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Alimentos vasodilatadores podem diminuir a pressão arterial?

Priscila Barbosa
Imagem: Priscila Barbosa

Janaína Silva

Colaboração para VivaBem

19/01/2022 04h00

Muitos alimentos são considerados vasodilatadores, como beterraba, alho, cebola, espinafre, pimenta e chocolate amargo, e teriam capacidade de diminuir a pressão arterial, mas o fato é que o padrão dietético global interfere muito mais do que cada um deles individualmente.

Eles são ricos em micronutrientes e/ou substâncias que impactam na redução da pressão arterial por aumento da vasodilatação e outros mecanismos, sendo alguns deles ainda desconhecidos.

A cebola, por exemplo, é farta em uma substância chamada quercetina, flavonoide com propriedades farmacológicas, entre elas, a redução da pressão arterial. A beterraba, o espinafre e outros vegetais são ricos em potássio —nutriente que ajuda a eliminar o sódio, que é o responsável pelo aumento da pressão.

O alho e o chocolate amargo (com pelo menos 70% de cacau) aumentam a síntese de óxido nítrico, potente vasodilatador dos vasos. O iogurte, por exemplo, é rico em cálcio, nutriente importante para a regulação do funcionamento dos vasos.

O consumo isolado não traz benefício algum. A verdade é que não existe um único alimento com o poder de prevenir as doenças crônicas, como a hipertensão e nem tampouco capaz de anular os efeitos prejudiciais do consumo excessivo de calorias, gordura saturada, sódio e açúcar, por exemplo.

"É necessário que o alimento faça parte de uma dieta saudável para que o seu efeito seja potencializado", afirma Marcia Gowdak, nutricionista e diretora científica do Departamento de Nutrição da Socesp (Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo).

Sódio x potássio

"A ingesta de potássio é benéfica, principalmente aquele oriundo de alimentos ricos em potássio, como feijões, ervilha, vegetais de cor verde-escura, banana, melão, cenoura, beterraba, frutas secas, tomate, batata-inglesa, laranja, por exemplo. Enquanto que o excesso de sal (cloreto de sódio) é prejudicial", explica Rui Póvoa, médico cardiologista do HSPE (Hospital do Servidor Público Estadual), em São Paulo.

Um estudo recente, publicado no Congresso Americano de Cardiologia, no qual houve a substituição de 25% do cloreto de sódio pelo cloreto de potássio, demonstrou que a troca gerou não a redução da pressão, mas a prevenção da ocorrência de eventos como o AVC (acidente vascular cerebral).

Dietas Dash e mediterrânea

A dieta saudável colabora na redução da pressão arterial. As primeiras evidências vieram de estudos em populações específicas, como o povo do Mediterrâneo. A dieta Dash (Dietary Approaches to Stop Hypertension) que consiste no aumento da ingestão de frutas, hortaliças, laticínios com baixo teor de gordura, cereais integrais, com redução de gorduras, carnes vermelhas, açúcar e álcool, reduziu a pressão de forma expressiva. O efeito deveu-se ao padrão da dieta mais do que a ação dos componentes individuais.

"Os alimentos que compõem essa dieta são ricos em potássio, cálcio, magnésio, fibras, apresentam baixo teor de gordura saturada e colesterol, e cada um desses nutrientes exerce uma função na pressão arterial", ensina Mayara Ferreira Bernardo, nutricionista preceptora do HC-UFPE (Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco).

A dieta mediterrânea, de forma similar à Dash, é rica em frutas, hortaliças, cereais integrais, pobre em carnes vermelhas, com quantidades generosas de azeite de oliva que é rico em ácidos graxos monoinsaturados e, também, apresenta como resultado reduções significantes da pressão arterial.

Tratar a hipertensão é uma poupança para o futuro

A hipertensão é uma doença silenciosa, assintomática e que leva a consequências muito graves ao organismo. Sua origem é multifatorial —não há uma causa bem definida—, além disso, há interação entre fatores genéticos e ambientais. Por isso, é importante medir a pressão anualmente para a obtenção de um diagnóstico precoce.

