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Julie Dorrico

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Livro da Pró-Índio conta como as crianças indígenas vivenciam a pandemia

Capa do livro "Coronavírus é um bichinho que deixa doente" - Reprodução
Capa do livro "Coronavírus é um bichinho que deixa doente" Imagem: Reprodução
Julie Dorrico

Julie Dorrico é doutora em teoria da literatura na PUC-RS. Autora da obra "Eu sou macuxi e outras histórias" (Caos e Letras, 2019) que venceu o 1º Lugar no Concurso Tamoios de Novos Escritores Indígenas, promovido pelo Instituto UK'A e Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ, 2019). Descendente do povo macuxi (Roraima). Organizadora da Coleção Memórias Ancestrais, obras de autoria indígena, pela Editora Tekoha (2021). Este é um espaço-terreno para reflorestar simbolicamente a educação brasileira. Buscando fortalecer o uso da lei 11.645/2008 que tornou obrigatório o ensino das culturas e histórias afro e indígenas em todo currículo escolar, esta coluna busca compartilhar iniciativas, projetos e temas indígenas que possam fortalecer a educação étnico-racial no país.

15/09/2021 13h24

O livro "Coronavírus é um bichinho que deixa doente", lançado em agosto de 2021, reúne depoimentos de 38 crianças e adolescentes da Terra Indígena Piaçaguera, em Peruíbe, litoral sul de São Paulo, sobre o momento que vivem. A publicação realizada pela Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPI-SP) junto a professores e lideranças indígenas buscou ouvir o que as crianças têm a dizer sobre o período de isolamento e pandemia.

Para garantir a prevenção ao vírus, informou a CPI-SP, os depoimentos foram todos coletados virtualmente, com a colaboração de professoras, professores e lideranças ao longo de dois meses.

Em breves relatos, as crianças compartilham suas percepções, temores e desejos para quando a pandemia acabar, e contam como estão se prevenindo. Às vezes a resposta está na ponta da língua: "A gente se cuida, usa o álcool em gel. Quando chega, a gente tem que tomar banho, não pode sair sem máscara e também evita aglomerações". Em outras situações, sai mais atrapalhada: "Como você está se prevenindo, David?", pergunta. "Lavando o pé... Não, a mão. Lavando a mão", a criança responde.

Quem foram as crianças protagonistas da obra?

As crianças que participaram do livro estão localizadas em diferentes aldeias/comunidades dentro da T.I Piaçaguera. São elas respectivamente: Aldeia Nhamandu Mirim - Erick Karai Mirim (9 anos), Itauãn Nabirãn Gomes Lemos (13 anos), Leandro Kwaray Tsapé (6 anos), Maria Kunhã Nhimboatsydjú (6 anos), Yudi (11 anos); Aldeia Piaçaguera - Eduardo (7 anos), Estefan (8 anos), Geovana (7 anos), Giulia (15 anos), Henzo (6 anos), Izabela (9 anos), Ismael (9 anos), Jeniffer (9 anos), Maynã (12 anos), Naoma (10 anos), Vitória (9 anos); Aldeia Tengwá Eté - Benjamin Emanuel Tengwá Eté, 6 anos Elenise Oliveira de Carvalho, 14 anos Werton José Oliveira de Carvalho, 10 anos; Aldeia Awa Porungawa Dju - Ana Paula (4 anos), Awa Tharuan (6 anos), David Gabriel (4 anos), Kamille da Silva Gonçalves (12 anos), Kerlon Henrique (12 anos), Kiara Ariadna (9 anos), Luana (10 anos), Marielly (11 anos), Mirelly Nhimo aã (4 anos); Aldeia Tabaçu Reko Ypy - Amani'u (8 anos), Apoi (5 anos), Djatsy (12 anos), Djedjy (12 anos), Eitsy (9 anos), Maná'i (5 anos), Mandi (5 anos); Aldeia Tapirema - Gleicielle (13 anos), Samuel (7 anos), Vithor (11 anos).

Iniciativas como essa tendem a estimular o desenvolvimento criativo das crianças por meio da arte literária. Ao ganhar o protagonismo na obra, às crianças indígenas é garantida a representatividade, atitude ainda carente aos povos indígenas na sociedade dominante. A participação das crianças indígenas na obra é um passo para o envolvimento com a literatura. Na literatura indígena, a escritora Niara Terena, de 14 anos, já publicou dois livros; poetas adolescentes despontam na escola Kariri com a poesia como contado na coluna Universos Kariri: a poesia e o celular no cotidiano indígena.

A autoria e a organização que precisamos discutir

A confecção de livros em comunidades indígenas tem sido desde a década de 1980 uma estratégia de resistência das escolas indígenas, apoiada pela Comissão Pró-Índio, com destaque para a atuação no estado do Acre.

A elaboração de livros e cursos de autoria a professores e estudantes fizeram com que cerca de pelo menos seis povos, como Huni Kuĩ (Kaxinawá), Noke Ko'í (Katukina), Manxineri, Apurinã, Yawanawa e Jaminawa, lutassem contra o trabalho análogo à escravização dos regimes de seringais erguidos em seus próprios territórios. No site da comissão, você pode saber mais sobre a atuação dela.

Quando discutimos o lugar de fala indígena, não buscamos romper todas as relações com as agências que até o presente têm atuado e sido parceiras na proteção e emancipação dos povos indígenas, mas exatamente chamar a atenção para a urgente participação dos indígenas nesses projetos como organizadores, autores, editores e protagonistas em atividades que já participam diretamente. Acredito que essa participação é o que falta para vivermos uma outra história.

Onde encontrar a obra?

O livro "Coronavírus é um bichinho que deixa doente" está disponível para download gratuito no site da Pró-Índio. Para saber mais da obra e das redes sociais da CPI-SP:

Site: cpisp.org.br

Twitter: @proindio

Instagram: @proindiosp

Facebook: facebook.com/cpisp

YouTube: youtube.com/comissaoproindio

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL