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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não Só Hoje, Como Sempre, Axé!

Victor Balde
Imagem: Victor Balde
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

15/05/2022 06h00

Amanheceu, faz frio, outono chegou. Abri os olhos, levantei, fiz meu ritual diário e fui ao banho. Acordo cansada do descanso e só um banho matinal me devolve a mim mesma, a repetição traz a mim o privilégio de conhecer a casa que habito, todo este cenário muda se eu dormir fora de casa. Acordar várias vezes durante a noite é normal, nada de novo até aí, sempre foi assim, faça chuva ou não, eu acordo, sempre acordei. Resolvi esta questão com uma solução simples, já que não durmo, optei por trabalhar durante a noite, foi aí que então eu queria dormir, esquisito, né? Não, necessário.

Uma vez acordada, sou visitada por um pensamento chato, são incríveis os assuntos horríveis que minha imaginação cria sugerida pela fala subliminar, eles moram em mim nalgum lugar. Moram no meu porão, onde eu escondo meu melhor lado pra viver socialmente, e como é sabido que o que escondemos no porão nem morre, nem deixa de existir, nem é estático, me bate então a porta todo dia me dizendo:

- Pra fora bi, pra fora!

É sempre ele o primeiro a querer, fazer planos e trazer assuntos para me estragar o dia, meu maior inimigo. Digo: acalma-te! Tem coisas que eu preciso fazer antes e pra ser feliz, acalma-te!

Preciso de um cafezinho, urgente. Vivi anos atrás só refém do cheiro na memória, hoje eu aceito o gole. Na minha infância eu ficava fascinada com o cheiro que vinha da cozinha quando minha mãe passava o preto no saco, se é que você entende. A fumaça me procurava antes de subir pra o além das coisas, sou feita de odores, cores e sentimentos, meu ndotolo vive e se renova nas memórias que vem da cozinha dela. E eis-me aqui, nesta coluna maravilhosa, repetindo o mesmo assunto, banalidades e afrescos do meu pensamento.

- Mas Dona Jacira, até quando a gente vai reviver estas anedotas do seu livro Café? Já não dissestes e escrevestes isso?

- Sim, eu escrevi, mas me diga: Melhoraram as infâncias porque eu narrei o que sofri?

- Não, nunca!

- A única coisa que nunca muda é o ndotolo (a comunicação sensorial)

E pra o que ela nos serve? Pra lembrar que em algum lugar a inocência nos valeu e fomos felizes e arranjados mesmo na tristeza. E neste lugar sempre vencemos, é só olhar as escrituras dos envelhecentes como eu, sempre retornando as infâncias pra recordar o que foi bom. E se eu sempre volto a este exercício, como querer tu que eu os esqueça? Acaso, não foi por isso que lutei para grafar em meu livro Café para que nunca esqueça e pra que não se repita? Não é um horror de bom? Então, porque insistes em me dizer que já lestes isto ou aquilo aqui e acola. E tu que tanto me leste repetidamente é bem bom que saibas que nem eu nem tu não temos infâncias diversas pra contar, e daqui pra ali é ela quem vem a tona para comparação de cada futuro ate que nos encantemos. E dali pra frente outros o farão em nosso lugar, agora mesmo nalgum lugar vai nascer um escritor, está para ser gerado um espírito acossado na escrita, Exu vai abrir os caminhos. ispia!

Olha lá, tá vendo, o embrião correu, furou o óvulo e se acomodou. Como eu sei? Ora, não percebestes? Ele tinha um mapa, usava uma lupa. Você deveria prestar mais atenção ao obvio é fantabuloso! Assim nascem os fazeres junto com o dono. Qual é o seu dom? Não sabe? Então não se aborreça comigo, eu faço viagens imensas ao passado buscando respostas, visito o larguinho a frente da casa e ao lado da mata que hoje só existe em minhas memórias, e volto ao Café porque muita gente leu meu livro pra aprender plantar café, crês nisto? Tem quem não o entendeu. E até mesmo esta equipe da Ecoa está aqui a me trazer novamente a este setor pra seguir contando coisas deste meu pais distante, o Ataliba Leonel de Xica Mixirica. A mãe de Nico, o meu moleque ou o moleque dela.

Na idade mais madura, se é que em algum tempo amadureci, eu até provei uns goles de café, mas fui com tanta sede ao pote que fiquei adoecida da bebida cheirosa. Ficava com diarreia, cabeça tonta, leseira e só depois de tomar muita água meu corpo se recuperava. Foi incrível perceber que o que a gente gosta pode sim nos fazer mal: café, casamentos, livro ruim, pessoas de energia duvidosa etc.

