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Saúde

Sintomas, prevenção e tratamentos para uma vida melhor


Ele convive com HIV há 35 anos: 'Não preciso adiantar os ponteiros da vida'

Luís Baron descobriu que tinha HIV em 1987 - Claudio Pepper
Luís Baron descobriu que tinha HIV em 1987 Imagem: Claudio Pepper

Thaís Lyra

Colaboração para o VivaBem

27/07/2022 04h00

"Me incomoda muito mais os sinais da idade avançando do que o fato de ser soropositivo", diz, rindo, Luís Baron, 62, que descobriu que tinha HIV em 1987, após o marido ficar doente e morrer de Aids no mesmo ano. Mas nem sempre o assunto foi tratado com leveza e naturalidade.

"Quando testei positivo, não quis contar para o meu companheiro porque ele já estava debilitado e se sentiria culpado. Mas foi um desastre: minha vida parou por uns quatro, cinco anos. Saí do trabalho, viajei, tentei entender o que era a doença e viajei para fora do país, fiz algumas coisas que não sei se foram boas, mas cheguei até aqui. A única coisa que não admitia era morrer disso."

Não foi um percurso fácil. Com a doença estigmatizada e sem esperanças de cura ou mesmo prevenção, Baron conta que vivia "com a espada na cabeça esperando ela cair para morrer".

A notícia impactou a família, mas ele conta que fez todo mundo aprender a conviver com o HIV, assim como ele. "Depois do baque, aquela era a minha realidade e tinha que ir em frente."

Em 1996, os médicos que o acompanhavam falaram de um coquetel de 22 comprimidos que estava sendo prescrito para quem tinha HIV com ótimos resultados. Em um primeiro momento, não quis aderir ao tratamento.

Coquetel mudou a trajetória

Remédios contra o HIV, medicamentos HIV, Aids - iStock - iStock
Imagem: iStock

Só um ano depois, e com os exames "meio complicados", foi aconselhado pelos especialistas a iniciar a terapia de antirretrovirais. "De lá para cá, estou tomando e cheguei até aqui."

Segundo ele, sua saúde atualmente é a equivalente a de um homem de 62 anos. "Sou saudável dentro das minhas possibilidades, tenho uma vida normal. Minha carga viral é indetectável e só agora que os remédios para o HIV tem causado alguns probleminhas. São apenas detalhes técnicos depois de tantos anos tomando a medicação."

A vida de Baron, comerciante de artes visuais, seguiu com planos e projetos. O mais importante, sem dúvida, foi realizar o sonho da paternidade. A chegada do filho, atualmente com 17 anos, mudou sua perspectiva de tudo.

População precisa de um olhar cuidadoso

Em 2017, Baron começou a pesquisar sobre a velhice LGBTQIA+ e descobriu que não havia visibilidade para essa população e, em 2019, conheceu a ONG EternamenteSOU e virou vice-presidente.

Atualmente, preside a entidade cujo foco são pessoas acima dos 50 anos e oferece atendimento psicológico, psicossocial, jurídico (aposentadoria, nome social) e até mesmo socialização.

Com a chegada da pandemia de covid-19 e reuniões presenciais proibidas, o jeito foi investir em encontros on-line. Foi um sucesso e mais de 3.500 pessoas participaram. Mas há muito o que fazer, garante o presidente.

Em outubro, acontecerá o 5º Encontro da Velhice LGBTQIA+, com a expectativa da realização do 1º fórum mundial com o mesmo tema.

"Estamos avançando em vários assuntos. Porém, o tema HIV nesta comunidade é muito complexo porque envolve conceitos ultrapassados como a promiscuidade. Sinto falta de estudos e políticas públicas voltadas ao assunto de forma específica", comenta Baron.

Aliás, problemas de saúde simples ainda são negligenciados neste público por vergonha e desconhecimento. "Vejo um universo de questões. No caso dos homens mais velhos, temos uma vulnerabilidade afetiva muito importante. Em razão de medos, muitos acabam ignorando cuidados simples, como uso do preservativo, PrEP, PEP, e correm riscos da contaminação do HIV e de outras ISTs."

