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Brasileiro cria teste rápido e barato para detectar rejeição em transplante

O exame pós-transplante de rim criado pelo médico curitibano Leonardo Riella tem formato semelhante a um teste de gravidez - Divulgação
O exame pós-transplante de rim criado pelo médico curitibano Leonardo Riella tem formato semelhante a um teste de gravidez Imagem: Divulgação

Carolina Vila-Nova

de Ecoa

23/11/2019 04h00

O que é

Um teste de urina que detecta problemas de infecção ou de rejeição de órgãos transplantados.

Quem criou

Leonardo Riella, médico de 39 anos, de Curitiba (PR).

Por que é legal

Detecta se houve problema de rejeição do órgão transplantado mais rápido do que em exames de sangue laboratoriais.

Um projeto desenvolvido pelo médico curitibano Leonardo Riella, 39, pode transformar o prognóstico de milhares de pacientes que passam por transplantes de rins todos os anos: trata-se de um exame de urina, semelhante a um teste de gravidez comprado em farmácia, mas que detecta de maneira precoce e com baixo custo problemas de infecção ou de rejeição desses órgãos transplantados.

Professor-assistente na Escola de Medicina de Harvard, nos EUA, desde 2012, Leonardo é formado em medicina pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) com residência em clínica geral e especialização em nefrologia pela Universidade Harvard. Atualmente também é nefrologista e diretor-assistente de transplante de rins no Brigham and Women's Hospital, em Boston, ligado à universidade.

Ao longo dos anos, o médico se deparou com a questão recorrente da descoberta tardia de processos de rejeição em transplantes de rins, com consequências graves para os pacientes.

"Os processos que levam à perda do rim acabam sendo irreversíveis quando são detectados tardiamente", explicou.

No hospital que é referência no procedimento — realizou o primeiro do tipo no mundo, em 1954 —, ele atende pacientes que estão se preparando para o transplante de rim ou que já foram transplantados.

O médico é professor-assistente em Harvard e diretor-assistente de transplante de rins no Brigham and Women's Hospital - Divulgação
O médico é professor-assistente em Harvard e diretor-assistente de transplante de rins no Brigham and Women's Hospital
Imagem: Divulgação
Além disso, como resultado de seu doutorado na instituição, Riella criou um laboratório que estuda os mecanismos de regulação do sistema imune, aplicados aos casos de transplante.

"A ideia era criar um exame que fosse simples, que fosse rápido, que não fosse caro, o que era uma grande dificuldade, e que o paciente pudesse monitorar em casa."

No Brasil, 5.836 transplantes de rins foram realizados em 2018, de acordo com o Ministério da Saúde. Nos EUA, esse número é quase quatro vezes maior: foram 21.167 procedimentos no ano passado.

Alternativa barata

Hoje, a principal maneira de os pacientes saberem se estão passando por problemas de infecção ou de rejeição é por meio de exames de sangue realizados em hospitais ou laboratórios, em geral com diagnóstico tardio, pois os indicadores só aparecem elevados quando o dano ao rim já está em estágio avançado.

O médico pondera que, uma vez estáveis, os pacientes transplantados acabam visitando o médico a cada seis meses ou uma vez por ano, retardando a descoberta de problemas.

"Esse projeto nasceu de uma necessidade clínica de melhor monitorar os pacientes transplantados e de não existir nenhum exame que consiga detectar precocemente o processo de rejeição", afirmou.

Segundo Riella, um exame de sangue acaba de ser disponibilizado no mercado americano para detectar a rejeição de transplantes, a um custo de US$ 1.500 (cerca de R$ 6.300) por teste. "É inviável. Pode ser o melhor exame do mundo, mas não temos como financiar isso com nosso sistema de saúde."

A alternativa que ele desenvolveu tem custo estimado em menos de US$ 5 (R$ 21). Testes realizados em pacientes do hospital indicaram alto grau de precisão e sensibilidade do exame.

Como o teste funciona

O exame desenvolvido por Riella e equipe mensura vários elementos, sendo alguns para detectar rejeição — algo que pode acontecer em qualquer momento após o transplante — e outros para detectar infecções oportunistas por vírus.

Como em um teste de gravidez de farmácia, o paciente direciona a urina sobre a tira absorvente. Em menos de uma hora, sai o resultado.

"Há vários vírus que podem afetar o rim isoladamente, sem causar sintomas como febre, mas que aos poucos vão causando inflamações e lesões que podem ser irreversíveis se você não tratar precocemente", afirma Riella, que também é membro da Fundação Pró-Renal, com sede em Curitiba.

A alternativa desenvolvida por Leonardo Riella tem custo estimado em menos de US$ 5 (R$ 21) e alto grau de precisão - Divulgação
A alternativa desenvolvida por Leonardo Riella tem custo estimado em menos de US$ 5 (R$ 21) e alto grau de precisão
Imagem: Divulgação

Grosso modo, o teste adapta enzimas conhecidas como CRISPR/Cas13 para identificar citocinas, que são marcadores inflamatórios de rejeição, e a presença de vírus diretamente na urina. Um deles é o BK, vírus que acomete entre 10% e 15% dos rins em transplantados.

Uma vez detectados os marcadores, o paciente é então encaminhado para exames mais aprofundados de sangue ou para a biópsia de rim, que é o principal mecanismo de aferição de rejeição.

Reconhecimento do trabalho

O estudo elaborado pela equipe está em fase de "peer review" ou "revisão dos pares", em tradução livre. Isso significa que outros especialistas da comunidade científica estão revisando o trabalho, processo utilizado na publicação de artigos e na concessão de recursos para pesquisas. Detalhes sobre os marcadores mensurados e a tecnologia utilizada devem ser divulgados em algumas semanas.

O projeto foi um dos três finalistas neste ano do Bright Futures Prize (Prêmio Futuros Brilhantes), concurso internacional realizado pelo Brigham Hospital e que contou com mais de 300 inscritos. O brasileiro ficou em segundo lugar. A vencedora foi a pesquisadora israelense Natalie Artzie, da divisão de engenharia médica do Brighan, com um projeto de detecção de células cancerígenas cerebrais em crianças por meio de gel-adesivos.

No futuro, Leonardo Riella prevê que o teste pós-transplante possa ser usado no monitoramento de pacientes com enfermidades que também provocam comprometimento renal, como lúpus eritematoso sistêmico (LES) ou como teste rápido para identificar mutações genéticas.

O processo de validação do exame deve levar em torno de dois anos. A partir daí, a questão será identificar interessados em viabilizá-lo comercialmente.

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