PUBLICIDADE
Topo

Arte fora dos centros

Amazônia Nunca Mais: Bandas do norte apostam em som e letras extremos

Klitores Kaos banda feminista e antifascista de Belém (PA) - Victor Peixe
Klitores Kaos banda feminista e antifascista de Belém (PA) Imagem: Victor Peixe
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

03/12/2020 04h00

Estamos longe, na República Checa (ou Chéquia, como preferem alguns): a multidão, que come comida vegana e se mete em rodas de mosh, compõe o festival mais barulhento do mundo OEF (Obscene Extreme Festival). Pelo OEF, dedicado ao grindcore e ao death metal, já passaram grandes nomes do barulho mundial como Napalm Death, Sodom, Brujeria, Municipal Waste e Ratos de Porão. Quem rouba a cena desta vez, no entanto, não é o Ratos, mas outra banda brasileiríssima, fundada em Belém, rodeada pela floresta amazônica e o som tecnobrega do Calypso. O grindcore influenciado por Augusto dos Anjos e Nietzsche sai dos pulmões de dois homens negros e periféricos, os frontmans do Baixo Calão. Liderados por Leandro Porko, o quinteto é um dos nomes mais destacados da agressiva cena roqueira do norte do país.

Amazônia nunca mais

Porko, vocalista do Baixo Calão - Victor Peixe - Victor Peixe
Porko, vocalista do Baixo Calão
Imagem: Victor Peixe

Uma das bandas mais importantes do rock nacional, o já citado Ratos de Porão iniciou, este mês, a comemoração dos seus 40 anos de estrada. Seu disco mais famoso, "Brasil (1989)" abre com a clássica "Amazônia Nunca Mais" que parece ter sido composta hoje para nossos tempos de desmatamento e aquecimento global. E é da Amazônia em chamas, cantada por João Gordo, que emerge uma das cenas mais agressivas (e menos divulgadas) de discípulos do Ratos. Abaixo pinço cinco nomes do rock nortista que merecem ser escutados, mas a lista, obviamente, é muito maior.

1) Baixo Calão, Belém - PA

Quem lê esta coluna sabe que o Pará tem uma cena pulsante de literatura e artes e não é difícil achar modernos do sudeste que sejam fãs de Jaloo, Dona Onete ou da culinária desbundante do estado.

Mas é preciso falar dos heróis do grindcore nacional do Baixo Calão, quando se fala em Belém. Na ativa desde 1996, sempre liderados pelo vocalista Leandro Porko, o Baixo Calão foi criado no bairro Coqueiro, na fronteira com a cidade de Ananindeua, distante do centro de Belém, onde segundo o vocalista: "Não tinha nada. Apenas botecos rolando brega e Axé Music."

No final dos anos 90, fazer barulho no meio da Amazônia não era fácil: " A gente começou tocando no próprio centro comunitário do bairro, eventos produzidos por nós. Em alguns eventos desse a gente conseguiu arrecadar grana pra melhorar o piso da creche, dentro desse centro comunitário. Fazer evento era de fato fazer da própria ponte safena (prática que dá certo até hoje!). Com o tempo novas bandas surgiram com propostas convergentes e com isso o caldo foi engrossando", conta Porko, que vai lembrando, aos poucos, de uma série de boas bandas da região: "Sisa, Candiru, Vjolenza, Abissal, Klitores Kaos, Briga de Bar, Disgrace Suicide, Cavalo do Cão, Manduca na Roça, Morfinapunk, Máquina, NDVB". Isso sem falar da clássica Delinquentes, de Jayme Catarro.

O Baixo Calão lançou em 2019 o impressionante e brutal "Necrológio" com participação da segunda vocalista Monise Sousa (Monoise) e riffs de torcer a coluna de Danilo Leitão - que também toca no Warpath. Os títulos das canções do Baixo Calão, que alternam passagens ultra rápidas com momentos densos e pesados, são maravilhosos (e muitas vezes filosóficos) como "Cadáver de Poeta" e "Solipsista".

Falando em filosofia, Gomes, o baterista da banda que também atende pelo nome de William Peixoto, disse em uma entrevista para o Rarozine que um dos grandes momentos da turnê europeia dos caras "foi ter visitado a vila onde está o túmulo de Nietzsche, conhecemos as casa onde ele nasceu, isso foi marcante pra gente". Gomes, além de interessado na filosofia nietzschiana, é uma metralhadora giratória na percussão baixo-caloniana, espancando as peles da bateria, muitas vezes, no ritmo infernal dos blast beats. Foi ele também que comandou os samplers que enriquecem "Necrológio" e incluem falas que vão de Zé do Caixão, no filme "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver", ao presidente Bolsonaro.

