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Sandra Caselato

O que equipes produtivas e times de futebol têm em comum?

Sandra Caselato

Sandra Caselato, formada em artes plásticas e psicologia, é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas. Está sempre em busca de experiências que contribuam com a transformação pessoal e de outras pessoas. Especialista em Comunicação Não-Violenta, atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos.

20/10/2020 04h00

Foi uma surpresa descobrir o seriado Ted Lasso, na Apple TV+. Comecei assistir por acaso e me surpreendi com o interesse que me despertou, a ponto de assistir quase tudo de uma vez!

É uma comédia leve, simples e despretensiosa, que foca na importância das relações humanas.

Ted Lasso é um treinador de futebol americano, contratado para ir à Inglaterra treinar um time da principal liga de futebol do país. Além de não entender nada desse futebol que se joga com os pés, ele encontra uma série de desafios: as sabotagens da dona do clube de futebol, a falta de cooperação dos jogadores e a hostilidade dos torcedores e da mídia.

Mas ele tira de letra tudo isso e não se deixa abalar pelas dificuldades, mantendo sempre o bom humor. Ele lida com os diversos contratempos com persistência e autoconfiança, e aos poucos vai conquistando o respeito e a admiração de todos.

O otimismo, a benevolência e a persistência do treinador é a grande lição da série. Ted Lasso é uma caricatura do norte-americano interiorano, mas não conservador. Sua principal meta como novo treinador é simples: ajudar na evolução dos jogadores e de todos da equipe como seres humanos, sem se importar tanto em vencer as partidas.

Essa atitude a princípio causa surpresa e resistência das pessoas, mas aos poucos ele vai conquistando os corações e transformando as relações. Pouco a pouco, a mentalidade individualista e desrespeitosa que predominava vai se transformando num espírito de equipe, cooperação e apoio, trazendo resultados positivos.

O seriado retrata um aspecto importante que passou a ser considerado mais seriamente há alguns anos, com a Psicologia do Esporte: a relação direta entre rendimento e performance com o estado emocional e das relações sociais dos atletas e entre a equipe.

A Psicologia do Esporte surgiu para auxiliar técnicos e atletas a entender e solucionar suas dificuldades psicológicas e sociais, e encontrar segurança e autoconfiança de tal forma que possam realizar suas possibilidades máximas de rendimento esportivo.

Além do esporte, cada vez mais as organizações e empresas em geral têm se conscientizado que o desempenho de uma equipe é fortemente influenciado pela forma como as pessoas se sentem no grupo e em suas vidas pessoais.

Há uma relação interessante entre o papel do treinador de esportes e trabalhos transformativos em ambientes organizacionais. No inglês, treinador se chama ‘coach’, palavra que dá origem ao tão popularizado conjunto de modalidades denominadas ‘coaching’, que têm sido utilizadas em muitos casos para maximizar performance de indivíduos e grupos. Nos Estados Unidos, há inclusive vários treinadores esportivos famosos que, após uma carreira de sucesso, passaram a ser palestrantes motivacionais e escritores de best sellers focando a mudança de visão de mundo e melhora das relações no mundo dos negócios.

Empresários e líderes têm cada vez mais percebido o quanto é importante cuidar do clima organizacional, das relações de trabalho, do bem estar e da qualidade de vida dos funcionários, para garantir uma boa produtividade.

Saber lidar com conflitos é outra habilidade cada vez valorizada. Uma pesquisa da Universidade de Stanford mostra que a maior preocupação dos líderes é saber lidar com conflitos. No entanto, outra pesquisa, do CPP Global Human Capital Report, mostra que ao menos 40% nunca recebeu qualquer treinamento neste campo.

Segundo essa última pesquisa, não saber lidar com conflitos nas organizações tem um custo muito alto, ocupando em média 2h por semana de cada funcionário, somando um custo total de 359 bilhões de dólares em horas pagas, 385 milhões de dias úteis.

O conflito nas organizações também influencia diretamente a motivação. De acordo com pesquisa da Gallup, apenas 12% dos funcionários estão ‘engajados’ em seu trabalho, enquanto 60% estão ‘não engajados’, e 25% estão ‘ativamente não engajados’, - o que muitas vezes quer dizer que podem estar sabotando consciente ou inconscientemente a organização.

Estas pesquisas e dados me fazem pensar o quanto é importante trazer para as equipes e ambientes organizacionais o que Ted Lasso traz para seu time de futebol: mais empatia e acolhimento da humanidade de todos, criação de espaços seguros onde estão presentes a apreciação, a valorização e o respeito, onde se aprende a lidar cada vez melhor com conflitos e onde a individualidade e o potencial de cada um pode florescer, contribuindo para uma equipe coesa, colaborativa e produtiva.

O seriado me mostrou, de maneira lúdica e cativante, como a intervenção de alguém que acredita no potencial humano pode transformar até mesmo as culturas mais tóxicas em ambientes de conexão, confiança e união. Dentro dessas condições favoráveis, indivíduos e equipes podem alcançar sua melhor performance, mais produtividade e satisfação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.