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Pesquisadores estudam lágrimas de jacaré para tratar doenças oculares

O jacaré-de-papo-amarelo é uma das espécies estudadas por pesquisadores da UFBA - Getty Images
O jacaré-de-papo-amarelo é uma das espécies estudadas por pesquisadores da UFBA Imagem: Getty Images

Diana Carvalho

De Ecoa, em São Paulo

09/09/2020 04h00

O choro é livre. Mas nós, humanos, somos a única espécie capaz de produzir lágrimas por meio da emoção. Em animais, mesmo que não "derramada", a lágrima também têm a função de manter uma visão saudável, lubrificando e protegendo o globo ocular. E o que poderíamos dizer sobre as famosas "lágrimas de crocodilo"?

A expressão ganhou novos contornos com o estudo produzido por pesquisadores brasileiros da UFBA (Universidade Federal da Bahia), que descobriram proteínas em lágrimas de jacaré com potencial para tratar doenças oculares, como a síndrome do olho seco.

"Engraçado que 'lágrimas de crocodilo' se dá à lenda de que o animal, enquanto devora sua presa, derrama lágrimas. E ao longo do nosso estudo percebemos que o jacaré realmente acumula um pouquinho mais de lágrima quando se prepara para atacar. Ele movimenta a mandíbula, a musculatura, e faz uma pressão na glândula que produz o filme lacrimal. No cantinho do olho, então, aparecem bolhinhas, que é a lágrima. Isso foi até um macete, uma maneira que a gente encontrou, para facilitar a hora da coleta", conta Arianne Pontes Oriá, veterinária e coordenadora do estudo.

O trabalho da pesquisadora começou em 2009, quando passou a observar a saúde dos olhos de dois pacientes, Tino e Barney, jacarés-de-papo-amarelo. "Esses animais mantêm o olho aberto por um longo período de tempo, infinitamente maior que outras espécies, e contam com uma superfície ocular extremamente sadia. E o que faz com que aquele olho, aberto por tanto tempo, sem 'piscar', seja tão saudável?".

O jacaré-de-papo-amarelo - Divulgação/Arianne Pontes Oriá - Divulgação/Arianne Pontes Oriá
A coleta da lágrima do jacaré é feita com uma tira de papel filtro com alta capacidade de absorção
Imagem: Divulgação/Arianne Pontes Oriá

Enquanto seres humanos piscam de 10 a 12 segundos para que as lágrimas possam agir como lubrificação para a córnea, o jacaré-de-papo-amarelo pode ficar por até duas horas sem 'fechar' os olhos. Foi a inquietação sobre essa curiosidade que levou a veterinária à primeira coleta e análise.

"O que a gente encontrou foi uma quantidade de proteína tão alta quanto a presente na lágrima de humanos. Com o avanço do estudo, acreditamos que será possível identificar moléculas que possam ajudar, futuramente, no tratamento de doenças como a síndrome do olho seco, que quando não tratada corretamente pode levar à cegueira", diz Arianne, que explica ainda as dificuldades enfrentadas durante o estudo.

A pesquisadora Arianne Pontes Oriá estuda as proteínas da lágrima do jacaré-de-papo-amarelo - Reprodução  - Reprodução
Arianne Pontes Oriá estuda as proteínas da lágrima do jacaré-de-papo-amarelo
Imagem: Reprodução

"A coleta é um trabalho árduo, que requer bastante paciência. A quantidade de lágrima que conseguimos coletar no dia a dia é bem pouca. Para ter 1ml de lágrima, é preciso de 60 a 100 jacarés. Então todo esse processo, feito com uma tira de papel filtro com alta capacidade de absorção, leva em torno de três a quatro dias".

O grupo da UFBA liderado por Arianne analisa ainda lágrimas de outros animais silvestres, como corujas, araras-canindés, gaviões-carijós e tartarugas-marinhas. Para isso, foi necessária a parceria com laboratórios internacionais, devido à falta de equipamentos no Brasil para análise.

"Todo pesquisador hoje, no país, sente essa preocupação com relação a investimento e ao corte de verbas. A falta de fomento para estudos científicos em universidades é geral. No nosso caso, precisamos tirar dinheiro do próprio bolso para conseguir uma análise do material, que foi feita nos Estados Unidos. Sem isso, não teríamos como dar continuidade à pesquisa".

Além de jacarés, o grupo analisa ainda lágrimas de corujas, araras-canindés, gaviões-carijós e tartarugas-marinhas - Divulgação/Arianne Pontes Oriá - Divulgação/Arianne Pontes Oriá
Além de jacarés, o grupo analisa ainda lágrimas de corujas, araras-canindés, gaviões-carijós e tartarugas-marinhas
Imagem: Divulgação/Arianne Pontes Oriá

A veterinária acredita ainda que o estudo com lágrimas de aves e répteis possa ser aplicado em outras vertentes, como na proteção e preservação do meio ambiente. "Cada lágrima tem a sua singularidade para cada ambiente e necessidade de uma espécie. O problema é que nós modificamos o ambiente em que vivemos. E tanto a lágrima, quanto a superfície ocular de um animal, sofre diretamente os impactos dessa transformação", observa.

Ao analisar os componentes do filme lacrimal de um animal é possível entender quais poluentes e outros efeitos estão prejudicando a vida dessas espécie em determinadas regiões.

"A lágrima, assim como a conjuntiva do olho, fica muito exposta e por isso é uma forma muito menos invasiva de identificar e sinalizar alterações precoces no meio ambiente. Em seres humanos, isso já é observado. Pessoas que moram próximas a regiões muito poluídas, já sofrem com uma modificação de superfície ocular. Então, nossa intenção é mostrar que, a partir do estudo da lágrima desses animais, é possível encontrar uma infinidade de caminhos científicos relacionados ao meio ambiente e a saúde de seres humanos".

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