"Todos os samplers foram escolhidos e devidamente "cosidos" às faixas pelas mãos do Gomes, nosso baterista, que esteve no front da gravação e da mixagem geral do disco. Daí, lembro que na faixa 'Necrológio', que abre o álbum, tem uma introdução que foi construída por nós às três da manhã. O Gomes colocou pra rolar um vinil da Sarah Vaughan, pediu que eu abrisse minha garrafa de cana, servisse um copo, e bebesse uma dose significativa, tudo isso enquanto ele gravava com o microfone. Em "Esboroável", ele selecionou um trecho do filme 'O Sétimo Selo' por retratar bem o clima lúgubre da letra, relacionada à mortandade oriunda da Peste Negra. [Também tem] a fala de um personagem jesuíta do século XVI no Brasil colônia, durante a cena de um sermão aos colonos em um filme nacional fantástico, mas que por questões legais não devemos mencionar.", conta o vocalista Porko

O disco "Necrológico" levou o Baixo Calão a ser convidado mais uma vez a tocar no OEF e rodar pela Europa, o que o grupo teve que cancelar devido à epidemia de coronavírus (cuja linda capa de "Necrológico" parece antecipar). "Novas portas se abriram, convites de festivais em alguns estados começaram a aparecer, e nossa tour também começou a crescer. Até que surgiu a pandemia, atirando-nos mais uma vez à sala cirúrgica para mais uma "ponte safena". Todavia, o disco não parou de alçar novos horizontes, contatos e sobretudo parcerias", diz Porko que sempre faz questão de elogiar o trabalho do selo paraense Xaninho Discos, responsável por lançar o último disco do Napalm Death no Brasil.

2) Klitores Kaos, Belém - PA

Seguindo no ritmo de pancadaria alucinada iniciada pelo Baixo Calão, vamos falar do Klitores Kaos, uma fantástica banda de crust formada só por mulheres. Nascida em 2015, a banda de origem punk, feminista e antifascista inclui em seu som, cada vez mais, influências de metal.

Capitaneada, hoje, pela vocalista (e ex-baterista) Debby Mota, o Klitores Kaos foi fundada por Debby e a antiga vocalista Luma Josino, dona de um gutural devastador. Os títulos das canções dão o tom da mensagem do grupo: "Porrada rachamacho" e "Homem Abortista" são algumas das pepitas que agitam o pogo nas rodas de Belém. O único defeito do primeiro EP, homônimo, da Klitores Kaos é que ele acaba muito rápido. Ouçam até os ouvidos sangrarem.

3) Warpath, Ananindeua - PA

Formado em 1999 como Mercy Killer, o, hoje, trio Warpath passou por diversas formações e ganhou o novo nome em 2004. Faz um thrash metal clássico com influências oitentistas e vocal rasgadaço.

Originários de Ananindeua, no Pará, o Warpath, é, hoje, a base sonora do Baixo Calão - com quem divide os integrantes Danilo Leitão (guitarra), Márcio Oldman (baixo) e William Peixoto (bateria). Eles lançaram seu primeiro disco cheio "A Hell to Behold" no ano passado pela Rapture Records. Antes tinham cravado o belo EP "Massacre".

4) Dpeids, Manaus - AM

Falar de punk rock e da região norte sem falar do Playmobils, de Manaus (AM), não faria sentido, mas infelizmente, a banda acabou em novembro deste ano, devido ao falecimento do seu baterista Henrique Magnani. Feita a homenagem aos reis do bubblegum manauara, listo aqui outra banda da cidade que também mistura punk rock, bom humor e melodias: o Dpeids, que define seu som como "rock podre", uma mistura de punk e hardcore, com letras escrachadas que falam sobre sexo e drogas. Seu vocalista costuma fazer shows de samba-canção, segundo meus amigos do site Nada Pop.

Na mesma Linha do Dpeids (mas puxando mais para o rock n' roll do que para o punk rock), tem o Antiga Roll, de Maués (AM).

5)Arandu Arakuaa, Rio Sono - TO/Brasília - BSB

Nenhuma das bandas que citei anteriormente mesclam "elementos regionais" ao seu som agressivo. Elas parecem fugir do clichê que associa a região norte mais à música do grupo Carrapicho, do que a uma parte pulsante do século XXI.

Arandu Arakuaa - Divulgação - Divulgação
Arandu Arakuaa
Imagem: Divulgação

Não é o caso da hypada Arandu Arakuaa, fundada em 2008, e que faz um som complexo e trabalhado, misturando heavy metal e elementos acústicos com o que passou a ser chamado de "metal indígena". O Arandu Arakuaa foi fundado, na verdade, em Brasília, mas seu vocalista e compositor Zândhio Huku nasceu e foi criado em Tocantins, onde conviveu com as culturas dos povos Xerente e Krahô, daí as influências indígenas da banda que canta em tupi-guarani.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.