PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Opinião


Opinião

Descolonizar o saber é reinventar o viver!

Lascra encontrada na caverna de Blombos com o registro de desenho mais antigo da História - Craig Foster
Lascra encontrada na caverna de Blombos com o registro de desenho mais antigo da História Imagem: Craig Foster
Anna M. Canavarro Benite

Anna M. Canavarro Benite

É doutora e mestre em Ciências e Licenciada em Química coordeno o Laboratório de Pesquisas em Educação Química e Inclusão- LPEQI. Institui em 2009 o Coletivo CIATA- Grupo de Estudos sobre a Descolonização do Currículo de Ciências, Militante do Grupo de Mulheres Negras Dandaras no Cerrado. Atual secretária Executiva da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros/as Gestão 2108-2020.

23/09/2020 04h00

A escola é o primeiro lugar em que somos apresentados a outro universo cultural: a ciência. Porém a imagem que os estudantes da escola básica têm desta é de uma atividade solitária realizada apenas por homens. Creio que essa concepção seja fortemente influenciada pelo fato de não discutirmos sobre a contribuição das mulheres, negros/as ou povos originários em sala de aula. As ciências e tecnologias são reafirmadas principalmente por práticas curriculares que referenciam essencialmente o masculino.

Há tempos, diversos segmentos organizados do movimento negro reivindicam um currículo que reconheça espaços de produção de outras matrizes de produção. No nosso país, faz sentido falar na matriz de produção da diáspora africana, porque somos o segundo país em população negra no mundo. Uma capa da "Nature" de 2007 abordou um estudo de marcadores de radioisótopos para determinar a composição dos seres humanos mais antigos da Terra. Esse estudo foi conduzido por pesquisadores da Inglaterra e do Japão e chegou à seguinte conclusão, com técnicas avançadas de radioisotopia: a composição mais próxima que tinham os seres humanos mais antigos dos cinco continentes era a composição do mais antigo ser da África. Nossa origem, portanto, é africana. Cheikh Anta Diop já falava sobre isso em 1979, quando produziu um mapa traçando os fluxos migratórios a partir de artefatos técnicos encontrados nos cinco continentes.

Quais são as semelhanças entre os muros de Zimbábue, os templos incas ameríndios e as pirâmides egípcias? Que conhecimento está atrelado à manipulação das coordenadas retangulares, descritas num papiro egípcio, que hoje está num museu na Europa? O que nos dizem as Cavernas de Blombos, descobertas em 2009 na África do Sul, reveladas para a humanidade em 2012. O que foi achado nelas? Artefatos de um povo que manipulava operações unitárias. Um povo que não só estocava alimento, mas também os armazenava e fazia misturas, transformava alimentos. Essas cavernas são datadas de 70 a 100 mil anos atrás, e a pré-história humana é contada a partir da França, com achados de 17 a 18 mil anos atrás.

Ou seja, Blombos reivindica a recontagem da nossa pré-história. Passaram-se anos, mas a gente ainda não viu isso inserido nos livros didáticos. O osso de Ishango é a primeira calculadora da história da humanidade: são três colunas empalhadas no perônio de babuíno; é a primeira vez que se tem notícia dos números primos. O artefato foi também creditado como ferramenta para multiplicação, e como calendário; a marcação do calendário lunar, aliás, era um modo de as mulheres marcarem os ciclos femininos.

Grandes achados paleontológicos no Chade, na Etiópia, no Quênia e mesmo os de Bomblos nos mostram que é preciso recontar história. A pergunta que me ocorre é quem lucra com a invisibilidade de um passado em ciência e tecnologia dos povos africanos e da diáspora?

Todas as vezes que uma sociedade começa a se organizar, a organização acontece por interesses comuns, por linhas gerais de importâncias e legitimam as práticas culturais. A organização de uma sociedade está diretamente ligada aos modos de como esta interage e transforma a realidade em que habita. Por sua vez, esta organização parte das necessidades materiais dos indivíduos tais como fome ou abrigo, e é marcada por processos de transformação da matéria, ora, pelo trabalho realizado. Assim, toda sociedade - das "consideradas" mais primitivas às mais complexas - produz trabalho e, portanto, conhecimento.

O primeiro calendário que se tem notícia na história da humanidade, ou seja, um artefato matemático, foi desenvolvido nas montanhas de Libombos entre África do Sul e Suazilândia. Um pedaço de fíbula de babuíno, artefato de 7,7 cm que possui 29 entalhes bem definidos datado de 37 mil anos ou 35 mil anos A.C. Mas vocês já viram alguma menção deste fato histórico nos livros didáticos? Os autores destes livros esquecem, ou propositadamente ou por ignorância, que o africano, por exemplo, já dominava a técnica de fundição dos metais há cerca de 3.000 anos a.C. e que, ao fazer isso, estava realizando transformações da matéria. Ou seja, nos materiais didáticos, na escola, os(as) alunos(as) pretos(as) e pardos(as) são apresentados(as) a uma ciência que surge na Europa no início dos anos de 1800 e ao fato de que os seus ancestrais não contribuíram em nada para a evolução dessa ciência.

Vivemos um momento ímpar no ensino de ciências no país. Este momento revoga pela articulação entre as precárias condições materiais vividas pelos sujeitos da escola e as dinâmicas culturais, identitárias e políticas desta sociedade multirracial.
As articulações entre passado e presente nos permitem reinventar o viver futuro. Este alerta passa sobre as construções, experiências e produções do povo negro da diáspora e passa também sobre as possibilidades de existências comprometidas com alternativas de reinvenção de todos nós.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Opinião