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Quadrinista transmasculino cria HQ e doa parte da renda para pessoas trans

O ilustrador e quadrinista Lino Arruda, autor da HQ "Monstrans: experimentando horrormônios" - Divulgação
O ilustrador e quadrinista Lino Arruda, autor da HQ 'Monstrans: experimentando horrormônios' Imagem: Divulgação

Lígia Nogueira

Colaboração para Ecoa, em São Paulo

05/07/2021 06h00

As transmasculinidades ainda são experiências invisibilizadas, mesmo dentro das pautas trans. A opinião é de Lino Arruda, doutor em literatura, ilustrador e quadrinista transmasculino que está levando o assunto para o universo dos quadrinhos. O livro autobiográfico "Monstrans: experimentando horrormônios", que ficcionaliza experiências pessoais tecendo pontes entre deficiência, lesbianidade e transmasculinidade, está em fase de pré-venda e, durante o lançamento oficial, de 28 de julho a 25 de agosto, terá 20% do valor arrecadado com as vendas doados para casas de apoio a pessoas trans de sete estados brasileiros.

"Muitas vezes as pautas trans têm maior protagonismo de pessoas transfemininas e de travestis. De uma forma geral, no Brasil, quando se fala em 'trans' é mais provável que o que venha à mente esteja no espectro da transfeminilidade", diz. "Para mim, ter sido selecionado em um programa tão importante como o Rumos Itaú Cultural, e o pioneirismo implicado nessa conquista em relação à minha comunidade, acaba conferindo um senso de responsabilidade ao projeto: acredito que mais importante do que ser 'o primeiro' é não ser 'o único', ou não ser várias vezes 'o primeiro' em diferentes contextos."

"Umas das vias que encontrei para 'distribuir' e compartilhar essa conquista foi auxiliar outras pessoas trans com dicas sobre o edital do Rumos (disponibilizando o meu projeto para leitura), criar iniciativas de colaboração (através de postagens no Instagram, outras pessoas trans puderam interagir com o conteúdo que estava sendo produzido e, até certo ponto, contribuíram com comentários sobre as HQs que eu desenhava), e contratar pessoas trans para formar a equipe do projeto (o trabalho de webdesign, toda a equipe de consultoria de roteiro, a produção e a assistência de mídias sociais, boa parte da equipe de tradução foi formada por pessoas trans)", conta o autor, em entrevista à coluna Boas Notícias.

Os responsáveis pelo projeto criaram uma programação de lives com personalidades influentes que discutem dissidência, racismo e demais violências estruturais —"para garantir um debate interessante e também maior visibilidade"— e ao longo da programação serão destinados 20% de todas as vendas do site (além dos livros, os pôsteres e zines) a uma casa de apoio pelo período de sete dias. "Dessa forma também falamos um pouco de cada casa durante as lives e as postagens, com a esperança de conseguir outros tipos de contribuição", diz Lino.

Monstrans - Divulgação - Divulgação
Capa da HQ 'Monstrans', de Lino Arruda
Imagem: Divulgação

O autor acredita que a invisibilização das transmasculinidades se deve, em parte, à escassez de produtos culturais, como filmes, livros e peças de teatro que abordem o tema. "Talvez por isso a novela 'A força do querer' tenha se tornado uma referência forte e impactante", comenta. "É importante frisar que essa escassez não se dá pela inexistência de transmasculinidade, mas pelo seu apagamento e exclusão sistemática nas esferas autorizadas de produção de conhecimento, como as mídias mainstream e as grandes editoras, por exemplo. Dessas poucas iniciativas nacionais que pautam a transmasculinidade, são também minoria as produções desenvolvidas por pessoas transmasculinas ou em cargos de liderança."

Quadrinhos como linguagem acessível

"Acho que o quadrinho é uma mídia especialmente interessante para trazer esse tipo de enfoque: o apelo do quadrinho é justamente a acessibilidade —é um formato que, por ser imagético, em uma cultura que é fortemente visual, acaba instigando interesse independentemente da faixa etária. O livro 'Monstrans' é um desdobramento de uma tese de doutorado, em que o quadrinho emergiu justamente devido à urgência de encontrar um meio que de fato comunique, surta interesse e interpele o público de uma forma direta, íntima, convidativa e instigante."

Não quero reforçar estereótipos fáceis

Lino Arruda, autor da HQ 'Monstrans'

A premissa do trabalho, segundo o autor, é justamente que mais narrativas antagônicas, conflitantes e diferentes comecem a multiplicar o que "transmasculino" pode significar. "Nesse sentido há uma expectativa de comunicar sobre transmasculinidade, lesbianidade e deficiência, mas também de instigar, de gerar desconforto e pensamento crítico."