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É verdade que quem já fez cesárea não pode mais ter parto normal?

Priscila Barbosa
Imagem: Priscila Barbosa

Janaína Silva

Colaboração para VivaBem

22/06/2022 04h00

Muitas mulheres acreditam que pelo fato de o primeiro filho ter nascido por cesárea —procedimento cirúrgico em que o feto é retirado por meio de um corte na região abdominal da mãe—, os próximos, necessariamente, também nasceriam pela mesma via. Mas isso não é verdade.

"Durante algum tempo, pressupôs-se que quem tivesse uma cicatriz uterina devido a um parto anterior não pudesse ter um normal na gestação seguinte, mas, hoje em dia, sabe-se que é possível e desejável", relata Roxana Knobel, obstetra, professora no curso de medicina e na residência médica de ginecologia e obstetrícia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Existe a preocupação com a ruptura uterina, que é uma condição grave e rara. Se uma mulher —ou homem trans com útero— entrar em trabalho de parto e já tiver passado por uma cesariana, é preciso verificar o intervalo entre as gestações —não pode ser um período curto—, o bem-estar fetal, o tamanho do bebê, a posição em que ele se encontra e se a duração da parição não está muito prolongada e difícil.

"Em alguns lugares, são feitos até quando já foram realizadas duas ou mais cesarianas anteriores, porém o risco de ruptura uterina é muito grande", afirma Ricardo Porto Tedesco, ginecologista, professor titular de obstetrícia da FMJ (Faculdade de Medicina de Jundiaí) e membro da Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Abortamento, Parto e Puerpério da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia).

Katia Kosorus e Ricardo Andrade, médicos coordenadores da Maternidade Hospital Estadual Vila Alpina, na capital paulista, enfatizam que o parto é o final de um processo —e não o início—, e ele precisa começar a ser pensado, avaliado e discutido entre profissionais de saúde e gestante durante a gestação.

"O pré-natal é o caminho que precisa ser percorrido de forma correta, na periodicidade recomendada e com a realização dos exames e rotinas solicitados para reduzir riscos e proporcionar uma experiência positiva para gestantes e bebês."

Normal x cesariana

O parto normal —quando o nascimento se dá pelo canal vaginal—, na maioria das vezes, é a melhor opção tanto para a mãe quanto para o bebê.

"É um evento natural e fisiológico, mas deve-se lembrar de que a escolha da via é individualizada, considerando o desejo materno e a segurança de ambos", destaca Ádyla Keila Lopes Silva Oliveira, obstetra, diretora técnica da MCO-UFBA (Maternidade Climério de Oliveira, da Universidade Federal da Bahia), ligada à rede Ebserh (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares).

Entre as vantagens do normal estão rapidez na recuperação, perda sanguínea reduzida durante o parto e menor probabilidade de infecções. No pós-parto, as mães afirmam ter menos dor e existe mais mobilidade, sendo possível amamentar com mais tranquilidade.

"Para o bebê, o desconforto respiratório após o nascimento é menor, pois, ao passar pelo canal vaginal, há uma compressão do tórax que faz com que ele libere o líquido amniótico que estava em seus pulmões", explica Oliveira.

Em relação à cesariana, a recuperação é mais lenta com um nível maior de dor, existe possibilidade de ocorrer infecções e hemorragia no pós-parto. "Por ser uma cirurgia, as ameaças não se restringem à realização do procedimento em si, representando consequências para as gestações futuras, como sangramentos e ruptura uterina."

Os estudos mostram que as cesáreas têm maiores taxas de mortalidade comparadas ao normal e entre as indicações para a sua realização estão um trabalho de parto que parou de progredir, alterações no bem-estar fetal com mudança da frequência cardíaca fetal, presença de líquido meconial espesso, suspeita de sofrimento e posições fetais que impossibilitem o nascimento via canal vaginal.

"Existem circunstâncias clínicas que proporcionam indicações absolutas, como placenta prévia, herpes vaginal durante a gestação e prolapso de cordão", listam os coordenadores do Maternidade Hospital Estadual Vila Alpina.

Bebê e mãe

Para o bebê, o mais importante é a idade gestacional. Muitas vezes, a cesariana é feita precocemente, realizada antes de a paciente entrar em trabalho de parto, e os bebês são retirados prematuramente, antes do tempo certo.

Tedesco explica que, devido a isso, acaba-se a associando a mais complicações ao recém-nascido, quando, na verdade, o problema não foi a intervenção, mas o momento que ocorreu, pois o bebê não estava completamente amadurecido.

"A cirurgia é recomendada quando existe situação de risco. Por exemplo, a mãe está com a pressão muito alta e isso pode implicar em algumas complicações para o recém-nascido, mas não o procedimento em si e, sim, a condição clínica que motivou a sua realização", pondera.

A idade da mãe não é um fator determinante da via de nascimento. No entanto, segundo o professor titular de obstetrícia da FMJ, sabe-se que gestações em idades mais avançadas, especialmente depois dos 35 anos, são acompanhadas de maior risco de complicações clínicas, como pressão alta e diabetes.

Classificação de Robson

"Estudos mostram que a maioria das mulheres não prefere —ou deseja— uma cesariana. Muitas são levadas a acreditar que precisam de uma ou que não aguentariam ou teriam perfil para um parto vaginal. Em muitos casos, elas escolhem esse procedimento por medo de como seria a assistência e/ou o processo do parto vaginal", informa a professora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Além disso, devido ao aumento do número de cesarianas realizadas em todo mundo, a OMS (Organização Mundial de Saúde) sugere o uso da classificação de Robson, criada pelo médico irlandês Michael Robson, em 2001, que agrupa todas as parturientes em 10 categorias diferentes, de acordo com cinco características obstétricas: paridade, idade gestacional, apresentação e número de fetos, e a forma como o parto se iniciou (espontâneo ou induzido).

"O emprego dessa classificação ajuda a avaliar, a monitorar e a comparar as taxas de cesarianas ao longo do tempo no mesmo hospital e entre instituições diferentes. Esses dados colaboram para instituir intervenções e estratégias a fim de diminuir o número de cesarianas realizadas", esclarece a diretora técnica da MCO-UFBA.

Mônica Maria Siaulys, diretora médica do Grupo Santa Joana, de São Paulo, relata que as três maternidades do grupo utilizam a metodologia para monitorar os avanços das taxas de partos vaginais.

"No grupo 1 —primeiro filho, gestação única, com mais de 37 semanas, bebê cefálico, trabalho de parto e início espontâneo— o parto vaginal ocorre em cerca de 70% das pacientes, enquanto que no grupo 3 —um ou mais filhos, nascidos de parto vaginal, sem cesárea anterior, gestação única, com mais de 37 semanas, bebê cefálico, trabalho de espontâneo— ocorre em 90% dos casos."