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'Acordei cega': pandemia prejudica tratamento de glaucoma e atrasa detecção

Maria Helena, sentada, com a filha Marcia, perdeu a visão dos dois olhos por glaucoma - Arquivo pessoal
Maria Helena, sentada, com a filha Marcia, perdeu a visão dos dois olhos por glaucoma Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Vidal

Do VivaBem, em São Paulo

09/09/2021 04h00

A pandemia do coronavírus já deixou quase 5 milhões de mortos no mundo todo. No Brasil, o número se aproxima dos 600 mil mortos. Isso sem contar com as pessoas que foram infectadas pelo vírus e desenvolveram sequelas da doença.

Além das vítimas, há os efeitos "secundários" da pandemia: as doenças que deixaram de ser diagnosticadas ou, ainda, os tratamentos que não foram feitos corretamente por causa do isolamento social. As consequências são notadas aos poucos.

Uma delas é em relação ao glaucoma, doença que atinge o nervo óptico dos olhos, também chamada popularmente de "ladrão silencioso da visão". Um levantamento realizado pelo CBO (Conselho Brasileiro de Oftalmologia), em parceria com a consultoria 360º CI, mostra uma queda de 1,6 milhão de exames para detecção precoce do glaucoma pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

De acordo com a análise, em 2019, a produção desses exames na rede pública chegou a 5,9 milhões de procedimentos. Durante a pandemia, no entanto, essa produção em nível nacional foi de 4,3 milhões —mostrando uma queda de 27%. Em oito estados, a redução superou os 50%.

Ainda de acordo com a análise, pelo menos 6.500 cirurgias para tratar glaucoma deixaram de ser realizadas ao longo de 2020 —o que representa uma queda de 22% em relação ao ano anterior.

Pandemia afetou tratamentos e atrasou diagnóstico

A redução mostra que diversos pacientes não foram diagnosticados e que menos pessoas conseguiram fazer a cirurgia —um das formas de tratamento da doença, a depender do caso. Os especialistas consultados por VivaBem confirmam que, de fato, a pandemia foi a culpada por isso.

Segundo Hissa Tavares, oftalmologista do Hospital Universitário Walter Cantídio, em Fortaleza (CE), da Rede Ebserh, os pacientes que já tinham glaucoma perderam o acompanhamento com os médicos.

"Após o pico da covid-19, eles voltaram com a doença mais avançada. Isso, infelizmente, aconteceu. O diagnóstico também diminuiu porque ficamos muito tempo sem atendimento disponível", explica a também presidente da SCO (Sociedade Cearense de Oftalmologia).

Quem observou o mesmo foi Luísa Aguiar, oftalmologista do Hospital São Vicente de Paulo (RJ), especializada em glaucoma. "As pessoas deixaram tudo para depois e estão com os exames preventivos atrasados. Com isso, já perderam a chance de um diagnóstico", diz.

Pacientes com glaucoma precisam ser vistos com maior frequência pelos médicos. Em casos leves, esse tempo pode ser de seis em seis meses. Já em quadros graves, essa periodicidade pode chegar a uma vez por mês.

O problema é que, sem acompanhamento adequado, o glaucoma pode evoluir sem dar sinais. Durante o tratamento, o médico precisa saber como os pacientes estão respondendo aos colírios —medicamento utilizado para tratar. Sem isso, o problema pode resultar na perda total da visão.

Após mal-estar, ela acordou sem enxergar mais nada

Foi o que aconteceu com Maria Helena Silva Borges, 73. Com glaucoma há 18 anos e uma vista já comprometida, ela decidiu evitar as consultas marcadas presencialmente no Rio, cidade onde mora. Com ajuda das filhas, manteve o contato com a médica pelo WhatsApp ou via ligações.

A idosa e as filhas foram "segurando" o máximo que puderam e seguiram o tratamento corretamente, mesmo com relato de muita dor e incômodo de Maria.

Maria Helena - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Maria Helena ao lado das filhas
Imagem: Arquivo pessoal

"Tínhamos medo de colocar minha mãe em risco em um pronto-socorro por causa da covid. Imagina se ela pegasse? Iria ficar sozinha, sem companhia e sem enxergar direito", conta Marcia Silva Borges, 47, uma das filhas da idosa.

Por volta de setembro de 2020, Maria, que já tinha a doença avançada, sentiu um mal-estar durante a noite e acordou sem enxergar mais nada. Só depois que a médica voltou a atender presencialmente neste ano é que ela passou por uma consulta que constatou a perda da visão nos dois olhos.

