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Fred Di Giacomo

Eliane Potiguara e Taiguara foram nosso 'John e Yoko' indígena nos anos 70

Eliane Potiguara e Taiguara - Acervo Pessoal
Eliane Potiguara e Taiguara Imagem: Acervo Pessoal
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

24/09/2020 04h00

O calendário na provável parede de azulejos avisa: estamos em uma padaria no Rio de Janeiro, ano de 1978. São os últimos meses do AI-5, o ato institucional que marcou a fase mais pesada da ditadura militar brasileira, período em que a censura e o exílio reinaram pela "sonhada terra das palmeiras". A jovem indígena de 28 anos, cabelos lisos negros, volta da faculdade em direção ao bonde de Santa Teresa. Naquele momento um homem de cabelos encaracolados toma vinho e come biscoitos cream cracker na padaria local. Sem prestar atenção ao homem de 32 anos, a jovem Eliane Potiguara entra na padaria para comprar leite. O devorador de cream crackers é, na verdade, o célebre cantor Taiguara, que amarga dez longos anos sem lançar um disco. Taiguara repara em Eliane, deixa seu vinho de lado, e pergunta se podem conversar.

"Ele perguntou quem eu era, o que eu fazia. Eu disse que era professora, estava terminando a faculdade e que estava indo trabalhar em Angola, com um grupo de educadores, usando o método Paulo Freire. O Taiguara estava voltando da Tanzânia, tinha feito um tour pela África [ele ficou auto-exilado no continente]. Foi assim que a gente se conheceu."

Taiguara (autor de sucessos como Hoje, Universo no Teu Corpo e Que as Crianças Cantem Livres) foi o artista mais censurado pela ditadura brasileira. Segundo Potiguara, o cantor, nascido no Uruguai, mas naturalizado brasileiro, teria cem canções embargadas pelo regime militar - sua biografia fala em 48, mais dois discos completos Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara (1976) e Let the Children Hear the Music (1974).

"Em julho, ele parou um caminhão na porta da minha casa, de surpresa, e me perguntou:
_ Você quer morar comigo?
_ Quero!
E fomos morar juntos. Começamos a militância para o retorno dele aos palcos. Estudamos os dois primeiros volumes do Capital, do Karl Marx, e o A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, do [Friedrich] Engels. Foi muito bom porque me deu uma visão teórica do capitalismo, né? Mas em relação à ideologia dele, eu percebia que ele não trabalhava as questões de gênero, raça e etnia."

A revolução da literatura indígena no Brasil tem um nome: Eliane Potiguara.

Eliane Potiguara aos 27 anos, pouco antes de conhecer Taiguara - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Eliane Potiguara aos 27 anos, pouco antes de conhecer Taiguara
Imagem: Acervo Pessoal

"O tempo que eu trabalhei na comunidade indígena, como professora e tudo, eu sofri muita perseguição política, meu nome foi colocado em uma lista de pessoas marcadas para morrer. Então eu sofri perseguições, ameaças de morte, estupro, arma na cabeça, facão no pescoço", diz Eliane.

Mas ela está viva. Se formou, deu aulas, começou a publicar poemas no final dos anos 70, se casou com o cantor Taiguara, participou de reuniões da ONU e da mesma organização antirrascista que Nélson Mandela. Falava de feminismo e direitos indígenas nos anos 80. No entanto, só conseguiu publicar seu clássico Metade cara, metade máscara, em 2004.

"Agradeço ao Daniel Munduruku por ter me dado apoio e ter aberto espaço na Global Editora para lançar Metade cara, metade máscara, que é um livro totem, como diz Aílton Krenak"

Eliane nasceu em 1950 e começou a escrever desde pequena. Foi alfabetizada em casa. "Eu fui a primeira escritora indígena, e fui alfabetizada dentro de casa, confinada para que eu pudesse escrever as cartas para minha avó, para a Paraíba. Quando vinham as cartas de lá, elas choravam, se lamentavam, sofriam. Eu tinha 7, 8 anos, não entendia bem o sofrimento da minha família. Comecei a escrever aí."

As lágrimas das tia-avós de Eliane não eram à toa, a família não estava no Rio de Janeiro à passeio, não viera para banhar-se nas praias famosas de Ipanema ou ouvir a bossa nova no mundo todo.

Elza, a mãe de Eliane Potiguara - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Elza, a mãe de Eliane Potiguara
Imagem: Acervo Pessoal

"Quando minha família saiu da área Potiguara foi por ação dos colonizadores ingleses que estavam ocupando as áreas indígenas da Paraíba com plantações de algodão. E os indígenas que resistiam eram 'desaparecidos'. Amarravam um saco na cabeça, uma pedra nos pés e jogavam no mar. Foi assim que meu bisavô desapareceu, em 1910 mais ou menos, e viemos para o Rio de Janeiro morar, literalmente, na rua. Com a ajuda de alguns judeus pobres, carvoeiros e bananeiros, fugidos da Segunda Guerra Mundial, minha avó conseguiu começou a plantar e vender banana."

