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Da gripe ao colesterol: saiba se o alho ajuda mesmo nessas 6 doenças

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Chloé Pinheiro

Colaboração para o VivaBem

20/02/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Alho é estudado há tempos por seu potencial terapêutico, e realmente pode atuar contra diversos males
  • No entanto, benefícios para o coração e câncer ainda precisam de mais estudos e seu uso para gripes e resfriados não é comprovado
  • Para ter benefícios, um dente por dia basta, mas é preciso consumi-lo cru ou, no máximo, levemente aquecido
  • Extrato pode ser ainda melhor, principalmente para quem não tolera o odor, mas deve ser consumido com orientação e não substitui medicamentos

Se você é fã de alho, vai ficar feliz em saber que não só ele faz parte da medicina popular como seus benefícios para a saúde já foram comprovados em estudos científicos.

"Ele apresenta compostos fitoquímicos sulfurados e não sulfurados, que têm papel no controle do colesterol total, pressão arterial, além de auxiliarem no combate a vírus, bactérias e fungos", resume a nutricionista Vanderli Marchiori, presidente da Associação Paulista de Fitoterapia.

Entre essas substâncias, se destaca a alicina, responsável pelo odor característico do vegetal. Flavonoides e o mineral selênio, com poder antioxidante, também são encontrados nos bulbos.

No entanto, nem tudo que nossas avós creditam ao alho foi comprovado pela ciência. Veja a seguir quais benefícios do alho já foram comprovados e quais seguem sendo estudados mais de perto. Vale lembrar que nos casos em que o benefício do alho é embasado pelos experimentos dos cientistas, ele deve sempre entrar como coadjuvante e não deve substituir os tratamentos tradicionais

Benefícios comprovados

Colesterol

O uso diário e constante de alho já mostrou diminuir entre 10 e 15% do colesterol total e/ou LDL, o considerado ruim, em adultos com níveis altos dessa molécula.

Os mecanismos por trás desse efeito não estão totalmente compreendidos, mas parece que ele atua tanto na absorção de colesterol no intestino quanto na síntese do colesterol endógeno —aquele que produzimos no fígado, e é responsável pela maior parte do colesterol circulante.

Uma revisão sistemática de quase 40 ensaios clínicos randomizados (tipo de estudo robusto, que compara o efeito de um remédio com o de um placebo, sem que os grupos saibam o que estão tomando) envolvendo 2.300 adultos comprovou esse efeito benéficos em quem tem níveis de colesterol "levemente elevados", maiores do que 200 mg/dL.

A pesquisa foi feita pela Universidade de Adelaide, na Austrália, em 2013, e publicada no periódico Nutrition Reviews.

É importante dizer neste caso (e em todos os outros que falaremos mais abaixo), que o alho é um coadjuvante e não deve substituir tratamentos convencionais.

Diabetes

A relação com o controle do diabetes foi alvo de uma revisão sistemática de 2017, publicada no periódico Food and Nutrition Research por pesquisadores chineses. A investigação envolveu mais de dez estudos que davam uma dose diária entre 0,05 g a 1,5 g (um dente tem cerca de 5 g, para se ter ideia) do suplemento de alho a pacientes diabéticos e os comparava com um placebo.

No fim, o alho realmente impactou positivamente os níveis de glicose. Uma diferença de quase 10 mg/dL depois de 12 semanas e depois de mais de 20mgl/dL, na 24ª semana de suplementação.

O mecanismo ainda está sendo estudado, mas, aparentemente, a alicina e seus outros compostos melhoram o transporte de glicose para dentro das células, além de diminuir os produtos finais da glicação avançada, proteínas que levam às complicações do diabetes.

Ainda em estudo

Pressão arterial

Alho - iStock - iStock
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O alho é um vasodilatador, ou seja, pode dilatar as artérias criando uma espécie de relaxamento, que beneficia quadros de hipertensão arterial. Nesta doença, os vasos sanguíneos tendem a ficar mais "tensos" em vez de contrair e relaxar, como deveria ser.

Esse efeito é estudado há bastante tempo pela ciência. Uma revisão sistemática de 2015, publicada no periódico The Journal of Clinical Hypertension, avaliou 17 pesquisas anteriores e mostrou uma redução média de 3,75 mmHG na pressão sistólica de pessoas hipertensas e 3,39 mmHG na diastólica. A benesse foi observada com a suplementação do vegetal em cápsulas, extrato e pó.

Outra revisão conduzida pela Cochrane, entidade independente que reúne as evidências científicas mais sólidas sobre saúde, aponta que o alho de fato parece reduzir a pressão arterial, mas não há evidências o suficiente para bater o martelo sobre o assunto.

Saúde do coração

Sua ação antioxidante pode contribuir para a saúde do endotélio, a parede das artérias. Isso porque boa parte das doenças cardiovasculares comuns ocorrem quando as partículas de colesterol no sangue se oxidam, um processo chamado de estresse oxidativo, e se depositam no endotélio, formando placas de gorduras que levam a entupimentos.

