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Igreja leva missa, casamento e até confissão em Libras para surdos no PI

Simone Machado

Colaboração para Ecoa

28/01/2020 04h00

As missas do Centro Pastoral Paulo VI, no centro de Teresina (PI), se tornaram mais acessíveis para os fiéis surdos. Há pouco mais de dois meses o padre Francisco Aquino celebra a chamada "missa do silêncio". Durante uma hora, fiéis rezam, cantam, fazem as leituras e preces tradicionais de uma missa comum, mas tudo na língua dos sinais.

A "missa do silêncio" é celebrada todo segundo e quarto domingo do mês e tem atraído grande público. A igreja, que tem capacidade para 260 pessoas, fica quase sempre lotada.

De acordo com o padre Aquino, responsável pela celebração, nessa missa o público surdo é o protagonista. Tudo é feito pensado neles e por eles. As leituras são feitas por fiéis surdos, a homilia e os cânticos são todos em Libras. O silêncio só é quebrado pela intérprete de voz - uma pessoa fica na lateral do altar traduzindo em voz o que está sendo dito na língua dos sinais. Assim, pessoas sem a deficiência também conseguem participar da celebração.

"Eu sou especialista em Libras e, como padre, quis incluir mais gente nas celebrações. Por isso criamos dois horários de missas pensando totalmente no público surdo, já que muitas dessas pessoas tinham deixado a igreja por não se sentirem incluídas", diz.

Antes da "missa do silêncio", algumas celebrações realizadas na cidade contavam com a ajuda de intérpretes de Libras, que ficava na lateral do altar traduzindo em sinais o que estava sendo dito.

Casamento é celebrado em libras na cidade de Teresina  - Pablo Ferreira - Pablo Ferreira
Padre celebra missa em libras para fazer inclusão
Imagem: Pablo Ferreira
Público assíduo

A professora de Libras Kelly Pereira Lemos, 39, perdeu a audição aos três meses de vida, depois de tomar uma medicação a qual ela era alérgica. A surdez só foi diagnosticada aos seis meses. Nascida em uma família católica, Kelly frequentou a igreja quando criança e estava afastada da religião porque não se sentia incluída. Apesar de ter feito a primeira comunhão com dez anos, ela conta que não sabia o que era ensinado.

"Eu perdi o interesse [pela igreja] porque eu não entendia nada do que era falado durante a celebração. Tentei até frequentar outras religiões para ver se eu encontrava alguma que fosse acessível, mas isso também não deu certo. Quando começou a ter a celebração em Libras fiquei muito feliz e passei a frequentá-la. Hoje eu me emociono nas missas", diz.

O padre garante que a inclusão vai além das missas. Segundo ele, os surdos recebem atenção desde cedo na paróquia. "Temos catequese com surdos, encontro fraterno mensal, temos catequistas surdos e já fizemos a primeira comunhão e crisma com eles. Também faço atendimento de confissão em Libras. Agora temos uma pessoa surda que está estudando para ser ministro extraordinário da comunhão", conta.

Além da atenção dentro da igreja, os fiéis surdos também recebem atenção fora dela. Um trabalho de acompanhamento familiar também é feito com quem precisa. "Acompanhamos o surdo e a sua família. Muitas vezes o surdo precisa ir a algum lugar, ao médico e não tem com quem ir, nós disponibilizamos um intérprete para ele", acrescenta Aquino.

Primeiro casamento do Piauí celebrado em Libras

Além das missas, o padre Francisco Aquino celebrou o primeiro casamento em Libras do estado do Piauí. O matrimônio de Wanderson Siqueira Cuz e Shirley Lima Oliveira foi na Paróquia Santa Teresinha, em Teresina, no dia 28 de dezembro de 2019.

Casal faz juramento em libras  - Pablo Ferreira - Pablo Ferreira
Casal faz juramento em libras
Imagem: Pablo Ferreira
Segundo a noiva Shirley, que é surda desde que nasceu, era um sonho se casar de véu e grinalda na igreja e quando ficou sabendo que havia um padre na cidade que rezava em Libras logo o procurou.

O casamento foi todo celebrado em Libras, por isso o casal contou com a ajuda de um interprete de voz para ajudar na tradução para os convidados que não eram surdos. "Foi como sonhei. Foi lindo e muito emocionante. Todos puderam participar e compreender a celebração", conta Shirley.

O noivo Wanderson, que também é surdo desde o nascimento, ressalta a importância da inclusão e a felicidade de poder compartilhar de um momento especial como esse com todos - surdos ou não.
"Ficamos muito felizes. Ainda mais em saber que fomos o primeiro casal a conseguir uma celebração em Libras. Não tenho palavras para descrever o momento", diz.

Iniciativas que inspiram