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Ser chamada de "Aruana"

Valdinéia Sauré

Valdinéia Sauré

Indígena do povo Munduruku, tem 23 anos e é formada em gestão pública pela Universidade Federal do Oeste do Pará. Faz parte do Engajamundo, organização de jovens, e do Coletivo de Mulheres Indígenas Suraras do Tapajós, que luta contra o racismo e a violência contra a mulher indígena e pelo empoderamento político e econômico na região do rio Tapajós.

30/05/2020 04h00

Um dia ouvi que éramos as "Aruanas" da vida real: pelas lutas em defesa dos nossos territórios e do Rio Tapajós; as denúncias que fazemos frente aos governos; a vulnerabilidade de várias lideranças indígenas, que vivem em constantes ataques e ameaças.

Exibida na Globo, a série "Aruanas" tem um papel fundamental de levar conhecimento e importância do ativismo ambiental para pessoas que dificilmente teriam acesso, se não pela TV aberta. Além de mostrar a luta de quem realmente defende o meio ambiente e descriminalizar o ativismo, que tem sido muito atacado pelo discurso vazio do atual governo. Embora a ficção mostre que as ativistas do Sudeste são as que articulam tudo, nos territórios as lideranças estão organizadas por nós, os indígenas. Mas, felizmente, temos apoiadores para somar mais força à nossa luta.

Os povos indígenas do Brasil sofrem com diversas perseguições, ataques e violações de direitos. Muitas vezes devido às invasões de territórios para grandes projetos governamentais e de interesses privados, instalando-os sem qualquer consentimento das comunidades que aqui vivem. A falta de consulta prévia, livre e informada, como determina a Convenção 169 da OIT, é um grande exemplo dessa violação.

Valdinéia Sauré, 23 anos, indígena do povo Munduruku, gestora pública - Engajamundo - Engajamundo
Valdinéia Sauré, gestora pública e indígena do povo Munduruku
Imagem: Engajamundo
O povo Munduruku, ao qual pertenço, vive em sua maioria no município de Jacareacanga (PA), região do Alto Rio Tapajós. Além de lutar contra a instalação de hidrelétricas, enfrentamos também o mesmo problema destacado na série "Aruanas": a invasão dos territórios por garimpos ilegais, que tiveram grande aumento, principalmente por causa do "aval" do governo federal. O uso de mercúrio para atividade garimpeira é constante e afeta a saúde de quem depende do rio para tomar banho e pescar. Como na série, a prostituição nos garimpos é recorrente e algumas mulheres arriscam sua saúde física e mental.

Não vemos preocupação na preservação dessas áreas quando se trata dos governos. Enquanto o município incentiva a atividade garimpeira, o governo federal quer aprovar um projeto de lei (PL 1919) para liberar as terras indígenas para grandes empreendimentos. Não queremos a liberação de atividades de mineração em nossos territórios, isso só aumentará ainda mais os conflitos e a destruição no Tapajós e em toda a Amazônia. As políticas públicas voltadas para a saúde na região não são eficazes e isso tem relação direta com o garimpo ilegal desenfreado. Há casos gravíssimos de mercúrio no sangue na população local, mas não temos acesso a exames e tratamentos.

A luta é assídua: anciões, jovens e mulheres indígenas estão cada vez mais na linha de frente em defesa da preservação dos nossos territórios. Nosso povo está organizado e unido resistindo a todos os retrocessos que ocorrem todos os dias no Brasil. A série traz a realidade sobre os recursos que são tirados da mãe terra, da exploração e violência que acontecem pela ganância do homem.

Espero que todos enxerguem que as 'Aruanas' arriscam suas vidas por um bem comum, que beneficia toda a humanidade que depende do ar, água, alimento e clima regulado para sobreviver

Que leve consciência de que essas atividades só existem porque há consumo, e este pode custar a vida de todo o ecossistema. Vejam como o papel das ONGs e a articulação dos povos indígenas é fundamental e atividades desenvolvidas por entidades como o Greenpeace ou o Engajamundo são importantes.

Nós podemos fazer parte: consumir menos, plantar mais árvores e pressionar governos de todo o mundo para que tomem atitudes contra crimes ambientais. Ser ativista hoje no Brasil é necessário. São muitas as demandas que precisamos nos atentar e agir para garantir que a humanidade siga o rumo do único caminho possível para nossa sobrevivência: preservação das florestas. Espero que a série desperte o interesse das pessoas, principalmente jovens, para também lutar contra o sistema predatório que é o capitalismo, que expulsa os povos e os animais de seus territórios e coloca o dinheiro e o lucro acima de nossas vidas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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