Uma revisão de literatura publicada em 2016 no Journal of Nutrition mostrou que a suplementação de até 960 mg de extrato de alho pode reduzir marcadores de aterosclerose (acúmulo dessas placas nas artérias).

Outro fator de proteção contra infartos importante do alho é controlar a agregação plaquetária —nome técnico da formação de coágulos que leva a entupimentos nos vasos sanguíneos. Um outro estudo, conduzido por pesquisadores ingleses, verificou esse efeito em amostras sanguíneas de 14 participantes.

Os estudos nessa seara pesam a favor das cápsulas. Nesta segunda pesquisa, disponível também no Journal of Nutrition, o extrato de alho envelhecido foi novamente apontado como mais eficaz.

Câncer

Essa alegação é bem interessante. Estudos mostram que o alho pode diminuir o risco de câncer de estômago, câncer de pulmão, câncer de mama e até colo de útero. A hipótese aqui é a de que os compostos sulfurados como a alicina protejam o DNA de danos que levam à produção de células cancerígenas.

Só vale dizer que a maioria das pesquisas sobre o tema em humanos é observacional —ou seja, avaliam o consumo do alho e a incidência de câncer numa população e relacionam os dois números.

Estudos in vitro demonstram atividade dos compostos do alho em combater células cangerígenas, mas o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos ressalta que, apesar de promissores, faltam estudos para compreender melhor questões como o mecanismo de ação, o tamanho da dose e as interações de outros nutrientes.

Ou seja, não dá para cravar que o alho previne câncer, mas pode ser benéfico dentro de uma dieta com frutas, legumes, verduras e grãos in natura. Além da alimentação equilibrada, fazer exercícios regularmente, não fumar e beber com moderação são atitudes que oficialmente diminuem o risco de tumores.

Não comprovados

Tosse e gripe

Alguns estudos até indicam que ele pode melhorar a resposta do sistema imune a infecções, mas o efeito mais conhecido mesmo é antimicrobiano. Uma revisão da Cochrane diz, aliás, que não há evidências de que o alho seja capaz de prevenir ou curar gripes e resfriados.

Ou seja, provavelmente o alívio que as pessoas sentem ao tomar um chá com alho para a tosse vem da sua ação discreta anti-inflamatória e contra micro-organismos que podem estar desencadeando uma irritação local na garganta.

Como consumir para aproveitar os benefícios

Cebola e alho - iStock - iStock
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Embora os estudos mais bacanas envolvam o suplemento de alho (que facilita o controle da dosagem dos micronutrientes presentes), os especialistas ouvidos pela reportagem concordam que consumir um dente de alho por dia, cerca de 5 g, já é o suficiente para obter ao menos parte desses benefícios.

Para que a alicina fique disponível, é preciso amassar, triturar ou picar o alho, e o ideal é que ele seja consumido cru. Picar e acrescentar no fim dos preparos, em saladas ou cremes pode ajudar a disfarçar o sabor forte —uma dica é misturar no molho que você já adicionaria à salada. E é bom consumir junto com as refeições para que o estômago não fique ressentido.

O alho pode ser indigesto para algumas pessoas, e seu excesso pode levar a alterações no processo de coagulação, o que deve ser levado em conta por quem está em pré ou pós-operatório. Um limite considerado seguro da versão in natura, crua, é de 10 g, cerca de dois dentes, ou 4 a 6 g de alho em pó.

Com tudo isso dito, melhor confirmar com o profissional de saúde se suplementar alho é útil pra você antes de comprar as cápsulas por conta própria. E, por último, vale destacar que a transformação da alicina com o calor produz outros compostos sulfurosos com potencial ação no organismo. Assim, não precisa cortar o alho refogado das receitas tradicionais da sua casa.

Outros alimentos benéficos

A alicina permanece por 72 horas no organismo, daí a sensação de ficarmos "conversando" com o alho muito tempo depois de comê-lo. Portanto, se você não gosta de alho, pode tentar outros compostos da família são a cebola, alho-poró e cebolinha. Eles trazem vantagens semelhantes para o corpo.

Ah, e os compostos sulforados são encontrados ainda nos crucíferos como o brócolis e na couve-flor. Se o objetivo é manejar doenças crônicas, prevenir câncer, reduzir inflamações e melhorar a saúde cardiovascular, invista nesta categoria, no ômega 3 dos peixes, da chia, nas oleaginosas e em uma dieta rica em verduras, legumes e frutas.

Fontes: Francisco Tostes, endocrinologista fundador da Clínica Nutrindo Ideias; João Motarelli, nutricionista assessor científico do Departamento de Nutrição da SOCESP (Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo); João Paulo Burian, nutricionista e mestre em alimentos e Nutrição pela UNESP (Universidade Estadual Paulista); Maria Fernanda Vischi D´Ottavio, nutricionista do Check-up do Hospital do Coração (HCor); Marina Andres, ginecologista da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo; e Vanderli Marchiori, presidente da Associação Paulista de Fitoterapia; Thais Manfrinato, nutricionista do A.C. Camargo Cancer Center.