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Lorelay Fox: 'Drag também pode ser palestrante e falar de temas sérios'

A drag queen Lorelay Fox lança podcast no Globoplay - Divulgação
A drag queen Lorelay Fox lança podcast no Globoplay Imagem: Divulgação

Lígia Nogueira

Colaboração para Ecoa, em São Paulo

11/06/2021 04h00

Uma das primeiras drags brasileiras a ter um canal falando sobre temas sérios no YouTube, a paulista Lorelay Fox, 34 anos, é parte da revolução que aconteceu nos últimos cinco anos na mídia. Na bancada do programa "Amor & Sexo", da TV Globo, ao lado de nomes como Pabllo Vittar e Gloria Groove, ela ajudou a desconstruir uma imagem estereotipada e a inspirar toda uma geração de jovens.

"Ali começou a se desconstruir a ideia de que drag queen era uma coisa só pro povo dar risada", diz. "Existia um conteúdo, uma mensagem de que ela podia ser cantora, palestrante, falar sobre temas sérios, que não existia uma regra para ser drag. Não era mais como a gente via: a transformista que usa roupa doida ou caricata por animar festa."

Além de deus mais de 850 mil seguidores no YouTube, ela agora conquista ouvintes com o podcast "Para Tudo", que chega neste mês do Orgulho LGBTQIA+ ao Globoplay. "A gente vem de uma trajetória de invisibilidade e precisa ser ouvida não só para conquistar as nossas pautas, mas também para inspirar uma nova geração", afirma a artista à coluna Boas Notícias. "Embora o país esteja num momento horrível, acho que as conquistas são maiores do que a gente poderia imaginar nesse sentido."

Leia entrevista com ela a seguir.

Boas Notícias - Quando você percebeu que tinha um público e que poderia fazer de seu canal no YouTube uma profissão?

Lorelay Fox - Tive um canal no YouTube antes de perceber que eu poderia ter um público. Eu era drag há 10 anos no interior e não tinha mais o que fazer, eu queria desistir. No começo da carreira tinha bastante festa e show, mas com o passar dos anos isso acabou em Sorocaba [SP]. Criei o canal planejando algo muito diferente do que se tornou. Achei que fosse dar certo só na minha cidade, com as pessoas que me conheciam, mas um dos meus primeiros vídeos viralizou, e a coisa começou a crescer cada vez mais. Fui a primeira drag a ter um canal falando sobre temas mais sérios no YouTube. Criei as minhas redes para representar aquilo que eu não via representado.

Lorelay Fox - Divulgação - Divulgação
A drag queen Lorelay Fox
Imagem: Divulgação

Boas Notícias - Você sente diferença em como as pessoas veem o seu trabalho de uns anos para cá?

Lorelay Fox - As pessoas começaram a entender que drag é uma questão de arte e arte pode acessar qualquer pauta, a arte é uma das maneiras mais eficientes de lidar com temas relevantes porque toca as pessoas de uma outra forma, toca as pessoas mais facilmente. Depois que as drags começaram a acessar mais a mídia, saíram do gueto, todo mundo começou a gostar cada vez mais e aceitar. Hoje você pega um Uber e o pai de família está cantando Gloria Groove. Às vezes nem sabe o que é drag, mas já está no cotidiano, já entendem que aquilo existe. Não vou dizer que está tudo bem porque o Brasil ainda é muito preconceituoso, mas isso já entrou na cultura de uma maneira muito mais natural. A gente consegue passar por todos os meios, falar sobre todos os temas e ser ouvido a partir disso.

Antes da internet a gente não se enxergava em lugar nenhum, a gente não se identificava com ninguém

Lorelay Fox, drag e autora do podcast "Para Tudo"

Boas Notícias - Quais foram os maiores desafios que você teve de enfrentar?

Lorelay Fox - Os maiores desafios quando a gente é drag, quando a gente é LGBT, são as pessoas mais próximas. Se no trabalho vão te zoar, meio que você já aprendeu a ser zoado no trabalho porque você já passou a escola inteira sendo zoado, sabe? Você meio que lida com o preconceito da sociedade, mas quando é de pessoas próximas é muito complicado. Falando sobre a carreira de drag, hoje em dia eu paro para olhar e não tinha me dado conta de que minha carreira foi completamente sozinha, até eu criar meu canal no YouTube, e eu já tinha 10 anos de drag. Nenhum dos meus amigos mais próximos sequer tinha ido a um show meu.

Já tentei ser Miss Drag em Sorocaba e fiquei em segundo lugar. Quando me lembro daquele dia no camarim me vem um sentimento muito conflituoso. Eu estava no meio de um monte de drag bonita e pensei assim: nossa, nenhum amigo veio aqui me ver, não tem ninguém aqui por mim. Isso mexe comigo até hoje. Atualmente é diferente porque as pessoas já entenderam. Mas antes disso foi um caminho extremamente solitário, eu dependia de outras drags que me apoiavam, das pessoas da noite. Faltava o apoio real de quem me conhecia.