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Sandra Caselato

A importância da dor

As pessoas que nascem com essa insensibilidade à dor, em geral passam por muitos acidentes - iStock
As pessoas que nascem com essa insensibilidade à dor, em geral passam por muitos acidentes Imagem: iStock
Sandra Caselato

Sandra Caselato, formada em artes plásticas e psicologia, é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas. Está sempre em busca de experiências que contribuam com a transformação pessoal e de outras pessoas. Especialista em Comunicação Não-Violenta, atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos.

17/11/2020 04h00

Tive uma professora de yoga que uma vez perguntou durante a aula "quem aqui gosta de sentir dor?". Todo mundo achou estranho e ninguém respondeu afirmativamente. Mas logo entendi que ela fez essa pergunta para iniciar uma conversa sobre a importância da dor.

Ela nos contou sobre uma doença rara, que não tem cura, chamada analgesia congênita, em que a pessoa não sente dor. Num primeiro momento isso parece ser um benefício, mas a doença tem uma série de agravantes, que podem colocar a vida da pessoa em risco.

As pessoas que nascem com essa insensibilidade à dor, em geral passam por muitos acidentes, têm várias cicatrizes, ossos quebrados, queimaduras e amputações. Podem ter febre várias vezes ao ano, devido a infecções não diagnosticadas e podem morrer mais cedo.

A criança com essa doença tende a ter menos medo e se mostrar muito "corajosa", já que não sente dor quando se machuca. O americano Steven Pete, por exemplo, conta como passou sua infância de gesso, tendo quebrado vários ossos. Ele foi diagnosticado aos 5 meses de idade ao mastigar cerca de 1 quarto de sua língua, quando seus dentes começaram a nascer.

Aqui no Brasil, na cidade de Angatuba, no estado de São Paulo, Marisa de Toledo tem as mãos cobertas de cicatrizes e bolhas, e conta que em seu primeiro parto, uma cesariana, não precisou de anestesia.

A dor é um sinal emitido pelo corpo que serve para proteção, indicando onde está o perigo. Ela é essencial para a manutenção da nossa saúde, pois ajuda a identificar doenças, como infecções, gastrite ou outras mais graves, como infarto, por exemplo. Quando a pessoa não sente dor, a doença vai progredindo e se agravando sem que ela perceba, e pode ser descoberta somente numa fase avançada quando é mais difícil o tratamento.

Isso nos mostra o quanto a dor é importante para manter a homeostase e a saúde do nosso organismo. Da mesma forma, não apenas a dor física é essencial, mas também a dor emocional, que nos traz informações valiosas para manutenção da nossa saúde mental e psicológica.

Todos os nossos sentimentos e emoções, por mais desagradáveis que possam ser, são muito importantes pois estão nos mostrando que algo não vai bem em nossa vida e precisa de cuidado e atenção.

E muitas vezes as dores físicas e emocionais estão relacionadas. Outro dia eu tive uma enxaqueca horrível. Fazia tempo que não passava por isso. Durante um período da minha vida tive muita dor de cabeça, praticamente todo dia, e às vezes ela se tornava enxaqueca. Mas já não sentia isso há um bom tempo.

A frequência das minhas enxaquecas começou a diminuir quando passei a prestar mais atenção a mim mesma, às minhas emoções e ao meu corpo. Comecei a perceber que ela estava relacionada a estresse e tensão muscular, principalmente na região do pescoço e ombros. Percebi que eu costumava ignorar pequenos incômodos e desconfortos: quando alguém dizia alguma coisa que eu não gostava, por exemplo, mas me parecia algo muito pequeno para falar a respeito com a pessoa e então guardava só para mim; quando acumulava preocupações, pensando sem parar em coisas que preciso fazer ou que deveria ter feito; quando passava horas seguidas trabalhando na frente do computador, sem fazer pausas suficientes.

Essas coisinhas iam se acumulando, pequenas ansiedades e tensões, dia após dia, como camadas de papel fino umas sobre as outras, que separadamente são fáceis de rasgar, mas quando se juntam numa espessura de um livro de muitas páginas se torna impossível fazer isso. Então vinha a enxaqueca, me obrigando a parar. Parar os pensamentos, as ansiedades e preocupações, parar as tensões, e finalmente relaxar e descansar.

Os sinais (pequenos desconfortos físicos e emocionais) pedindo descanso, pausa, relaxamento, tranquilidade, um pouco de diversão, estavam lá o tempo todo me alertando. Porém eu não dava atenção a eles.

Quando estou mais conectada e integrada comigo mesma, com meu próprio corpo e meu mundo interno, tenho mais consciência das minhas sensações físicas, meus pensamentos, sentimentos e emoções, e percebo mais facilmente os sinais que eles estão me dando e o que estão querendo me dizer. Assim posso ativamente decidir escutá-los, dar atenção a eles e agir, cuidando melhor de mim mesma. Quando me mantenho assim, neste estado de maior conexão comigo mesma e exercendo mais autocuidado, sinto um bem-estar geral mais constante e não tenho enxaqueca.

Este lindo texto abaixo, de autoria desconhecida, me traz muita inspiração e traduz o que estou querendo dizer:

- Vovó, como se lida com a dor?
- Com as mãos, querida. Se você fizer isso com a mente, em vez de suavizar, a dor endurece ainda mais.
- Com as mãos, vovó?
- Sim. Nossas mãos são as antenas da nossa alma. Se você move suas mãos costurando, cozinhando, pintando ou mexendo na terra, elas enviam sinais de amor à sua parte mais profunda. E sua alma se acalma porque você está prestando atenção a ela. Assim, ela não precisa mais te enviar dor para se fazer notar. Mova suas mãos, querida, comece a criar com elas e tudo dentro de você se moverá. A dor não vai passar, mas vai se transformar numa obra-prima e não vai mais doer, porque você terá conseguido materializar sua própria essência.

E você? Costuma prestar atenção nos sinais que seu corpo e suas emoções estão te enviando a cada momento? O que você costuma fazer para cuidar deles?