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Com caixa de TV, dentista inventa suporte para lixo em eventos e praias

O suporte de papelão permite que o saco de lixo esteja sempre aberto, facilitando o descarte - Arquivo pessoal
O suporte de papelão permite que o saco de lixo esteja sempre aberto, facilitando o descarte Imagem: Arquivo pessoal

Antoniele Luciano

de Ecoa

02/11/2019 04h00

Juntar as folhas derrubadas por um abacateiro na casa da família, na praia de Maresias, litoral de São Paulo, sempre foi uma tarefa incômoda para o cirurgião dentista Nilton Jorge Berger Del Zotto, de 49 anos. "Era um suplício a cada varrida. Quando estamos sozinhos e vamos recolher folhas, metade costuma cair para fora do saco de lixo", brinca ele.

Foi esse o incômodo que o levou a desenvolver, em 2017, um suporte sustentável para sacos de lixo. Batizado de Niltex, o produto, feito em papelão reciclado, facilita a coleta de resíduos em áreas onde não há lixeiras e vem sendo adotado por empresas e prefeituras em mais de 400 eventos como shows, corridas e feiras.

A ideia surgiu com uma caixa de televisão: inquieto com a árvore do quintal, Del Zotto percebeu que a embalagem do produto que ele havia acabado de adquirir serviria para a primeira amostra do suporte que estava por vir.

A lixeira ecológica, como também é chamado o produto, é montada a partir de dobraduras feitas no próprio papelão, além de contar com tampa e fundo vazado, que se ajusta à capacidade do saco em que o lixo será acondicionado. É possível adaptar a solução para qualquer tipo de piso - do asfalto à areia.

Nilton Jorge Berger Del Zotto, criador do suporte para lixo de papelão - Arquivo pessoal
Nilton Jorge Berger Del Zotto, criador do suporte para lixo de papelão
Imagem: Arquivo pessoal

A ideia parece simples: em vez de a pessoa ficar segurando e abrindo o saco de lixo enquanto recolhe materiais, um suporte de papelão permite que o saco esteja sempre aberto, sem pesar na hora de carregá-lo. Chegar ao modelo ideal de suporte, no entanto, não aconteceu do dia para a noite.

"O primeiro modelo funcional foi alcançado depois de três ou quatro meses. Com outras modificações, veio o modelo atual, mais resistente", relata o inventor.

Fabricação

A produção do Niltex é terceirizada, com um papelão reciclado micro-ondulado, que é submetido a uma máquina flexográfica, para impressão de logomarcas quando o produto é patrocinado, e a uma máquina de corte e vinco. Depois, o suporte é encaminhado para embalagem e distribuição. A fábrica parceira fica em Mauá, na região metropolitana de São Paulo.

De acordo com Del Zotto, nesses dois anos de trabalho, a estratégia tem sido criar um conceito, não focar na clientela. Ele calcula que 90% das ações das quais participou tenham sido realizadas por meio de parcerias, sem remuneração. "Fomos diversificando a utilização do Niltex. Hoje, se eu falar de faturamento, é muito pouco, quase nulo, porque não foi esse o foco", explica o dentista, que continua atuando em sua profissão.

Atualmente o produto é comercializado de quatro maneiras: para clientes individuais pela internet; em parceria com empresas que imprimem a logomarca; em projetos ambientais realizados, por exemplo, em praias; ou ainda em projetos ambientais acrescidos de coleta e logística dos resíduos. Nesse último caso, além de recolher o lixo com o Niltex, agentes parceiros, como cooperativas de catadores de recicláveis, fazem um inventário sobre os resíduos obtidos e os encaminham para a destinação adequada.

O suporte recebe sacos de lixo, preferencialmente feitos de bioplástico, e pode exibir instruções educativas - Arquivo pessoal
O suporte recebe sacos de lixo, preferencialmente feitos de bioplástico, e pode exibir instruções educativas
Imagem: Arquivo pessoal

Eventos

Quando a ação é patrocinada com logomarca, cada unidade com esse tipo de impressão custa R$ 3,96 e vem acompanhada de sacos com capacidade para 100 ou 200 litros, de plástico convencional ou preferencialmente bioplástico. Todas as peças seguem as cores da reciclagem, o que busca facilitar, ao final dos eventos, o descarte dos materiais.

Já a modalidade de venda por meio de projeto ambiental tem ampliado a presença da marca junto ao público. Em 2018, o suporte de Del Zotto foi utilizado em 16 cidades litorâneas de São Paulo, por meio do projeto Verão no Clima, do governo do estado.

Em eventos realizados no litoral de São Paulo, o suporte é usado para facilitar a coleta de lixo - Arquivo pessoal
Em eventos realizados no litoral de São Paulo, o suporte é usado para facilitar a coleta de lixo
Imagem: Arquivo pessoal
Em uma ação em Santos, por exemplo, vendedores ambulantes foram treinados por Del Zotto para deixarem os suportes de saco de lixo próximos a seus carrinhos e entre os guarda-sóis de banhistas. "Todos viraram agentes ambientais que instruíam as pessoas a fazer o descarte correto do lixo", pontua. O dentista estima que, em seis dias de evento, foram recolhidos cerca de 1,5 mil quilos de recicláveis e 530 quilos de material para compostagem.

Já em outra situação, uma corrida de bicicleta, o Pedal Anchieta, que leva em torno de 50 mil ciclistas de São Paulo a Santos, o suporte foi usado para evitar que 150 mil copos plásticos de água fossem descartados irregularmente pelo percurso. Reunido, o material foi doado para uma ONG que atua com reciclagem. O produto também está sendo usado no projeto Vou Pra Feira Mais Sustentável, da prefeitura de São Paulo.

Depois de ações desse tipo, as lixeiras ainda podem ser guardadas para reutilização ou enviadas para a reciclagem novamente, se não estiverem mais em bom estado. Entre as vantagens do produto, explica Del Zotto, estão a facilidade de manuseio, transporte e estocagem, resistência à água, o não uso de produtos químicos para higienização, além da possibilidade de apresentar mensagens educativas ou publicitárias no material.

"A parte educacional, a mudança comportamental é a coisa mais interessante que tem", comemora o empreendedor.

Próximos passos e prêmio

Nilton Del Zotto conta que, em breve, deve levar o produto para o Carnaval de São Paulo, porém a atuação ainda está sendo negociada.

Para os próximos anos, ele espera desenvolver mais, além da parte ambiental, o viés social da proposta. "Mobilizar mão de obra local, treinamento e, futuramente, licenciar pessoas para criarem fábricas locais e empregos. É atender pessoas que vivem no submundo das cooperativas, colocar uma proposta melhor de vida para essas pessoas", resume. "Em 2017, o Niltex era uma ideia. Hoje é um conceito."

Em 2019, a marca levou o prêmio de segunda melhor startup do Brasil durante o 49º Congresso Nacional de Saneamento da Assemae, em Cuiabá (MT). "É imensurável sair de onde iniciamos e onde já chegamos", assinala Del Zotto. Ele estima que os suportes usados em eventos dos quais vem participando já tenham recolhido cerca de 3,5 milhões de litros de resíduos.

Grande ideia