Brasil

Kelly Santos Müller, ex-jogadora seleção brasileira de basquete, medalhista olímpica - Divulgação/Wander Roberto
Kelly Santos Müller, ex-jogadora seleção brasileira de basquete, medalhista olímpica Imagem: Divulgação/Wander Roberto

Kelly Santos Müller*

22/10/2020 15h45

A atividade física e a prática esportiva estão diretamente ligadas ao desenvolvimento cognitivo, motor e afetivo, de acordo com os estudos do educador francês Henri Wallon.

Historicamente, os clubes se organizaram em associações ou sociedades civis sem fins lucrativos. Isto porque o esporte era amador, em que de fato, não se almejava lucro.

Porém países de primeiro mundo visionaram o esporte como ferramenta de desenvolvimento e, de fato, vem se concretizando o sucesso da indústria esportiva.

Na Inglaterra existe o clube-empresa. Esse modelo é bem visto pelos órgãos públicos, já que uma empresa é mais fácil de ser fiscalizada do que uma associação. O modelo também favorece clubes que pretendem trazer investidores para o seu capital social (nenhum investidor consegue comprar participação em associações, mas consegue comprar quotas de clube-empresa, que, via de regra, se organiza no Brasil na forma de sociedade limitada).

Existem ainda sistemas híbridos de clube-empresa. Em Portugal, por exemplo, foi criado o conceito de SADs (Sociedades Anônimas Desportivas). Nesse modelo, os clubes permanecem como associações, mas é criada uma nova empresa que administra o futebol profissional e essa nova empresa é detida uma parte pelo antigo clube e outra parte por investidores (eventualmente levando-se ações à Bolsa de Valores).

No Brasil, apesar de a Lei Pelé tentar regular a matéria, por conta das diversas alterações desordenadas que foram nela promovidas, não temos um ambiente seguro para os clubes se transformarem em empresas. A redação da lei acabou por ficar confusa e as entidades que governam o futebol ficam igualmente confusas, com toda a razão, quando recebem uma solicitação de conversão de clubes associativos em empresas.

O mais importante de tudo é ratificar que a modernidade da administração e o sucesso do clube não estão atrelados à conversão do clube em empresa. Na verdade, o sucesso está no comprometimento de seus administradores, na transparência, no acesso das suas gestões e no sucesso de resultados das competições. Isso se pode conseguir com ou sem a forma de clube-empresa.

A opção pela conversão em clube-empresa deve ocorrer quando for a maneira viável, por exemplo, quando se pretende trazer investidores para o seu quadro.

Isso sem falar na indústria do esporte, que é uma das que mais contribui para a formação do nosso PIB (Produto Interno Bruto). A expansão das academias pelo Brasil provocou o crescimento do parque industrial de equipamentos para essa área: vestuários, calçados, setor alimentício etc. Tudo isso tem a ver com a indústria do esporte.

Não é só competição, é business, negócio mesmo. Mas o brasileiro, inacreditavelmente, ainda não vê esse segmento como elemento de desenvolvimento nacional, não apenas humano, mas empresarial.

Enfatizamos que, com relação a igualdade de gêneros, temos muito a avançar nas necessidades de desenvolvimento avaliando que se mulheres e homens tivessem o mesmo salário e igual papel no mercado de trabalho, o PIB mundial cresceria 26%. A estimativa, da OIT (Organização Mundial do Trabalho), está sendo usada como mote para promover a igualdade de gênero em empresas.

Batizado de "Ganha ganha", ou "Win win", em inglês, o programa é liderado pela ONU Mulheres em parceria com a OIT e União Europeia e já vem criando impacto no Brasil.

Como canalizar toda paixão esportiva em indústria? Qual segredo para visualizarmos atletas de renome e todo um setor esportivo impulsionando o desenvolvimento socioeconômico de um país? Quais as possibilidades do poder público levar o esporte a sério? A real pergunta que devemos fazer é: "O que o esporte pode fazer pela política?"

A falta de representatividade de ídolos do esporte dentro do poder público é visível tornando cada vez mais difícil o acesso para esporte ter o seu devido respeito.

Há menos de um mês das eleições municipais, dentro de um ano atípico para um mundo que parece estar tentando se recuperar da quarta guerra mundial, um cenário político que parece destacar os extremistas, as novas leis eleitorais de coligações vêm trazendo um afunilamento para despreparados e com pouca representatividade.

Na antiga lei eleitoral quando um candidato tinha uma votação muito expressiva, inflava o quociente partidário. Como nem sempre as coligações eram formadas por simples alinhamento ideológico, uma pessoa podia votar em um candidato progressista e acabava elegendo um outro de um partido conservador e vice-versa. Com a reforma de 2017, esse fenômeno não existirá mais.

Agora, um candidato bem votado ainda pode puxar outros sem tantos votos, mas todos eles serão da mesma legenda. Uma regra em vigor desde 2018, contudo, define que só podem ser eleitos aqueles que tiverem votação igual ou superior a 10% do quociente eleitoral (divisão do total de votos válidos da eleição pelo número de vagas). A ideia é evitar que sejam eleitos candidatos sem nenhuma expressão nas urnas.

Um estudo das pesquisadoras da FGV Lara Mesquita e Gabriela Campos, entretanto, mostrou que, de 1998 a 2014, só nove deputados federais foram eleitos sem votação de no mínimo 10% do QE de seu estado - todos eles em São Paulo. Dos nove, cinco foram puxados por Enéas Carneiro (Prona), em 2002, e quatro por Celso Russomanno (PRB), em 2014.

Estarão as novas rígidas regras eleitorais passando mais segurança aos nossos ídolos esportivos para ingressar no mundo político por busca de mais integridade e acessos?

*Kelly Santos Müller é candidata a vereadora em São Paulo, pelo PTB. Começou a jogar basquete aos 12 anos, durante 21 anos jogou pela seleção brasileira, conquistou a medalha de bronze na Olimpíada de Sydney-2000 e morou em nove países diferentes entre Europa, Ásia, Estados Unidos e América do Sul, participando de grandes times.

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