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Linguagem neutra e a chacota nossa de cada dia

Mari Rodrigues

Estudante de Letras, Mari Rodrigues participa da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. É apaixonada por comida do norte e por reciprocidade nas relações. Ainda está decidindo o que vai fazer com sua vida.

19/09/2020 04h00

Nos últimos dias, um vídeo viralizou nas redes sociais. Nele, Rosa Laura, pessoa não-binária e ativista da causa trans, explica com a maior calma do mundo e com riqueza de detalhes como utilizar a linguagem neutra no dia-a-dia. Também fala sobre o caráter sexista das demarcações de gênero na língua portuguesa e sobre como a linguagem neutra pode ser um fator de reflexão sobre essa questão mais estrutural do sexismo em nossa sociedade.

Até aí, tudo bem, um tema interessante e pouco explorado mesmo pela academia, e uma boa fonte de conhecimento. Só que ninguém esperava o que estava por vir. Extremistas passaram a fazer troça do vídeo de Rosa e inclusive um famoso programa do rádio divulgou partes do vídeo, num show de chacota, humilhação e transfobia. O vídeo alcançou milhões de visualizações, muitas delas seguidas por discursos inflamados de ódio.

Então pensei, por que não falar diretamente com a pessoa que criou o vídeo para saber o que tem se passado em sua cabeça? Foi assim que entrei em contato com Rosa, uma pessoa bastante calma e acessível. Rosa me disse que desde que o vídeo viralizou, tem recebido em sua conta pessoal xingamentos e ameaças. Disse que uma famosa extremista usou o seu rosto para fazer chacota. Disse também que está com apoio jurídico para acionar a emissora de rádio que ironizou o seu vídeo.

Alguns questionamentos passam pela minha cabeça, considerando toda a repercussão do vídeo, inclusive em círculos próximos ao meu.

Realmente custa tanto assim respeitar as pessoas? Pois parece-me que ao usar um pronome diferente do padrão, uma mão vai cair ou a língua vai enrolar. Confesso que até a mim foi difícil começar a usar pronomes neutros como elu, delu, nelu. É um mundo novo que eu, na minha pretensa binaridade, nunca explorei. Mas se ninguém começa, os preconceitos vão persistir.

Até onde vale a "carteirada" cientificista? Várias das críticas ao vídeo de Rosa falam que a linguagem neutra é uma tentativa artificial de mudar a língua e que nunca irá para frente. Pode sim ser artificial. Mas não seria a norma culta da língua portuguesa algo já alçado à artificialidade? Pelo menos no Brasil, certas regências nunca foram utilizadas pela fala comum. E a língua é algo mutável. Ou vocês queriam continuar falando como na época das cantigas medievais?

Como o meio LGBTI+ pode contribuir com a quebra dos preconceitos, inclusive dentro da própria comunidade? Muitas pessoas que criticam a linguagem neutra se dizem gays e bissexuais, e mesmo dizem que se relacionam com pessoas trans. Agora eu me pergunto: não é incoerente isso de ser de uma comunidade já bastante oprimida e oprimir outra comunidade com a qual simpatiza? Pensar a linguagem neutra como balizadora de comunicações não opressivas também faz parte da quebra dos preconceitos.

Qual o papel da mídia na reprodução de opressões e na quebra de paradigmas opressores? Temos de um lado uma emissora de rádio que não se envergonha de prestar tamanho desserviço à população, produzindo e reproduzindo preconceitos contra pessoas trans, e neste caso específico às pessoas não-binárias. Temos do outro lado uma coluna de um site importante que se presta a desmistificar esses preconceitos e gerar um debate, fazendo pensar a quem pensa e incomodando a quem não quer pensar.

No mais, desejo para Rosa boa sorte nessa jornada contra o preconceito!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.