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Uma a cada seis doses de vacina é aplicada em residentes de outras cidades

Dados integram as é uma das conclusões de um novo estudo da equipe do Icict/Fiocruz - Hannah Beier/Reuters / Imagem ilustrativa de arquivo
Dados integram as é uma das conclusões de um novo estudo da equipe do Icict/Fiocruz Imagem: Hannah Beier/Reuters / Imagem ilustrativa de arquivo

Da Agência Fiocruz

23/06/2021 16h42Atualizada em 23/06/2021 16h42

Mais de 11,3 milhões de doses de vacinas contra a covid-19 foram aplicadas pelos municípios em moradores de outras cidades - que, em média, viajaram 252 quilômetros até o local de vacinação. Na prática, a cada seis doses de vacinas aplicadas em todo o Brasil, uma foi em pessoas que saíram da cidade onde moram para serem vacinadas.

Essa é uma das conclusões de um novo estudo da equipe do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict/Fiocruz), divulgado na nota técnica Deslocamento da população em busca da vacina.

Entre outras conclusões, o trabalho mostra que pouco mais da metade dos municípios brasileiros (2.886, de um total de 5.570) aplicou menos doses de vacinas do que a média nacional do percentual de doses necessárias (23% do total da população a ser vacinada).

Isso é um forte indicador de uma falha no esforço nacional de imunização, que deveria vacinar a população de maneira homogênea, com proporções similares nos municípios para os grupos prioritários e por idade.

Na figura abaixo, essa distribuição percentual é apresentada segundo municípios. O estudo da Fiocruz concentrou-se na análise comparativa dos locais de residência e de vacinação de todas as 73,8 milhões de doses aplicadas até 16 de junho, de acordo com os registros do Sistema de Informações do Plano Nacional de Imunização (SI-PNI).

A nota técnica aponta que a falta de uma integração em nível nacional entre o Ministério da Saúde, os estados e municípios pode estar provocando essa distorção e, em consequência, o fato de o número de doses aplicadas em metade dos municípios do país ainda estar abaixo da média nacional.

"As medidas baseadas em tomada de decisão individualizada e sem coordenação e estratégias conjuntas falharam na contenção da doença e no tratamento de casos graves. Decisões que não considerem as redes de atenção em saúde podem colocar em risco a população, que, eventualmente, tem que se deslocar sem necessidade em busca de um atendimento básico que todos os municípios do país têm capacidade de realizar", informa a nota.

Os números de vacinação do município de São Paulo são um indício do tipo de problemas que essa falta de coordenação pode causar. No início desta semana, a Prefeitura paulistana interrompeu a vacinação por falta de doses, o que pode ser resultado tanto da paralisação do fornecimento de vacinas, quanto do aumento da demanda externa.

Os especialistas da Fiocruz constataram que a capital paulista aplicou 257.159 doses de seis municípios vizinhos: Guarulhos (101.681 doses), Osasco (37.715), Santo André (35.236), Diadema (27.758), Taboão da Serra (27.650) e São Bernardo do Campo (27.119).

Além disso, a Prefeitura de São Paulo também vacinou grupo considerável de moradores de outras capitais: 29.392 doses foram aplicadas em moradores de Rio de Janeiro (12.118), Salvador (5.526), Belo Horizonte (3.985), Curitiba (3.961) e Brasília (3.802).

Outro município que vem tendo sua vacinação sobrecarregada por moradores de outras cidades é o Rio de Janeiro. A capital fluminense aplicou 156.256 doses em moradores de municípios vizinhos, como Duque de Caxias (47.507), Nova Iguaçu (32.028), São João de Meriti (28.873), Niterói (25.282) e Belford Roxo (22.566). A esses, se somam 10.902 doses de residentes em São Paulo (7.047) e Brasília (3.855).

Recife e Belo Horizonte também registraram números expressivos de vacinação para moradores de cidades vizinhas: 69.383 e 64.498 doses, respectivamente. A capital pernambucana aplicou 35.695 doses em moradores de Olinda e 33.688 de Jaboatão dos Guararapes, enquanto Belo Horizonte aplicou a vacina 39.443 doses em moradores de Contagem e 25.055 de Ribeirão das Neves.

Algumas cidades, como Salvador, Aracaju, Rio Claro (SP) e Feira de Santana (BA), também têm sofrido com a falta de vacinas, o que pode se agravar com o aumento da procura do imunizante por pessoas de outros municípios.

"As cidades que anteciparam seus calendários ou que propiciam melhores serviços podem estar sendo 'invadidas' por pessoas de municípios próximos, ou mesmo localizadas a centenas de quilômetros, o que impede o cumprimento de metas de cobertura e pode ocasionar a interrupção do serviço", diz o sanitarista e pesquisador do Icict/Fiocruz Christovam Barcellos.

"A partir de maio observa-se uma tendência de crescimento no percentual de procura por doses fora do município de residência, principalmente para a segunda dose. Destaca-se também as tendências de crescimento do percentual nas outras categorias de grupos prioritários", aponta o pesquisador Raphael Saldanha.

"Esses números atrapalham o planejamento das secretarias municipais de Saúde podem ter prejudicado o calendário de vacinação da Prefeitura de São Paulo, causando adiamento da aplicação de vacinas, como já ocorreu com o município do Rio de Janeiro há poucos meses. Sem uma coordenação nacional, que integre efetivamente as políticas de vacinação de estados e municípios, sob a liderança do Ministério da Saúde, continuaremos a ver fortes discrepâncias no esforço de vacinação, com enorme variação entre o percentual de vacinados de cidade para cidade, mesmo dentro de um único estado", analisa o epidemiologista Diego Xavier, do Icict/Fiocruz.

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