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Como livro e representatividade podem inspirar as práticas educacionais

Jaycelene Brasil é acreana, socióloga, professora, militante de direitos humanos e pesquisadora das questões raciais e de gênero - Arquivo Pessoal
Jaycelene Brasil é acreana, socióloga, professora, militante de direitos humanos e pesquisadora das questões raciais e de gênero Imagem: Arquivo Pessoal

Jaycelene Brasil*

12/02/2020 04h00

O livro da professora, historiadora mineira, mestra em educação e militante do movimento negro e feminista Luana Tolentino, intitulado "Outra educação é possível : feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula", lançado pela editora Mazza em 2018, é uma obra icônica de crônicas que evidenciam suas experiências vividas ao longo de dez anos à frente de turmas dos Ensinos Fundamental e Médio. Chama a atenção para a importância da Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino da História e da Cultura Africana e Afro-brasileira no currículo escolar, uma porta que abriu caminhos para estruturar uma política educacional que incentivou e continua a incentivar práticas pedagógicas que buscam combater o racismo no território escolar.

Estudiosa da educação pública no Brasil, essa profissional ousada está atenta também para os perigos do machismo, do sexismo e da LGBTfobia que, infelizmente, permeiam o cotidiano escolar. O seu fazer professoral reverberado nas narrativas de vida, questionamentos e as práticas, projetos desenvolvidos, inspiram com maestria.

Ao mesmo tempo, o livro é alento para quem faz parte da docência ou não, que sonha e deseja escolas humanizadas, alicerçadas por práticas pedagógicas criativas que desenvolvam o diálogo com a realidade do dia a dia dos alunos e alunas sem silenciar as suas inúmeras potencialidades.

Durante o ano de 2019, ao longo da árdua e longa missão de luta e prazer da produção de conhecimento em duas escolas, sendo uma urbana e outra rural no interior do Acre, especificamente na cidade de Xapuri - distante 188 km da capital Rio Branco -, tive como fontes inspiradoras a força, a insistência e a resistência de algumas mulheres professoras que deixaram legados no palco da história desse país, muitas delas invisibilizadas, a exemplo da catarinense Antonieta de Barros. Na convicção de que nossos passos vêm de longe e nada é por acaso, acredito que o meu encontro com Tolentino durante o Festival de Arte Negra, que ocorreu em BH ano passado, juntamente com o seu livro precioso, recheado de significados e histórias, uma conexão foi estabelecida. Haviam muitas semelhanças nas histórias contadas de lá e de cá, fato esse que me tocou profundamente enquanto professora de Sociologia do ensino médio, militante de direitos humanos e pesquisadora das questões raciais e de gênero.

Essas "coincidências" ( se é que existem) que a vida nos presenteia me fizeram lembrar uma daquelas entre tantas "cutucadas toques" do mestre Paulo Freire, que nos ensina que: "Educar requer coragem, compromisso com uma educação cidadã. E que a pobreza, a injustiça, a estupidez, a ignorância e o ódio que deterioram esse país não tirem de cada um de nós o direito de sonhar com dias melhores ".

Tolentino e seu livro me fortaleceram enquanto professora do Brasil Amazônico de cá. Uma leitura de força e coragem, que revela as nossas histórias e as memórias de sensação. Das lutas, de quebra do silêncio de crianças e adolescentes.

Representatividade importa sim, porque inspira e movimenta. E é o movimento o grande impulsionador dos sonhos.

*Jaycelene Brasil é acreana, socióloga, professora, militante de direitos humanos e pesquisadora das questões raciais e de gênero. Foi uma das coordenadoras da institucionalização da Política de Promoção da Igualdade Racial no Município de Rio Branco, em 2013. Dentre os instrumentos, coordenou a Campanha Rio Branco Sem Racismo.

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