O dia segue, visitar meus canteiros, dar pitacos com as folhas e sentir a natureza delas. Aquela voz segue comigo, não consigo me livrar dela, queira eu ou não queira, tem aqui nada de novo, estou fazendo exatamente o que mãe fazia. Ela visitava as panelas de planta, alimentava crianças e animais e só a seguir ia pra lida da casa. Fazer comida, botar roupas de molho, bater, quarar, enxaguar, tornar torcer, botar no anil pra azular e pendurar. Bem ao lado da carne seca ou jabá, que naquela época também se trazia pendurado a corda sobre os olhares das mulheres e os miados dos felinos. Como vês, nossa arte nunca é mera contemplação é sempre útil ao corpo e ao espírito. Nem tudo o que mãe me ensinou eu trouxe comigo, tem coisas que são dela, nunca gostei da fala das bocas "mininas é pra tanque e pia", nunca! "Mininos pra datilografia e estudos", deixa pra lá, este descuido que a seu tempo cada um pagou seu preço a custos bem altos até. Eu sempre brigava quando diziam a mim que tal coisa não era coisa de menina, que fita, que sina. Toda vez que íamos visitar uma parida, olha aí mais indireta, "tomara que seja minino, minina sofre demais". Eu me achava tão feliz vivendo entre a mata e os animais, o que era a tal infelicidade enfim? Sabendo ou não eu queria ser independente, trabalhar, ficar rica, eu queria conhecer o que havia do outro lado da serra, cheguei a acreditar que o pé da Serra da Cantareira era o fim do mundo, nem achei que voltaria quando saí. Passaram-se 44 primaveras e eis me aqui sentada na sala de casa, mãe agora é minha vizinha. Dia destes de visita por cá disse: Bote o carrego na porta, você está reformando e isto atrai inveja. Como diz uma outra senhora, o toque na carroça faz o animal andar. Eu entendi, desci o meu mais belo vaso de espada de São Jorge. Bethânia já canta "em toda casa tem um santo de São Jorge, em toda casa onde o santo é protetor", a minha é.

Uma coisa de mãe que teimei, eu fui além do pé da serra e segui nos estudos apesar de nascer menina, eu sou muito mais coisas pra além de ser manina, razão de nossas maiores divergências, mãe acha que menina que estuda fica topetuda, namoradeira, mas eu não aprendi tais coisas na escola, eu tive o meu observatório. Ah se mãe soubesse o que descobri! Numa única aula com Kabengele Munanga uma luz pairou sobre mim. Ele lá vai falando sobre religiosidade e arte negra e eu só bebi na fonte, ora nossas artes são nossos fazeres, alguma dúvida? Sejam elas visuais ou não. Tudo o que assisti mãe fazer foi retratado por ele, trazido a luz do meu conhecimento, culinária, cuidados pessoais, corporais, mentais, tecer, costurar, bordar, pintar, entre tantas especificidades nossas são baseadas na nossa cosmovisão, nossas múltiplas expressões. A gente se redescobre na arte e no dom, foi assim que aconteceu comigo, eu me redescobri pra não adoecer. Eu, enquanto herdeira de tecnologias ancestrais, sou fundante de novas formas de mundo junto com outras culturas. Hoje o que queremos é saber quando a cortina de fumaça do traficante de pessoas irá nos devolver o direito de sermos reconhecidos(as), já que empregados já estamos. Um rolo compressor passou sobre nossas nações e danificou nossas raízes, mas não as matou. Kabengele me disse isto, não inventei! E este mesmo rolo ainda tenta fazer de nós exército de reserva para nunca perderem o privilégio que ganharam sem esforço, destruindo nossos lugares de origem, foi por isso que adoeci, é por isto que adoecemos. Sobrevivi porque encontrei um núcleo de resistência e pela proteção de meu Orixá de cabeça, meu Ori sagrado.

Por isso que sempre vou voltar a tudo o que vivi na infância, meu legado matriarcal, pra nunca esquecer e pra passar adiante. Eu sou herdeira, me mantenho a sombra da minha árvore e frutifico o que vivi, vi e ouvi, e assim como uma mangueira traz manga, trago informações dos meus e de minha mãe. É por isto que nesta encarnação eu novamente nasci manga, porque eu fundamento e resisto. E se permitires frutifico.