Balada para Potiguara e Taiguara

Taiguara e Potiguara - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Taiguara e Potiguara
Imagem: Acervo Pessoal

Um ano depois de se envolver com o cantor Taiguara, em 1978, Eliane Potiguara publicou seu primeiro poema Ato de amor entre povos, um "poema-pôster", onde Eliane, contemporânea dos poetas da geração mimeógrafo, aparecia junto ao ator do filme Avaeté: sementes da vingança Macsuara Kadiwéu. Na sequência veio o clássico poema A oração para libertação dos povos indígenas. "A literatura que foi criada por mim foi uma literatura de resistência, um grito de guerra, de luta, naquela época, no final da década de 70, começo dos 80."

Entre as décadas de 60 e 70, Taiguara foi um cantor popular no Brasil, mas o problemas com a censura passaram a minar sua carreira. A biografia Os Outubros de Taiguara (Kuarup) da jornalista Janes Rocha conta que o músico se auto-exilou duas vezes, uma no meio de 1973 , por um curto período na Inglaterra, e a segunda na Tanzânia, onde descobriu o pan-africanismo e viveu por vários anos. Essa ausência e a censura completa de seus dois álbuns seguintes o afastou do público brasileiro.

De volta ao Brasil, Taiguara estava mais engajado do que nunca. Foi a época em que conheceu Eliane na padaria perto do Bonde de Santa Teresa e a dupla passou a se influenciar.

"O Taiguara visitou comigo, em 1979, meu povo Potiguara, e se inspirou nos potiguaras para escrever aquele disco que ele fez em 1983 Canções de amor e liberdade. Neste disco ele retomou o lado indígena dele. O sobrenome dele é Chalar, que é [da etnia indígena] Charrua. Neste disco, Taiguara gravou três músicas, uma para cada um de nossos filhos".

Conferência Mundial dos Povos Indígenas sobre Território, Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1992 - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Conferência Mundial dos Povos Indígenas sobre Território, Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1992
Imagem: Acervo Pessoal

O casal de artistas indígenas engajados também passou uma temporada de pesquisas culturais e ancestrais no Rio Grande do Sul, onda Eliane pode conhecer os povos guaranis locais. "Depois que eu visitei as cidades onde ficam os guaranis, vi a situação dos povos indígenas, como eles viviam na miséria, na pobreza, sem nenhuma ajuda do governo ou da FUNAI. E isso me inspirou a visitar os povos indígenas em outros estados, como o Amazonas, onde conheci a primeira associação de mulheres empregadas domésticas indígenas. Foi quando entrei no movimento indígena".

As leituras marxistas incentivadas por Taiguara foram importantes na formação política de Potiguara, que viajou o mundo e chegou a participar, por seis anos, dos trabalhos da "Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas", na ONU. As preocupações com a luta das mulheres e com a causa indígena de Potiguara também abriram horizontes na obra de Taiguara, que já havia despertado para a questão dos povos nativos ao ler o livro Quarup, influência forte em seu disco proibido Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara (1976). Essas influências nativas marcam profundamente Canções de amor e liberdade (1983). É impossível não pensar em Eliane ao ouvir a versão de Taiguara para a guarânia Índia (A rebelde mulher/Pra quem a selva é um lar/Também sabe querer/Também saber sonhar).

Pai biológico de dois filhos de Eliane (Samora Potiguara e Tajira Kilima) e de criação da cantora Moína Lima (homenageada na canção "Moína me sorriu"), Taiguara ficou casado com Eliane Potiguara até 1985. Lançaria mais um disco (Brasil Afri), em 1994, falecendo dois anos depois de câncer na bexiga. Eliane publicaria, em 2004, o fundamental livro Metade cara, metade máscara (Global), híbrido que reúne seus poemas, artigos de não-ficção e relatos autobiográficos.

"Eu fui uma grande influência para o Taiguara na questão de gênero e da identidade indígena. Sempre o incentivei a buscar as raízes indígenas dele. O Capital é muito bonito, mas é muito focado na Europa. Não citava homossexualidade, quilombolas, diversidade étnica, raça, gênero, mas eu consegui abrir a cabeça do Taiguara a esses assuntos. Aprendi com ele e ele aprendeu comigo. Queria lembrar que agora, 9 de outubro, vai fazer 75 anos de Taiguara. Seria importante que as pessoas soubessem que ele teve mais de 100 músicas censurada em toda a vida dele."