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Mara Gama

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Destruição do Xingu avança com Bolsonaro

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Imagem: Divulgação
Mara Gama

Mara Gama é jornalista e pós-graduada em Design. Trabalhou na MTV Brasil e foi repórter, consultora de texto e colunista de meio ambiente da Folha de S. Paulo. Fez parte da equipe que iniciou o UOL, onde foi diretora de qualidade de conteúdo e ombudsman. Atualmente é consultora de texto e estuda economia circular e sustentabilidade.

Colunista do UOL

22/04/2021 06h00

A informação não fará parte das comunicações do governo brasileiro durante a reunião preparatória da conferência do Clima, convocada pelo presidente dos EUA Joe Biden para acontecer nesta quinta e sexta nos Estados Unidos. Não é boa credencial para quem quer captar dinheiro de fundos internacionais e fazer de conta que não trabalha para passar a boiada e o trator na floresta.

Levantamento feito nos últimos três anos mostra que durante o governo Bolsonaro o desmatamento, a mineração ilegal, a grilagem de terras e os impactos de obras de infraestrutura estão atingindo mais intensamente os territórios indígenas e destruindo o chamado "escudo verde" do Xingu, que protege a Amazônia do processo de desertificação e sustenta o regime de chuvas. É um dos epicentros do desmatamento no Brasil.

A bacia do rio Xingu tem aproximadamente 53 milhões de hectares, nos estados do Pará e de Mato Grosso, com regiões que pertencem aos biomas Amazônia e Cerrado. Dentro da área da bacia, com mais de 26,5 milhões de hectares, está o Corredor de Áreas Protegidas do Xingu, que abriga 23 Terras Indígenas, nove Unidades de Conservação, 26 povos indígenas e mais de uma centena de comunidades ribeirinhas. Esse corredor é considerado uma das regiões com maior biodiversidade no mundo e é fundamental na proteção da Amazônia e do clima.

Hoje, 17% da cobertura original da Amazônia já foi destruída. É uma situação próxima do limite, apontado como 20%, após o qual a floresta se degradada irreversivelmente, sem capacidade para se regenerar, com reflexos na vida e nas atividades econômicas de todo o planeta. A destruição do Corredor Xingu acelera o processo e por isso sua proteção é essencial.

Entre 2018 e 2020, 513,5 mil hectares foram desmatados na bacia do rio, como intensificação de conflitos e disputas por terras e recursos naturais nas Áreas Protegidas do Xingu. A área desmatada equivale a quase 5 vezes o município de Belém (PA), em uma velocidade de 149 árvores derrubadas a cada minuto.

Os dados apareceram no monitoramento de três anos do Sirad X, o sistema de detecção de desmatamento da Rede Xingu +, e estão publicados no documento "Xingu sob Bolsonaro".

Segundo o levantamento, o desmatamento dentro de Áreas Protegidas variou de 30%, em 2018, para 34%, em 2020, e houve um deslocamento do desmate para dentro de populações tradicionais: alta de 38% dentro de Terras Indígenas e de 50% nas Unidades de Conservação na bacia.

No Pará, a atividade de grupos de grileiros na região do Iriri, entre Novo Progresso e São Félix do Xingu, pode cortar o remanescente florestal da Floresta Estadual e acabar com a conectividade do Corredor Xingu, "fragilizando ainda mais o território que hoje é a última barreira entre o novo arco do desmatamento e a Amazônia Oriental", segundo o relatório, que considera o cenário do Xingu devastador.

"Os discursos do governo favoráveis à redução de Áreas Protegidas, a expectativa da legalização de atividades criminais, como o garimpo mecanizado dentro de Terras Indígenas (PL 191/2020), assim como a ostensiva diminuição das ações de fiscalização foram um fator importante na atração de invasores nas TIs Apyterewa, Cachoeira Seca, Ituna Itatá, Trincheira Bacajá e Kayapó", aponta o documento. A expectativa de regularização das terras griladas, através dos PL 2633/20 e PL 510/21, também impulsiona invasões nas unidades de conservação.

"O Xingu continua sendo uma verdadeira barreira contra o avanço do desmatamento, do fogo e da degradação que ameaça a biodiversidade, a regulação do clima, e também o modo de vida de indígenas e populações tradicionais que vivem no território. A Amazônia pode atingir o "ponto de não retorno", dando espaço para uma vegetação mais seca e vulnerável, sem capacidade para continuar exercendo suas funções. Em um contexto de emergência climática, proteger o Xingu é proteger a nós mesmos", conclui o documento.