População 60+ tem queda de casos

Teste de HIV, Aids, epidemia - iStock - iStock
Imagem: iStock

Boletim Epidemiológico de HIV/Aids 2021 mostra uma queda de casos na população com mais de 60 anos. Em 2010, entre os homens, a faixa etária representava 10,8% dos infectados e, em 2020, 9,4%.

Já entre as mulheres, a porcentagem era de 5,9% e, no último levantamento, ficou em 4,5% No Brasil, de 1980 até junho de 2021, foram registrados 688.348 (65,8%) casos de Aids em homens e 356.885 (34,2%) em mulheres.

Embora o panorama seja positivo para essa população, com evolução importante de drogas que mudaram a história da doença e, principalmente, das pessoas, ainda há algumas barreiras a serem quebradas, acredita Jamal Suleiman, infectologista do Hospital Emílio Ribas e que desde 1984 acompanha, de perto, todas as mudanças de comportamento da epidemia do HIV/Aids.

"O primeiro ponto é quando se fala que o HIV é um juízo moral. Quando você fala que tem pressão alta, por exemplo, ninguém diz que está assim porque comeu sal em excesso. No caso do HIV, tem sempre um julgamento e precisamos acabar com isso. Não existe doença benigna. Doença é doença", lembra o médico.

Tratamento igual para todos

O infectologista explica que, de forma geral, o tratamento de uma pessoa vivendo com HIV com mais de 60, é igual aos demais. Podem ocorrer diferenças quando temos o diagnóstico de uma infecção recente ou estamos falando de uma infecção antiga. Isso determinará a forma de tratamento e como está o estado do paciente.

Existe outro fator: as comorbidades que costumam existir nas pessoas de mais idade, como diabetes e dislipidemias. "Isso adiciona uma complexidade e é preciso escolher um determinado produto (medicamento) que tenha um menor impacto. Sempre brinco que não existe almoço grátis e no caso do HIV não é diferente. Uma pessoa pode tomar aspirina e ter sangramento gástrico, então, os cuidados são os mesmos."

O que não pode mudar é a necessidade de tratar. No entanto, muitos pacientes ainda têm dificuldade de aderir ao tratamento.

"Depende do acompanhamento e até da estrutura familiar. Há muitos pacientes que escondem e eu sempre aconselho a ter alguém para dividir esses momentos. Costumo dizer para os pacientes que o tratamento é para a vida toda e não para o resto da vida. Não há resto na vida", afirma Suleiman.

Informação não pode faltar

Na opinião de Luís Baron, é preciso disseminar conhecimento e barrar os preconceitos. Como consultor da ONG EternamenteSOU, conduz palestras em empresas de todo o país.

"Muitos idosos gays são egressos da ditadura, passaram e ainda passam pelo preconceito da orientação sexual. Precisamos acabar com a intolerância e a invisibilidade sofrida por esse público", defende o ativista, um dos autores do livro "Brilho da Velhice LGBT+: Vivências e narrativas de pessoas LGBT 50+", ao lado de Carlos Eduardo Henning e Sandra Regina Mota Ortiz.

Outra obra que ele indica é "Introdução às Velhices LGBTI+", feita pela EternamenteSou em parceria com a SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia).

"Estamos em 2022 e há muito tabu. Sempre recebo histórias nas minhas redes sociais e, quando conto minha trajetória, alguém me puxa de canto e fala baixinho que é soropositivo também. A decisão de contar ou não é individual, só que não é o vírus que te define. O HIV me preparou para morrer, embora eu saiba que ele não é sinônimo de morte. O vírus me ensinou que não preciso adiantar os ponteiros da minha vida em função de algo que acontecerá não sei quando. É um dia de cada vez e, se possível, aproveite muito bem o seu dia", finaliza Baron.