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"Todo lugar é Centro": pistolagem e colonialismo entre Amazônia e Alemanha

A pesquisadora paraense Suelen Silva mora na Alemanha - Arquivo Pessoal
A pesquisadora paraense Suelen Silva mora na Alemanha Imagem: Arquivo Pessoal
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

18/06/2020 04h00

"Eu tinha uns quatro, cinco anos. Depois de sofrer ameaças da oligarquia local, meu pai foi assassinado na praça por um pistoleiro, durante a luz do dia - que é para que tenham certeza de que a comunidade vai ver o que pode acontecer, se você se opõe a algo", conta Suelen Silva, 33, pesquisadora especializada em gestão e políticas culturais e mestre em ciências sociais pela UFPA (Universidade Federal do Pará).

"Pistolagem é ainda uma prática de violência e controle social em muitas cidades amazônicas. Lideranças rurais, ativistas ambientais, defensores de direitos humanos, indígenas... Conhecemos a história de Chico Mendes, Dorothy Stang, mas, como eles, centenas de pessoas morrem todos os anos e isso não chega aos discursos nacionais e internacionais."

Suelen fala da Amazônia com propriedade. Nasceu em Belém (PA) e trabalhou no Sesc Ver-O-Peso (antigo Centro Cultural Sesc Boulevard), onde conheceu a escritora Monique Malcher, autora do livro Flor de Gume (Pólen, 2020): "Suelen levava programações de feminismo ao Sesc, abriu portas para diversas mulheres, em uma época que esses debates ainda causavam certo espanto na cidade. Uma mulher corajosa pode transformar e oportunizar grandes mudanças", conta Monique.

E por que carece ter coragem para pautar tais debates?

Suelen responde: "Há uma carga da 'legitimidade' muito forte na área artística-cultural: 'quem é artista ou não? o que é bom ou não?'. E a referência do 'ser bom' muitas vezes vem do reconhecimento institucionalizado. Aí, funciona a lógica do meme: para conseguir o emprego você precisa de experiência, mas se ninguém dá o emprego, como você vai ter a experiência?"

Todo lugar é Centro

"Sempre fui tímida e meio introvertida" diz a pesquisadora que, talvez por isso, tenha preferido responder à entrevista por email. Uma pena, já que conversar com ela é sempre um acelerar de insights que incendeiam-se, elétricos, em contato com seus pensamentos; mescla de estudos intelectuais consistentes com a vivência pessoal prenhe de saberes agridoces.

"Nasci em Belém, mas logo minha mãe foi transferida para trabalhar em Tomé-Açu, que tem uma das maiores comunidades de japoneses no Brasil. As minhas lembranças de infância são cenas curtas de uma vida simples 'no interior', de passear na pracinha central em frente à igreja, de acompanhar a minha mãe nas reuniões da 'Seicho-no-Ie' e às vezes no trabalho. Recordo que teve uma época que havia uma cobra em casa, que meu pai arranjou porque a casa era velha e tinha muitos ratos e morcegos. Então, se fosse resumir minha experiência, minhas memórias se conectam com terra (literalmente, ruas de 'chão batido'), sincretismos, uma mãe fazendo de tudo para nos manter, silêncios e uma lentidão... Algo como um tempo que passa manso, mas que é também de certa forma pesado, sabe? Outra temporalidade."

O tom nostálgico, no relato sobre a pequena Tomé-Açu, dá outro sabor ao título do relatório de Suelen para sua bolsa na Alemanha: "Na Amazônia ou em Lingen, todo lugar é Centro - Reflexões sobre política e gestão cultural".

"Todo lugar é centro é uma provocação. Me incomoda o discurso de que 'São Paulo e Rio de Janeiro' são centros e o restante está na periferia. Cada vez que a gente aciona esse discurso é preciso ter cuidado para não operar dentro das mesmas categorias e práticas coloniais que a gente quer combater. Que categorias são essas? Aquelas inauguradas com a colonização europeia e que vão se atualizando: 'selvagem x civilizado'; 'europeu/normal x exótico'; 'natureza x cultura'; 'centro x periferia'. Que práticas implícitas vêm junto? Muito frequentemente a lógica do 'descobrimento' de novo, do salvacionismo, da condescendência daqueles que estão em posição de poder/privilégio (e se veem como centro) para com aqueles que estão na posição de serem nomeados como 'margem'."

Escutemos, Suelen, todo lugar é centro, pois. E da pequena Tomé-Açu, cidade de pouco mais de 60 mil habitantes, famosa pela produção de pimenta-do-reino e território original da etnia Tembé, ela voltou para a capital Belém, mais especificamente para o "bairro da Sacramenta (também conhecida como 'Sacra-bala', por conta do imaginário da violência em torno da região)", onde sua avó tinha uma casinha de madeira.

