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Sem mentiras! Como auxiliar crianças que têm familiares com doença terminal

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Luiza Vidal

Do VivaBem, em São Paulo

06/10/2021 04h00

"Tem gente que diz que o coração da Morte é seco e preto, como um pedaço de carvão, mas não é verdade. Embaixo daquela capa, o coração dela é bem vermelho, como o pôr do sol mais lindo do mundo. E o que faz ele bater é o amor imenso pela vida."

A frase é do livro "Pode Chorar, Coração, Mas Fique Inteiro", do autor Glenn Ringtved, quando descreve a chegada da "Morte" na casa de quatro irmãos. A figura, até então sombria, precisa desempenhar seu papel de "levar" a avó das crianças, que tentam evitar a morte dela a todo custo.

Ao longo do livro infantil, a Morte explica que o acontecimento faz parte da vida e, sem tristeza e dor, não teria como saber o que é a alegria. Com sutileza, a obra mostra como é possível abordar o tema com as crianças. É claro que não é fácil, há um tabu enorme sobre a finitude, porém, em alguns momentos, essa conversa se faz necessária.

É o caso de crianças que têm pais ou outros familiares com uma doença terminal, por exemplo. Diferente das mortes que acontecem de forma inesperada, nesta situação ocorre o que os especialistas chamam de luto antecipatório, ou seja, a pessoa vivencia o luto, a tristeza, a raiva antes de transcorrer a morte.

Estabelecer essa comunicação com as crianças pode ser difícil, até pela delicadeza do assunto, mas ela deve, sim, ser elaborada. Dependendo da faixa etária, ela já é capaz de entender o acontecimento.

A partir dos 6 anos, por exemplo, essa compreensão da finitude fica mais clara, que seria de que o ente querido não vai mais voltar. Mas antes dos 2, mais ou menos, essa concepção não é tão evidente assim. A criança sente mais como uma ausência e é difícil que ela entenda essa falta de reversibilidade.

mulher e criança, família, doença, mulher doente com criança - iStock - iStock
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Mas como, então, conversar sobre a questão?

O primeiro ponto é que os envolvidos nos cuidados dessa criança tenham essa compreensão da idade da criança e, também, da fase de desenvolvimento dela. Cada uma terá uma noção diferente da morte. Mas o mais importante é não esconder o que está acontecendo, e sim manter uma comunicação clara e aberta.

"A criança faz parte deste momento, o ideal é incluí-la. O ato de esconder dificilmente será a melhor forma de lidar com a morte neste momento", explica Yadja do Nascimento Gonçalves, psicóloga da enfermaria da pediatria do Hospital Universitário Walter Cantídio, da UFC (Universidade Federal do Ceará em Fortaleza).

De acordo com a especialista, dependendo do caso da família e de quem está doente, é possível escolher uma pessoa com uma boa capacidade de comunicação com a criança. É alguém de confiança que saiba ser sensível para essa conversa.

Também é essencial evitar metáforas, já que os pequenos costumam entender as coisas de forma literal, segundo Julia Padilha, mestre em psicologia clínica e professora do curso de psicologia da Faculdade Pitágoras São Luís (MA).

Se você falar que aquela pessoa vai virar uma estrela ou que ela vai morar no céu, a criança pode ficar confusa e entender que ela irá, literalmente, morar no céu. Isso pode gerar um sentimento de revolta. A criança também pode achar legal e querer morar no céu e virar estrela. É preciso tomar muito cuidado". Julia Padilha, mestre em psicologia clínica e professora do curso de psicologia da Faculdade Pitágoras São Luís (MA).

Aos poucos e de forma gradativa, é possível ir introduzindo o tema, como citar a própria natureza, o que ajuda a naturalizar o tema: as plantas que nascem, crescem e, por fim, morrem. Tudo isso mostra que a morte faz parte da vida. Todos nós iremos vivenciá-la um dia.

Há também livros e filmes que tratam do assunto de forma lúdica e que, com certeza, tornam a sua compreensão muito mais leve. Um exemplo que fala exatamente sobre uma criança na qual a mãe está com uma doença terminal é "Sete Minutos Depois da Meia-Noite" ("A Monster Calls").

