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Aids avança entre negros na década e muda perfil racial da doença no país

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Imagem: iStock

Carlos Madeiro

Colaboração para VivaBem, em Maceió

08/12/2021 04h00

Em 2020, de cada dez casos de Aids diagnosticados no país, seis atingiram pessoas negras. Há 10 anos, porém, a doença tinha outro perfil, e eram os brancos os mais afetados pela doença causada pelo HIV.

Em uma década, o perfil racial da doença mudou e, tanto casos como mortes, passaram a afetar mais pretos e pardos (que compõem os negros, na definição oficial do IBGE).

Segundo o Ministério da Saúde, entre 2010 e 2020 houve uma queda de 9,8 pontos percentuais na proporção de casos entre pessoas brancas. No mesmo período, houve aumento de 12,9 pontos percentuais na proporção de casos de Aids entre as pessoas negras.

Casos de Aids por etnia no país:

Casos de Aids por etnia - Boletim do Ministério da Saúde  - Boletim do Ministério da Saúde
Imagem: Boletim do Ministério da Saúde

"A população negra sofre mais barreiras pessoais e barreiras institucionais na procura pelo serviço ou na busca de cuidado, como os insumos relacionados ao acesso à informação e prevenção de HIV/Aids e outras infecções sexualmente transmissíveis", afirma Emanuelle Góes, doutora em saúde pública e pesquisadora de racismo na saúde do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA (Universidade Federal da Bahia).

Estigma e discriminação também dificultam a procura pelo serviço. Isso pode retardar a ida das pessoas, em particular a população negra, que já acumula experiências individuais e coletivas do racismo institucional nos serviços de saúde. Emanuelle Góes

Mortes avançam ainda mais

Em termos de óbitos, o percentual é ainda maior. Em 2020, 61,9% das mortes registradas por HIV/Aids no país foram entre pessoas negras (47% em pardos e 14,9% em pretos). A proporção é ainda maior de óbitos entre mulheres negras, que atingiu 62,9% do total.

"Realizando uma comparação entre os anos de 2010 e 2020, verificou-se queda de 10,6 pontos percentuais na proporção de óbitos de pessoas brancas e crescimento de 10,4 pontos percentuais na proporção de óbitos de pessoas negras", diz boletim do Ministério da Saúde publicado em 1° de dezembro, Dia Mundial de Luta Contra a Aids.

    Bruno Ishigami, infectologista do Recife, atua na AHF (Aids Healthcare Foundation) no Brasil e explica que o avanço do HIV entre negros é um fenômeno já esperado para quem percebe o comportamento da Aids e o avanço pelas classes sociais mais baixas.

    "Era esperado que alguns grupos fossem mais acometidos que outros. E existem grupos que são mais vulneráveis para contrair o HIV", diz, citando grupos que têm, em regra, maiores percentuais de negros.

    A gente vai ter uma parcela bem marginalizada de profissionais do sexo, de privados de liberdade, de usuários de droga. Esse grupo em si já vai concentrar uma prevalência maior de HIV. Bruno Ishigami

    Para Ishigami, além da prevalência maior, a mortalidade se torna maior também nesses grupos porque eles têm o HIV diagnosticado em uma fase mais avançada. "Quanto mais marginalizado, maior o risco de contrair o vírus e de receber o diagnóstico tardiamente. E aí a gente já vai ter as complicações da fase de Aids."

    O grande gargalo, completa, está na dificuldade de acesso dessas populações ao sistema de saúde: "Certos grupos têm dificuldade de acessar o sistema, como redução na oportunidade de conseguir fazer teste rápido", diz.

    Por exemplo: uma pessoa em situação de rua, em alguns locais ela vai ter dificuldade de se testar porque não tem comprovante de residência. É essa dificuldade de acesso que vai dificultar o diagnóstico no momento adequado e uma conversa sobre prevenção e profilaxia. Bruno Ishigami

    Amazonas lidera

    O boletim do Ministério da Saúde revela que o mapa brasileiro do HIV/Aids é bem heterogêneo, com estados tendo taxas de detecção até quatro vezes maiores do que outros.

    Em 2020, Manaus e Amazonas foram a capital e o estado que tiveram as maiores taxas de detecção do HIV do país.

