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Alimentos industrializados plant-based são opção saudável e sustentável?

Hambúrguer industrializado à base de plantas - iStockphoto
Hambúrguer industrializado à base de plantas Imagem: iStockphoto

Antoniele Luciano

Colaboração para Ecoa, de Curitiba (PR)

03/02/2022 06h00

Os alimentos plant-based, produzidos à base de plantas, estão ganhando cada vez mais espaço no prato dos brasileiros. Uma amostra disso é o faturamento dessa indústria. Dados da agência Euromonitor apontam que, entre 2015 e 2020, o faturamento do setor cresceu quase 70%, saltando de R$ 246,7 milhões para R$ 418,7 milhões. Trata-se de um movimento que acompanha outra tendência - a redução do consumo de carne no país.

Segundo uma pesquisa do The Good Food Institute, realizada com 2 mil pessoas de todas regiões do Brasil em 2020, metade dos entrevistados contou ter reduzido o consumo de carne nos últimos 12 meses. Ao serem perguntados sobre alternativas vegetais para substituir produtos de origem animal, 39% disseram consumir esse tipo de alimento pelo menos três vezes por semana.

Nesse cenário, o fato de não terem nada de origem animal faz com que esses alimentos industrializados se tornem necessariamente mais saudáveis para seus consumidores e sustentáveis para o planeta? Ecoa ouviu especialistas para entender podemos fazer escolhas mais sustentáveis.

SIM

Menos impacto ambiental

Embora a produção de produtos vegetais com textura e sabor semelhantes aos da carne demandem áreas de cultivo agrícola, o impacto ambiental desse tipo de produção ainda está longe de ser o mesmo da atividade pecuária, analisa a professora Carla Molento, coordenadora do Laboratório de Bem-estar Animal da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Isso porque, lembra ela, toda produção pecuária depende também de uma produção vegetal. Para exemplificar isso, ela traz uma situação hipotética. "Se a humanidade toda se tornasse vegana, teríamos que plantar mais soja ou menos soja? As pessoas sempre pensam que veganos comem muita soja e teríamos de plantar mais. Na verdade, é o oposto porque 77% da soja no mundo é usada para alimentar frangos e porcos, para que depois sejam enviados para os abatedouros", diz.

Carla argumenta que a produção de carne à base de plantas, se comparada a um quilo de carne boi, geraria menos gases estufa e menos uso da terra e água do que o necessário na criação de gado, por exemplo. "É necessário muito mais planta para produzir carne de boi. Os ciclos de porcos e frangos são mais rápidos, mas mesmo para os produtos com pegada ambiental menor em termos de quantidade de terra necessária, como o caso dos ovos e leite, com o produto plant-based, a economia seria de 10% a menos de terra e água por quilo de carne produzida", estima.

Bem-estar animal

Outra vantagem do produto plant-based para a natureza, elenca a professora, está relacionada ao bem-estar animal, já que isso tiraria os animais da conta de produção de alimentos para humanos. Hoje, observa ela, os sistemas atuais de produção de alimento de origem animal foram tão intensificados que se levou ao extremo da diminuição de custo nos processos de confinamento. "Tirou-se tudo deles, tempo, saúde, espaço para comportamentos naturais mínimos, se fez um processo de seleção artificial para características físicas desejáveis", destaca a professora, ao se lembrar que um frango, ao nascer, pesa em torno de 40 gramas e, ao ser enviado para o abate, já está pesando 2,5 quilos em apenas 42 dias.

Tratando-se de laticínios, exemplifica Carla, uma vaca da raça holandesa produz em torno de 40 a 50 litros de leite por dia e é submetida a uma alta ingestão de alimentos durante a lactação. Essa dinâmica pode ocasionar uma série de custos para a saúde desse animal, como estar sujeito a doenças metabólicas, infecções das mamas e processos inflamatórios nos cascos. "E se formos pensar na pegada ambiental, em vez de dar soja para a vaca comer e produzir leite, você fazer leite de soja, vai gastar 30% a menos do custo ambiental de um litro de leite", define.

NÃO

Atenção para aditivos

Nutricionista e membro do Conselho Regional de Nutrição da 8ª Região (CRN8), Letícia Mazepa alerta que produtos plant-based não são necessariamente sinônimo de saúde — aqui estamos falando dos industrializados, não dos produtos in natura, que sempre serão uma alternativa mais saudável e sustentável, ok?

Ela destaca que o ultraprocessamento de alimentos muitas vezes confere aditivos sintéticos à sua composição, maior quantidade de gordura e açúcares, a fim de garantir a palatabilidade do alimento, bem como aumentar sua vida de prateleira.

Por isso, Letícia recomenda que o consumidor sempre leia o rótulo desses produtos. "A leitura da lista de ingredientes e da tabela nutricional é fundamental para a avaliação da qualidade do produto. Será que um hambúrguer ultraprocessado, à base de soja, com 'sabor idêntico' ao hambúrguer bovino, tem apenas ingredientes saudáveis em sua composição? Muitas vezes, não", pondera.

Risco para a saúde

Outra preocupação diz respeito a eventuais carências nutricionais ou alergias relacionadas aos aditivos químicos existentes nos produtos industrializados. "Temos visto isso acontecer muito com adolescentes. Então, se a pessoa for basear a alimentação dela do dia a dia, dentro de produtos plant-based, será o ultraprocessado e isso não é natural. É industrializado", reforça a nutricionista Letícia Mazepa.

A coordenadora do curso de Nutrição da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Flávia Auler, salienta ainda que o fato de existir adição de alguma vitamina num produto industrializado (seja ele plant-based ou não) não indica que haverá absorção integral pelo organismo. Isso depende, explica ela, de uma questão de biodisponibilidade. Ou seja, o ponto mais importante é manter uma alimentação diversa e equilibrada, com combinações entre alimentos que favoreçam a absorção de nutrientes e potencializem sua saúde.

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