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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que o BBB é o pior e o melhor que você encontrará na TV brasileira

BBB 21: Rodolffo pede desculpas para Gilberto na noite de eliminação - Reprodução/ Globoplay
BBB 21: Rodolffo pede desculpas para Gilberto na noite de eliminação Imagem: Reprodução/ Globoplay

Julián Fuks

Colunista do UOL

10/04/2021 06h00

A ironia não tem passado despercebida: que milhões de pessoas confinadas em suas casas tenham como principal distração acompanhar minuciosamente a vida de um punhado de pessoas confinadas numa casa. Poderia ser a expressão definitiva do nosso desapreço pela fantasia, de um conformismo tão arraigado em nós que até abdicamos do desejo de escape. Mas não, há aqui um fenômeno de outra ordem que não se encerra no riso irônico, que nos exige um esforço maior de compreensão. Quem olha mais de perto o Big Brother Brasil tem se deparado com um fato improvável, mas veraz: em meio à sua profusão de insignificâncias e futilidades, há ali também algo de necessário e importante, algo de vivo e real.

Passo antes pelas ressalvas óbvias. Nada se parece menos com a intimidade do que o sujeito que se sabe flagrado em seu momento íntimo. Observado em seus hábitos diários, ele os transforma, perde a espontaneidade em cada gesto e em cada ato. Estamos diante do princípio da incerteza, uma das poucas certezas que a época nos reserva: a ideia de que a observação altera tudo e nunca alcançará nenhuma precisão, a percepção de que nunca existirá uma legitimidade vigiada. E se somarmos à interferência da observação a falácia inevitável de toda palavra, a coisa se faz ainda mais grave: nada se parece menos com a realidade do que aquilo que estamos dispostos a chamar taxativamente de realidade, ou pior, de "reality".

Que aquele não é um espaço propício a relações verdadeiras e sinceras, que ali dentro a vida não é convocada a se apresentar tal como a conhecemos aqui fora, é algo que fica claríssimo para qualquer um que acompanhe dez minutos de programa. Há por toda parte o empenho de uma construção ficcional, a elaboração de incontáveis disputas que vão tecendo uma trama desconexa e errática. Há também a disposição de constituir personagens a partir das pessoas ali presentes, de lhes subtrair a complexidade para torná-las caricaturas de si mesmas, ressaltando traços dominantes que cativem um público vasto. É sintomático, aliás, que agora de partida vários participantes sejam artistas. Adaptam-se todos a uma nova arte: passam a cumprir um papel a mais, entram no papel de suas vidas - e aqui é bem-vinda a ambiguidade.

Narrativamente, nada ali é mais despropositado do que a constante interferência autoral, de uma voz poderosa que define a rotina rígida da casa, que determina quando é hora de despertar, de discutir, de festejar. Ao destino dos personagens resta pouco espaço para a liberdade. Tão coagidos estão, tão desprovidos de autonomia, que até se veem obrigados a repetir seguidas vezes, com entusiasmo falso, o nome das marcas que patrocinam cada um desses lances arbitrários - no merchandising mais agressivo e constrangedor que já se viu. Sim, em seus piores momentos o BBB é algo lamentável.

Há, no entanto, como já anunciei no primeiro parágrafo, momentos que transformam toda a obra em outra coisa, passagens que redimem essa ficção precária e espalhafatosa, relances de alguma verdade. Mesmo que ainda imbuídos do papel que representam, nesses momentos os sujeitos se veem tomados pela fricção que se cria entre eles, e são remetidos ao próprio passado, aos sentidos de sua existência pretérita. O último caso quase todos vimos: com a espontaneidade possível, um participante faz chacota do cabelo de outro, num comentário que ele julga inofensivo, mas que resulta, sim, racista. O outro, negro, vê reiterada a opressão que já sofreu muitas vezes, silencia, sofre, e então reage no momento exato, ao vivo diante de um país inteiro.

A cena não se encerra aí, pelo contrário, é a partir desse instante que ela adquire sua maior potência. O país, se há nesse termo uma unidade possível, responde com euforia àquilo que viu, envolve-se em debates quentes, promove guerras de hashtags, intensifica e estende a polêmica por muitos dias. Os opostos já não são o afamado cantor sertanejo e o modesto professor, protagonistas do primeiro momento. Agora estamos diante da crítica à persistência do racismo com a conivência de muitos, com a indiferença diária de tanta gente; e a crítica à cultura do cancelamento, àqueles que querem fazer o cantor desaparecer pelo comentário que fez. O país, este sim complexo e atravessado de ambivalências, faz-se personagem do programa, entra na casa e se encontra consigo mesmo, e se estranha, e se rejeita.

Racismo, sexismo, homofobia, cultura do cancelamento: essas e tantas outras tensões que marcam a história do Brasil e ainda latejam em seu presente tornam-se os temas fulcrais de um programa que poderia ser apenas falso e fútil. Algo de mais verdadeiro venceu a frivolidade: a realidade que ficaria de fora da casa diante de tanto controle soube se infiltrar por suas paredes, soube aproveitar cada fresta ou frincha no cimento. E os sagazes gestores da obra então acolhem essa presença, fazem dela o cerne do espetáculo.

É cabível extrapolar o argumento: esse foi desde sempre um dos ideais da literatura, um dos ideais do romance. Ver sua matéria atravessada pelos conflitos de uma sociedade e de um tempo, ou de uma sociedade no tempo. Ver refletidas em sua forma essas disputas longevas, essas tensões inconciliáveis, essas cisões perenes, e deixar que a própria forma se altere diante de tal potência. Eis por que, a meu ver, o BBB é a um só tempo o que há de pior e de melhor a ser encontrado hoje na televisão brasileira.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL