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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Simone Biles faz o que todas nós precisamos fazer: parar antes de quebrar

Simone Biles - Laurence Griffiths / Equipa
Simone Biles Imagem: Laurence Griffiths / Equipa
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

27/07/2021 16h40

A importância do que Simone Biles fez hoje, ao desistir de seguir na competição por equipes da ginástica artística, em Tóquio, talvez só seja verdadeiramente compreendida com o passar do tempo. Como foi a saída de Naomi Osaka de Roland Garros, em maio, também com o intuito de proteger sua saúde mental.

Ainda na arena, quando não sabíamos exatamente o que acontecera, chamou-me a atenção o fato de Biles torcer pelas companheiras pulando, sorrindo, sem aparentar nenhuma lesão. Como se quisesse deixar claro para o mundo que não havia nada errado com seu corpo. Ela poderia facilmente ter botado um gelo na panturrilha e encerrado a polêmica, mas não.

Então, ela falou. E todas as especulações ruíram.

Com a palavra, a maior ginasta de todos os tempos:

"Acho que a saúde mental é mais importante nos esportes nesse momento. Temos que proteger nossas mentes e nossos corpos, e não apenas sair e fazer o que o mundo quer que façamos."

"Eu não confio mais tanto em mim mesma. Talvez seja o fato de estar ficando mais velha. Não somos apenas atletas. Somos pessoas, afinal de contas, e às vezes é preciso dar um passo atrás."

"Eu não queria ir lá, fazer algo estúpido e me machucar. Sinto que muitos atletas se manifestando realmente me ajudou. É tão grande, são os Jogos Olímpicos. No fim de tudo, não queremos sair carregados de lá em uma maca."

Fico imaginando a cena (porque conheço bem a cena). A mulher com medo de cometer um erro e se machucar. Não está bem. Quer parar. Atingiu seu limite. Sente a "pressão do mundo sobre os ombros", como ela escreveu no Instagram. Mas é obrigada a seguir, sente que não tem opção. É o que esperam dela: dar mais do que pode, do que quer.

Não desta vez.

Uma mulher, jovem, negra, vítima de um dos maiores casos de abuso sexual da história da humanidade, em uma modalidade conhecida por ultrapassar todos os limites com seus atletas, com crianças!

Uma mulher que não só tem voz, como todas temos: ela tem poder, força, plataforma. Ela é maior do que o esporte que representa. Ela pode fazer o que tantas de nós já deixamos de fazer inúmeras vezes: parar antes de quebrar.

Esta mulher disse "não". E, ah, quantos nãos ficam para trás, carregados de séculos de opressão.

Simone Biles não pipocou. Ela se priorizou. Colocou seu bem-estar acima dos interesses da ginástica americana, do Comitê Olímpico Internacional, das emissoras, da torcida, de quem quer que fosse que esperasse algo dela - e éramos centenas de milhões.

Simone Biles é um ícone. Não só pelas 30 medalhas conquistadas em Mundiais e Jogos Olímpicos, com apenas 24 anos. Não só pelo seu importantíssimo ativismo antirracista. Hoje, ela se consolidou, fora dos aparelhos, como um exemplo do que é ser humana. Do que é verdadeiramente ser forte. Sem medo do que os outros vão pensar.

Simone Biles é gigante.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL