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Aos 100, "Pelo Telefone" vira "Pelo Zap-Zap" com Leandro Lehart e Molejo

O músico Leandro Lehart, que gravou nova versão para o clássico "Pelo Telefone", de Donga (à direita) - Divulgação, Reprodução/Montagem UOL
O músico Leandro Lehart, que gravou nova versão para o clássico "Pelo Telefone", de Donga (à direita) Imagem: Divulgação, Reprodução/Montagem UOL

Do UOL, em São Paulo

17/02/2017 12h00

Cem anos depois de ser a música mais cantada no Carnaval de 1917, "Pelo Telefone", considerada por historiadores como o marco zero do samba, ganha nova releitura pelas mãos de Leandro Lehart, fundador do Art Popular, e percussão do Molejo, um dos mais populares grupos de pagode de geração 90. 

A gravação - clique no player acima ou neste link para ouvir - foi realizada em dezembro passado, no estúdio de Lehart, que aceitou o convite do UOL para atualizar a canção de Donga. Os versos escritos pelos jornalistas Babu Baía e Diego Assis trocam o "telephone", novidade na época, quando ainda se usava o ph no lugar do f, pela ferramenta de comunicação de hoje, o aparelho celular com WhatsApp (ou Zap-Zap, como é mais conhecido o aplicativo, na boca do povo).

"Acho que o samba precisa sair dessa coisa do discurso tradicional, de resistência, que os mais antigos pregam, e voltar a ser interessante para os mais jovens. A gente tem que usar novas tecnologias, entender que as pessoas hoje têm outro nível de informação, que as músicas estão mais rápidas, que o discurso é diferente e que o papo é outro", sugere Lehart, que toca violão, canta e também contribuiu com versos na releitura.

Composto e registrado como "samba carnavalesco" na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, por Donga e Mauro de Almeida, em novembro de 1916, "Pelo Telefone" foi não só o primeiro samba a fazer sucesso comercial mas também o primeiro a causar polêmica. Na sua origem, estaria uma provocação à polícia da capital que, naquele tempo, reprimia o samba e outras manifestações da cultura afrobrasileira, ao mesmo tempo que fazia vista grossa para a jogatina que rolava solta nos cassinos da alta sociedade.

Enquanto o povo cantava nas ruas os versos "O chefe da polícia / Pelo telefone / Manda me avisar / Que na Carioca / Tem uma roleta / Para se jogar", em sua primeira gravação oficial, interpretada pelo cantor Baiano, a canção ganhava uma versão alternativa - e disfarçada - que dizia "O chefe da folia / Pelo telefone / Manda me avisar / Que com alegria / Não se questione / Para se brincar". Depois de consagrado, no entanto, o próprio Donga costumava apresentar o samba com sua letra original e sem censura.

Outra polêmica que acompanha a história de "Pelo Telefone" diz respeito à sua autoria e mesmo à sua primazia como o primeiro de todos os sambas. Em entrevistas, Donga mesmo chegou a reconhecer que a música surgiu coletivamente em noitadas na casa de Tia Ciata, frequentada por bambas da época como Sinhô, Pixinguinha e João da Baiana. Alguns deles chegaram a escrever cartas em jornais negando que Donga fosse o autor do samba.

"Existiram outras músicas muito importantes na época, mas a gente precisa entender 'Pelo Telefone' como um divisor de águas, como um momento importante da música e da cultura brasileira", defende Lehart. "A original tem uma inocência, um discurso bastante da época, e foi uma grande descoberta como o começo de um samba que sofreu várias metamorfoses durante décadas. 'Pelo Telefone' é um símbolo dos mais importantes que a gente tem, um tesouro muito importante da cultura brasileira, que deveria ser, inclusive, objeto de pesquisa no ensino fundamental."

Com essa homenagem, Lehart espera não só apresentar a música às novíssimas gerações como despertar a paixão pelo samba, hoje em segundo plano se comparado a outros ritmos nacionais como o sertanejo e o funk.

"Sinceramente, acho que o Brasil não conhece bem essa faixa. Nesses últimos cem anos, falta muito a entender sobre o que o samba significa, principalmente agora que os jovens estão ouvindo outro tipo de música. Isso me assusta um pouco, porque passamos uma fase espetacular nos anos 90 e hoje os nossos filhos não estão se interessando mais pelo samba. O Brasil ainda vai descobrir que existem novos jeitos de fazer samba, sem perder sua essência, para que nossos filhos, netos e bisnetos ainda possam entender a brasilidade que a gente tem."

Veja a seguir, a letra completa da paródia/homenagem a "Pelo Telefone":


"Pelo Zap-Zap"

(Babu Baía, Diego Assis, Leandro Lehart sobre Donga e Mauro de Almeida)

O chefe da folia

Pelo Zap-Zap

Mandou avisar

Que com alegria

Na roda de samba

Vai comemorar

 

Ai, ai, ai

Deixa as mágoas para trás, ó rapaz

Ai, ai, ai

Que este samba chega aos cem carnavais
 


Tomara que tu aprendas

A nunca mais dizer isso

Que meu samba é feitiço

Vai causar um rebuliço

Olha a rodinha, Sinhô Sinhô

Que se formou, Sinhô Sinhô

Ao som de Donga, Sinhô Sinhô

E do nosso amor, Sinhô Sinhô

Porque este samba, Sinhô, Sinhô

Que vou recordar, Sinhô, Sinhô

Entrou pra história, Sinhô, Sinhô

Nos fez sambar, Sinhô, Sinhô



O Peru me disse

Se o Morcego visse

Não fazer tolice

Que eu então saísse

Dessa esquisitice

Do disse-não-disse

 

Ai, ai, ai

Deixa as mágoas para trás, ó rapaz

Ai, ai, ai

Que este samba chega aos cem carnavais