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Sandra Caselato

Fim de ciclo: celebrações, lutos e a importância da comunidade

Assim, a celebração e o luto são igualmente importantes. São como a inspiração e a expiração - MangoStar_Studio/Getty Images/iStockphoto
Assim, a celebração e o luto são igualmente importantes. São como a inspiração e a expiração Imagem: MangoStar_Studio/Getty Images/iStockphoto

Sandra Caselato

22/12/2020 04h00

Sábado fizemos um encontro online de fim de ano entre praticantes de Comunicação Não Violenta. Vieram pessoas que, durante a última década, participaram de cursos e eventos oferecidos por mim e meu parceiro, Yuri Haasz.

Foi um momento de Celebrações e Lutos, uma prática que costumamos realizar com frequência, buscando incorporar ao nosso dia a dia, finalizando não apenas os grandes mas também os pequenos ciclos presentes na vida.

Começamos o encontro fazendo referência ao ditado yorubá que Emicida traz em seu documentário AmarElo, disponível na Netflix (aliás, se você ainda não viu, sugiro que assista!): "Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que só jogou hoje".

Revisitando nosso passado, enlutando o que não foi como gostaríamos e celebrando o que nutriu nossas vidas, podemos ressignificá-lo e então agir para transformar o que queremos ver diferente. É somente no presente que podemos fazer algo em relação ao passado, construindo o futuro. Como diz Emicida, "todas as nossas chances de consertar os desencontros do passado moram no agora".

Assim, a celebração e o luto são igualmente importantes. São como a inspiração e a expiração, duas partes que, combinadas, constituem uma respiração completa, ambas essenciais para manter a vida.

Muitas vezes, para tentar nos proteger do sofrimento, evitamos viver os lutos, mesmo aqueles acontecimentos pequenos do dia a dia que não ocorreram da maneira que gostaríamos, minimizando e deixando de lado nossos sentimentos. Quando fazemos isso, é como se começássemos a respirar pela metade. Reduzimos nossa capacidade respiratória e nossa conexão com a vida, nossa capacidade de viver plenamente. Quando reprimimos sentimentos desagradáveis, bloqueamos ao mesmo tempo as emoções agradáveis.

Já escrevi anteriormente sobre este assunto no texto Estar vivo é sentir: "A celebração e o luto, a gratidão e o lamento, são dois lados da mesma moeda. Não é possível sentir um sem sentir o outro. Quando bloqueamos nosso medo, bloqueamos junto nossa coragem. Se não quero sentir minha fragilidade, deixo de sentir também minha força. Se não me conecto com minha impotência, não conheço também meu poder."

No final do ano passado sugeri uma atividade de celebrações e lutos caso você queira experimentar: Rever o ano que vai, sonhar o ano que vem.

Mas, voltando ao nosso encontro de Celebrações e Lutos de sábado, foi para mim um momento muito tocante. Participaram pessoas de diversos lugares do Brasil e nos conectamos com aspectos e acontecimentos de nossas vidas pessoais e coletivas, no Brasil e no mundo, que celebramos e enlutamos durante 2020.

Neste ano de tantas perdas coletivas, num esforço de olhar ao redor e buscar sementes de esperança, celebramos a vida, o simples fato de estarmos vivos, termos onde morar e muitos de nós podermos trabalhar a partir de casa.

Enlutamos juntos a pandemia, o medo, as mortes, o aumento do desemprego e a redução das condições mínimas de vida que afetou tanta gente, o distanciamento das pessoas queridas, o aumento geral do estresse e da depressão.

Enlutamos que este ano não pudemos sentar em círculo, como temos feito na última década, ao redor do Brasil e em outros países. Ao mesmo tempo, celebramos a possibilidade que a tecnologia nos dá de nos conectarmos via internet e realizar encontros entre pessoas de regiões tão distantes, criando novas amizades e redes de apoio.

Sempre me surpreendo com a potência das práticas coletivas, que nos ajudam a perceber que não estamos sozinhos. Como diz Emicida, "a vida só faz sentido quando a gente se relaciona, quando a gente se encontra". É em grupo que conseguimos resgatar a esperança ativa que a dimensão comunitária nos traz, unindo forças e criando parcerias para construir o mundo no qual sonhamos viver. Juntos somos mais fortes!

Aproveito para celebrar o encontro e as interações com os leitores desta coluna e me despedir. Este é meu último texto neste espaço. Sou grata pela oportunidade de ter compartilhado com vocês um pouco dos assuntos que me interessam em 63 textos, um por semana, durante mais de um ano. Celebro o desafio e o aprendizado que esta atividade me proporcionou e encerro aqui um ciclo ao mesmo tempo em que inicio outro, direcionando minhas energias para novos projetos à minha espera.

Agradeço quem acompanhou a coluna ao longo de todo ou parte desse tempo e convido a nos mantermos conectados nas redes sociais: @sinergiacomunicativa, em nosso site e por meio do nosso canal no Youtube.

Até mais!