    Taxa de detecção de Aids por estado (a cada 100 mil habitantes):

    Detecção por estado - Boletim do Ministério da Saúde - Boletim do Ministério da Saúde
    Imagem: Boletim do Ministério da Saúde

    Noaldo Lucena, infectologista da FMT (Fundação de Medicina Tropical Heitor Vieira Dourado), aponta que vários motivos podem ajudar a explicar porque o Amazonas aparece na ponta.

    Ele lembra que, no estado, metade da população vive na capital, Manaus, onde há mais serviços de saúde. "Entretanto, a outra metade vive distante. Em linha reta, temos distâncias aqui de 1.100 km. São pessoas que estão mais afastadas e têm mais vulnerabilidade, assim como falta acesso à camisinha e à informação. Além disso, tem a fragilidade das coordenações municipais", diz.

    Para Noaldo, essa fragilidade fez com que o processo de transmissão do HIV se interiorizasse com força. "Na capital há maior veiculação de informação e mais testagem —principalmente com o teste rápido popularizado. Quando pegamos um paciente do interior, muita vezes ele vem com diagnóstico tardio e com estágio da doença mais avançado", explica.

    Temos vários preconceitos quando falamos de sexualidade: eles são culturais, religiosos e morais. Precisamos repensar conceitos. Aids ainda é uma doença que tem uma mortalidade importante, mas tem tratamento efetivo —só que precisa de assiduidade no tratamento. Noaldo Lucena

    Outros dados

    Em 2020, a pandemia impactou o sistema de saúde de todo o mundo e, claro, não poderia ser diferente no Brasil, isso ajuda a explicar por que os diagnósticos de Aids caíram no ano passado.

    Casos de Aids no Brasil por ano:

    • 2016 - 39.951
    • 2017 - 38.700
    • 2018 - 38.521
    • 2019 - 37.731
    • 2020 - 29.917

    Casos de detecção de HIV no Brasil por ano:

    • 2016 - 41.934
    • 201 7 - 54.431
    • 2018 - 45.691
    • 2019 - 43.312
    • 2020 - 32.701

    Importante explicar que Aids e HIV não são a mesma coisa: HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) é o patógeno, enquanto Aids (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) é a doença causada pelo vírus, que ataca células específicas do sistema imunológico.

    A taxa de detecção de Aids vem caindo no Brasil desde o ano de 2012. "No ano de 2020, observa-se a maior redução anual da taxa, que chegou a 14,1 casos por 100 mil habitantes, o que está relacionado em parte aos efeitos da subnotificação de casos causada pela sobrecarga dos serviços de saúde durante a pandemia da covid-19", diz boletim do ministério.

    Com os avanços da medicina e do tratamento da doença, o Brasil segue a redução da mortalidade da doença. No período de 2010 a 2020, houve queda de 29,9% no coeficiente de mortalidade: passou de 5,7 para 4 óbitos por 100 mil habitantes.

    Outro dado interessante é que a proporção de homens infectados é cada vez maior.

    "Do total de óbitos por Aids registrados no Brasil no período entre 1980 e 2020, 70,3% ocorreram entre homens (253.286) e 29,7% entre mulheres (106.902)", aponta.

    Proporção de casos de Aids entre homem e mulheres:

    Razão M/F de Aids - Boletim do Ministério da Saúde - Boletim do Ministério da Saúde
    Imagem: Boletim do Ministério da Saúde

    Já a razão de gêneros do coeficiente de mortalidade observada em 2020 foi de 21 óbitos entre homens para dez óbitos entre mulheres. "Essa taxa vem apresentando comportamento linear desde 2003", diz o documento.

    A boa notícia é que o número anual de casos de Aids vem diminuindo desde 2013 (quando foram 43.493 diagnosticados).

      De 1980 a junho de 2021, foram identificados 1.045.355 casos de Aids no Brasil. O país tem registrado, anualmente, uma média de 36,8 mil novos casos de Aids nos últimos cinco anos.

      Para Noaldo Lucena, apesar dos bons avanços, o país precisa urgentemente voltar a falar publicamente sobre HIV para evitar que os casos voltem a crescer nos próximos anos.

      "O pecado começa desde o nível central. Precisamos falar de HIV, como falávamos antes, noticiar mais. Hoje só se fala, quase que exclusivamente, no dia 1° de dezembro, e depois não se comenta. Estamos falando de uma doença com mortalidade importante, não podemos relaxar", finaliza.

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