Hoje, Marcia conta que a mãe, assim como a família toda, está enfrentando um momento difícil. De acordo com ela, Maria sempre foi muito ativa, mas, agora, tenta se adaptar à nova realidade.

"Ela está muito insegura, tem síndrome do pânico e não consegue fazer nada sozinha. Agora estamos conseguindo convencê-la de ir ao psicólogo", diz. "Fizemos o que achávamos melhor naquele momento. Ela tinha muito medo. Infelizmente, isso aconteceu."

'Fui deixando para depois e senti muito por isso'

A aposentada Sheila Maria Martins do Souto, 70, já tratava o glaucoma em ambos os olhos desde 1994. A mãe dela tinha a doença e, com o tempo, ao realizar os exames, descobriu que também tinha o mesmo problema.

Sempre seguiu o tratamento corretamente: aplicava religiosamente o colírio nos olhos. Também operou um dos olhos em 2020 e teria que fazer o retorno em março, mas a pandemia veio e a consulta foi postergada.

"Em 2020, não fui mais em nenhuma consulta. Continuei usando o colírio, fazendo o tratamento, mas não fiz mais exames. A conclusão foi que, em maio deste ano, senti uma diferença nesse olho direito. O ângulo estava mais fechado", diz a aposentada, que vive no Rio.

Sheila Maria - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Sheila Maria teve a vista prejudicada durante a pandemia
Imagem: Arquivo pessoal

Após tomar a vacina contra covid-19, voltou ao consultório da médica e descobriu que, de fato, a visão estava diferente. Isso porque o campo de visão do "canto" dos olhos diminuiu —algo que o glaucoma pode mesmo fazer.

"O paciente não perde, primeiro, a visão central. Costuma ser lento e ocorrer da visão periférica para a central. Isso porque, no glaucoma, esse nervo óptico vai 'morrendo' aos poucos. E ele é formado por fibras nervosas que são responsáveis por levar a 'informação dos olhos' para o cérebro. Por isso que a visão é afetada", explica Aguiar.

Após descobrir que estava com olhos ainda mais comprometidos, Sheila continua fazendo o tratamento e espera que a pressão dos olhos, um dos fatores associados ao glaucoma, diminua. A periodicidade das consultas também mudou: antes, ia duas vezes ao ano, mas agora vai aproximadamente a cada três meses.

"Fiquei desmarcando e as coisas foram piorando em 2020. Depois, senti muito. Foi uma bobagem", relata a aposentada. "Mas não deixo de cuidar, sigo usando o colírio certinho."

Doença é silenciosa e precisa de diagnóstico rápido

O tipo mais comum da doença é o glaucoma de ângulo aberto, que está mais associado a histórico familiar, pressão intraocular alta e, como o nome diz, ao ângulo aberto. "A pessoa não sente nada, não tem nenhum sintoma. É uma doença perigosa e insidiosa", explica Roberto Lauande, oftalmologista e professor de medicina da Faculdade Unime Lauro de Freitas (BA).

Por isso, é importante ir ao oftalmologista pelo menos uma vez ao ano. Com o passar do tempo, o risco de ter glaucoma aumenta. A idade é um fator de risco, sobretudo após os 50 anos, mas jovens também podem ter o problema.

Guilherme Melo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Guilherme Melo descobriu glaucoma no olho direito
Imagem: Arquivo pessoal

Guilherme Melo, 21, descobriu o glaucoma no olho direito durante uma consulta com o oftalmologista neste ano. "Fui tirar a carteira de motorista, mas não estava enxergando direito de longe. Quando fui fazer os exames de rotina, constou que tenho glaucoma. Fiquei surpreso", conta o operador de logística, de Cariacica (ES).

Na consulta, o médico pediu mais exames, mas avisou que o tratamento seria fundamental para evitar a perda da visão. "Pretendo seguir certinho porque não quero ficar cego", diz.

Inclusive, não se sabe ao certo, mas por uma questão genética, os negros têm mais tendência a desenvolver esse tipo de glaucoma —o mais comum na população brasileira e também mundial.

Já o glaucoma de ângulo fechado, também conhecido por glaucoma agudo, é mais frequente em orientais. Esse tipo traz muita dor e a pessoa pode perder a visão em questão de horas. Até por isso, é considerada uma emergência.

"Esse tipo aparece de forma súbita, com muita dor, em um ou nos dois olhos, e precisa ir direto ao pronto-socorro. A visão pode baixar em poucas horas ou em dias", diz Lauande.

Para o glaucoma, não há cura, pois é uma doença crônica que é apenas controlada com algumas técnicas. São elas: colírios, laser ou cirurgias para casos mais avançados. Uma vez que a visão é perdida, não é possível recuperá-la.

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