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Sim ou não?

Sim ou não?

Mudar hábitos para proteger planeta custa mais caro? Especialistas explicam

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Imagem: iStock

Antoniele Luciano

Colaboração para Ecoa, de Curitiba (PR)

04/03/2022 06h00

Querer é poder? No Brasil, nem sempre. Segundo uma pesquisa desenvolvida no ano passado pelo Instituto Akatu em parceria com a GlobeScan, 86% dos brasileiros desejam reduzir seu impacto individual no meio ambiente. No entanto, uma das principais barreiras para colocar isso em prática, conforme o levantamento, é a crença de que um estilo de vida mais sustentável pesaria no bolso. Metade do público ouvido acredita que viver assim custa mais caro do que com escolhas convencionais de consumo.

Essa percepção é maior entre a geração Z (57%), possivelmente por envolver um público sem renda própria ou com uma renda de início de carreira, diz o estudo. A Pesquisa Vida Saudável e Sustentável 2021 ouviu cerca de mil pessoas maiores de 18 anos no Brasil e foi aplicada em outros 30 países, onde a barreira financeira também apareceu junto a 50% dos entrevistados.

Pelo menos no Brasil, essa percepção estaria correta? Viver de forma sustentável custa realmente mais? Ecoa ouviu especialistas para entender e explicar o assunto.

NÃO

Escolhas diárias de baixo custo

Pesquisadora na área de economia circular, a professora Maria do Carmo Duarte Freitas, do departamento de engenharia civil da Universidade Federal do Paraná (UFPR), assinala que viver sustentável não está apenas atrelado ao consumo de produtos de última geração ou de marcas que se assumem como sustentáveis. Ela defende que isso também está ligado à incorporação de hábitos de baixo custo.

Entre as alternativas estão a opção por roupas e móveis de segunda mão, moradia o mais próxima possível do trabalho e uso de transporte público ou bicicleta em vez do carro, a fim de reduzir a queima de combustíveis fósseis. "Em vez de comprar algo novo, que vai retirar recursos da natureza para ser produzido e terá um ciclo de vida longo, a pessoa pode procurar o vintage", observa. Além disso, dar preferência para produtores da comunidade onde o cidadão vive também é uma prática sustentável, o que pode envolver desde a mercearia à academia. "Vejo que é uma questão cultural. Não é dinheiro — é exemplo, é hábito", define Maria do Carmo.

Na área da alimentação, Bruna Tiussu, da Akatu, aponta como prática sustentável barata para o dia a dia o aproveitamento integral dos alimentos. A ideia é evitar desperdício de sementes, cascas e talos, que se tornariam resíduos, e economizar a partir da possibilidade de se preparar mais receitas com a mesma quantidade de vegetais, por exemplo.

Com planejamento é possível reduzir custos

Pesquisar e planejar meios para se levar uma vida sustentável pode não só baratear essas escolhas, mas potencializá-las, analisa o professor Sérgio Fernando Tavares, também do departamento de engenharia civil da UFPR. Ele cita os projetos habitacionais como uma forma de reduzir o impacto ambiental, uma vez que a construção civil é um dos setores que mais demandam recursos naturais. Para se ter uma ideia, a fabricação de cimento é uma das grandes geradoras de gases do efeito estufa: de 8% a 10% do CO2 excedente na atmosfera.

"Além disso, as pessoas estão escolhendo materiais cada vez mais distantes da realidade local e isso também gera impacto. O revestimento, a cerâmica, os pisos, quase que 40% do que temos comprado vem da China. É uma loucura o impacto ambiental disso, o produto atravessar um oceano para chegar até aqui", diz o professor.

Tavares afirma que a moradia sustentável demanda pesquisa sobre materiais locais e seu ciclo de vida, bem como planejamento para lidar com questões de iluminação e calor levando em conta as características da região. O professor reforça que, para isso, é importante desmistificar a ideia de que projetos habitacionais são caros. "O que tem acontecido é que as pessoas estão deixando de fazer projetos novos — as coisas estão semiprontas, sem considerar essas particularidades. As edificações são mal aproveitadas em termos de recurso de luz natural e ventilação, por exemplo, o que aumenta a necessidade de condicionamento", explica.

SIM

Mais custos na cadeia de produção

"Na verdade, quando você tem condições de escolher um produto mais sustentável, é como se estivesse escolhendo pagar esses custos agora e não depois. Porque ou esses custos são pagos agora, diretamente na compra desses produtos, ou no futuro, seja na limpeza do meio ambiente ou em tratamentos de doenças", comenta Bruna Tiussu, gerente de comunicação do Instituto Akatu.

Comprar produtos considerados sustentáveis costuma ser mais caro, segundo Bruna, porque esses itens incorporam em sua produção os custos decorrentes dos cuidados ambientais e sociais que promovem. É uma conta que está por trás de toda a cadeia de produção e pode envolver, por exemplo, a opção por matéria-prima biodegradável e certificada, pagamentos mais justos a colaboradores, escolha de fornecedores locais e transporte que emita menos gases do efeito estufa.

Ela cita os alimentos orgânicos certificados como produtos com esse valor sustentável. O consumidor, nesse caso, pode ter a certeza de que estará levando para casa um alimento que não está relacionado ao desmatamento, à poluição das águas ou a agrotóxicos que fazem mal, inclusive, à saúde dos próprios produtores e consumidores. Entre os fatores que elevam o preço do orgânico estão uma menor escala de produção, o que tende a encarecer o preço unitário, e o custo da própria certificação, que exige que o produtor siga uma série de critérios ambientais e sociais.

Dificuldades para além da produção

Bruna destaca que o custo de produtos sustentáveis envolve ainda dificuldades relacionadas a incentivos de outros setores, como o governo. "Não dá para generalizar, mas o fato é que, do ponto de vista das empresas e indústrias, muitas estão se esforçando sim [para serem mais sustentáveis], mas isso requer tecnologia, infraestrutura, incentivos do governo, políticas públicas, detalhes que não são tão simples e exigem investimento", afirma. Esse investimento e outros custos relacionados, quando bancado pelas empresas, muitas vezes acabam sendo repassados ao consumidor.

"Por isso, temos a impressão de que essa mudança demora mais do que gostaríamos", completa ela, ao salientar que, hoje, é mais fácil uma empresa nascer sustentável do que passar por essa transformação.

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