Entre a vida no interior e a faculdade de ciências sociais, houve a dança. "Graças ao pé torto e à postura ruim", a pesquisadora buscou a cura na escola da UFPA. Destacando-se nas aulas, foi chamada para participar do grupo mirim da Companhia de Ballet Jaime Amaral. Numa apresentação no CENTUR, teatro importante, o tema era "algo como 'Navio Negreiro'". A entrada do grupo, no palco, passava pela plateia e as jovens fingiam estar 'acorrentadas', sofrendo para se deslocar, aos olhos do público. "Lembro que chorei", conta Suelen, "uma boa parte da apresentação fiz chorando, num misto de nervoso e outra coisa que não soube à época nominar".

Revoada

Carimbó do Grupo Sereia do Mar - Suelen Silva/Acervo Pessoal - Suelen Silva/Acervo Pessoal
Carimbó do Grupo Sereia do Mar
Imagem: Suelen Silva/Acervo Pessoal

No final do mestrado, a pesquisadora foi selecionada para trabalhar no Sesc. Voaram os primeiros anos da vida como programadora cultural, anos que a fizeram ver que "o campo da gestão cultural, como outros, é atravessado pelo sexismo e racismos estruturais". Suelen, mulher negra na Amazônia, percebeu, então, que não queria usar a plataforma do Sesc apenas como palco para apresentações. "Se a gente fica sempre só na apresentação pela apresentação, vira, fácil, uma relação de consumo."

Passou a questionar a maratona de eventos realizados e a olhar para a gestão cultural como campo que possibilita o diálogo sobre realidades e desejos. "Algo que abra uma brecha no cotidiano pra sonhar e despertar para novas possibilidades de mundos". Desse inconformismo fértil nasceram, às margens da Baía do Guajará, mostras com mulheres atingidas por barragens na Amazônia e, dentro do projeto DESCOLONIZAR, falas de nomes como Almires Martins e Zélia Amador de Deus trazendo discussões sobre a questão indígena e negritude na Amazônia.

Diásporas: Amazônia - Alemanha

Suelen Silva foi bolsista no Programa da Chancelaria Alemã para Futuros Líderes - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Suelen Silva foi bolsista no Programa da Chancelaria Alemã para Futuros Líderes
Imagem: Acervo Pessoal
Em 2018, Suelen trocou uma metrópole efervescente de 1,5 milhão de habitantes por uma cidadezinha do interior com 57 mil almas. É que ela se mudara do Pará para Alemanha - mais precisamente para a bucólica Lingen.

A pesquisadora e produtora estava entre as 10 brasileiras ganhadoras da prestigiosa bolsa alemã para Futuros Líderes, da Fundação Humboldt. Sua ideia era pesquisar a política cultural alemã e sua densa rede de instituições artísticas fora dos grandes centros. A curiosidade pelos aparelhos culturais do interior germânico veio dos tempos em que trabalhou como produtora do artista paraense Éder Oliveira, na primeira exposição internacional dele em uma Kunstverein.

Obra de Eder Oliveira em Belém (PA) - Reprodução/Facebook de Eder Oliveira - Reprodução/Facebook de Eder Oliveira
Obra de Eder Oliveira em Belém (PA)
Imagem: Reprodução/Facebook de Eder Oliveira

"[Kunstverein] são associações de arte contemporânea localizadas em várias cidades alemãs espontaneamente organizadas pela sociedade civil. A ideia por trás das Kunstverein é sobretudo de 'educação para a arte' e de 'mediação artística', que não se paute pelo circuito comercial e, sim, pelos discursos estéticos, éticos e sociais que as produções artísticas oferecem."

Suelen acredita que investir em cultura em zonas rurais ou "periféricas" pode ajudar a frear os discursos populistas e nacionalistas?

"A arte convida a desautomatizar a vida, inventar outros tempos, estabelecer outras conexões cerebrais. Ela propõe perguntas que não tem uma resposta definitivamente certa ou errada, não tem resposta fácil. E não ter medo desse 'desconhecido' é importante. O que é o populismo, o nacionalismo? Não é um querer 'respostas' fáceis, querer um líder que nos diga o que fazer, sem que precisemos nos perguntar, só balançar a cabeça e concordar?"

Muitos dos redutos bolsonaristas mais fervorosos do Brasil se encontram em pequenas cidades do interior, como Nova Pádua (RS), onde o presidente de extrema-direita teve 93% dos votos válidos no segundo turno: "Para muita gente vivendo nas zonas rurais no Brasil a 'vida cultural' se concentra em consumir quase que exclusivamente narrativas proporcionadas pelos canais de TV e rádio. Ou ir à igreja. (...) A gente sabe que esse problema não é exclusividade das zonas rurais, mas ali, a possibilidade de acessar outras fontes, outras referências, outras narrativas tem obstáculos diferentes, né? A possibilidade de imaginar outros mundos e de lidar com o desconhecido, de desafiar o comportamento de manada, também".

Para Suelen, "decolonização" ou "antirracismo" não são apenas conversa para boy dormir. Um Brasil, e um mundo, que queiram realmente ser menos violentos e desiguais precisam ser liderados por "futuras líderes" como Suelen. Se seguirmos cegos às Suelens do mundo, seguiremos contando os corpos das Dorothys, dos Chico Mendes e dos pais de Suelen.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.