O controle da pressão arterial está diretamente relacionado à diminuição do risco de doenças muito graves, as cardio e cerebrovasculares, e que são a causa principal de morte e de comprometimento de capacidade funcional em toda a população adulta no mundo inteiro. É fator de risco também para o infarto do miocárdio, insuficiência cardíaca, doença renal, doença vascular periférica e todas as complicações da aterosclerose.

O hipertenso que controla a pressão reduz sensivelmente todos estes eventos nefastos. Tratar a pressão alta é uma "poupança" para o futuro", fala Póvoa.

"Um ponto que vale destacar é que o controle não se resume mais ao do consultório. Um percentual significativo de pessoas apresenta a pressão no consultório diferente da de casa; é a chamada hipertensão do avental branco. Outro percentual, também significativo, tem a hipertensão mascarada que é o oposto, ou seja, a pessoa está com a pressão bem controlada no consultório, porém alta em casa. Dessa forma, é preciso garantir que o controle da pessoa esteja bem feito", esclarece Roberto Dischinger Miranda, cardiologista e geriatra, diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia).

Mudanças de hábitos

De forma geral é a mudança contínua de hábitos que leva ao benefício do controle pressórico, assim como da prevenção dos eventos nefastos associados à hipertensão. Os hábitos saudáveis incluem a mudança do estilo de vida. É muito importante a redução do sal.

Recomenda-se que a ingestão de sódio seja limitada a aproximadamente 2 g/dia, a inclusão do cloreto de potássio na dieta, um programa alimentar saudável e a redução das bebidas alcoólicas.

O exercício físico, independente da modalidade, é essencial para reduzir a pressão arterial, além de uma dieta hipocalórica ajuda na redução do sobrepeso e obesidade e, consequentemente, da pressão arterial.

O tabagismo e as comidas gordurosas e processadas necessitam ser revistos e eliminados, assim como a busca de uma vida sem estresse, afetiva e espiritualizada. O sono também merece atenção.

Os efeitos não são imediatos

A percepção clínica leva algum tempo dependendo da intensidade da mudança do estilo de vida, que pode se dar em semanas ou meses, aliado a medidas adjuvantes, como o exercício físico. O sedentarismo necessita ser eliminado.

"Cinco mil passos e, melhor, dez mil diários somados ao controle do consumo do álcool e fumo são ideais não apenas para o controle da pressão arterial, mas contribui para outros benefícios à saúde", sugere Miranda.

A queda de pressão

Existem indivíduos que possuem níveis pressóricos menores do que a média da população. São pessoas candidatas a viverem muito mais tempo. Entretanto, em algumas situações adversas que predispõem a perda de líquidos e a desidratação, como em diarreias, excesso de calor, entre outras situações, é provável que ocorra a redução da pressão arterial.

A oferta de líquidos isotônicos ajuda a restabelecer as condições, assim como azeitona e outros alimentos ricos em sódio e a ingestão de líquidos ajudam a pressão se elevar.

Porém, o mais recomendado é deitar a pessoa e elevar as pernas. Isso melhora o retorno de sangue para o coração e a pressão rapidamente se reequilibra.

Estar sempre muito bem hidratada previne a reincidência. Porém, se houver a repetição dessas situações, é necessário procurar o médico para rever as medicações.

No hipertenso em tratamento com quedas pressóricas o problema é outro, como o possível excesso de fármacos anti-hipertensivos ou hipotensão postural.

Fontes: Marcia Gowdak, nutricionista, doutora em ciências na área de cardiologia pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e diretora científica do Departamento de Nutrição da Socesp (Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo); Mayara Ferreira Bernardo, nutricionista preceptora do HC-UFPE (Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco) e especialista em nutrição em nefrologia pela Faculdade Unyleya; Roberto Dischinger Miranda, cardiologista e geriatra pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e diretor científico do Departamento de Hipertensão Arterial da SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia); e Rui Póvoa, cardiologista do HSPE (Hospital do Servidor Público Estadual), em São Paulo.