No filme, o garoto luta para aceitar o diagnóstico e, na imaginação, fica amigo de uma árvore que conta diversas histórias para ele. A fantasia ajuda o menino a enfrentar a realidade difícil em que se encontra.

cena do filme "Sete Minutos Depois da Meia-Noite" - Reprodução/Focus Features - Reprodução/Focus Features
Em "Sete Minutos Depois da Meia-Noite", menino sofre com diagnóstico de doença terminal da mãe
Imagem: Reprodução/Focus Features

Mais importante do que falar é ouvir a criança

Por mais que a conversa comece a partir do adulto, é fundamental dar espaço para a criança falar ou fazer perguntas. Não existe certo ou errado, mas a ideia é sempre oferecer a escuta, como explica Maria Julia Kovács, professora sênior do Instituto de Psicologia da USP e coordenadora do LEM (Laboratório de Estudos Sobre a Morte).

"É entender o que a criança quer saber, do que ela tem medo. Isso, sempre, com uma linguagem adequada ao desenvolvimento dela", diz. "Mais do que dar grandes informações da situação, é ouvir o que ela tem a falar ou dos sentimentos que quer compartilhar. Muitas vezes, as pessoas acabam não ouvindo."

Dependendo da idade, é importante que essa criança seja capaz de nomear o que está sentido. Até porque, neste processo de luto antecipatório, sentimentos como raiva e tristeza costumam aparecer.

criança desenhando - iStock - iStock
Desenho é uma forma de expressão de sentimentos das crianças
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Uma solução que pode auxiliar é incentivar essa expressão por meio dos desenhos ou pela escrita. "Uma coisa simples que está ao nosso alcance é o papel e o lápis. É pedir para a criança mostrar, pelo desenho, o que está sentindo e depois conversar com ela sobre isso. Se ela não quiser desenhar, ela pode escrever uma carta, por exemplo", explica a psicóloga da UFC.

Segundo Gonçalves, às vezes, é essa simplicidade em estar disponível para a criança é a melhor forma de ajudá-la, principalmente para evitar problemas na saúde mental dela. "É acolher e possibilitar que ela elabore a concepção sobre a finitude da melhor forma possível", diz. "Dar espaço para essa criança falar sobre sentimentos é, também, uma forma de promover a saúde mental dela."

Lutos precisam ser bem elaborados

Quando esse diálogo não ocorre ou, então, nem os pais são capazes de fazer essa elaboração do luto antecipatório, as crianças podem sentir seus efeitos psicologicamente ou fisicamente, como ansiedade, insônia, excesso de choro ou de medo. Se a situação for muito traumática, ela também pode crescer com medo da morte.

"Por isso, é importante que esse processo seja validado. Como elas estão em desenvolvimento, elas ainda estão entendendo os sentimentos, o que é o ciclo da vida e morte", explica Padilha.

Caso as coisas fiquem difíceis, é possível procurar ajuda especializada, com profissionais que tratam da saúde mental, com psicólogos ou psiquiatra. Até porque, cada luto é muito individual, e esse especialista pode ajudar nesse manejo da situação que está acontecendo.

criança, psicólogo, terapia - Getty Images - Getty Images
Profissionais de saúde mental podem auxiliar processo do luto antecipatório
Imagem: Getty Images

Isso pode causar traumas?

A depender da situação e da forma que a criança foi comunicada, isso pode, sim, deixar marcas difíceis de serem apagadas. Mas também é possível que isso seja revertido, segundo Kovács. "Mesmo que ela tenha vivido uma situação muito traumática, que ela possa falar sobre isso e abrir espaço para que essa imagem seja, gradativamente, substituída por outra", afirma. E, aqui, de novo, um acompanhamento por profissionais é fundamental.

Neste caso específico de quando uma criança tem um familiar com uma doença grave, é importante também que ela possa aproveitar este período ao lado do ente, criando memórias positivas, como tomar sorvete junto, rir e conversar —se possível, claro. São memórias que auxiliam na elaboração do luto.

"A morte tem sofrimento, dor e saudade, mas também tem amor e relações criadas em vida. Esse conceito da morte pode ser ampliado não só com esse 'evento traumático', mas também como um processo do ciclo da vida", explica Gonçalves.

E se no livro "Pode Chorar, Coração, Mas Fique Inteiro", o começo da história é marcado de dor e sofrimento, no final as crianças entendem que era o momento de a avó ir embora, não havia nada que pudesse ser feito.

"A Morte estava parada ao pé da cama. Ela olhou para as crianças e disse: 'Pode chorar, coração, mas fique inteiro'. Então, desceu a escada e desapareceu."

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