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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Saúde mental piorou para 70% dos cuidadores brasileiros durante a pandemia

Cuidadores não profissionais relatam que foram impactados de forma negativa pela pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2) - iStock
Cuidadores não profissionais relatam que foram impactados de forma negativa pela pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2) Imagem: iStock

Danielle Sanches

Do VivaBem, em São Paulo

19/04/2021 14h37

A pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2) trouxe impactos significativos na vida dos cuidadores não profissionais. É o que aponta do Índice de Bem-Estar do Cuidador não Profissional de 2020, realizado pelo Embracing CarersTM, programa global apoiado pela farmacêutica alemã Merck.

O estudo foi realizado em 12 países: Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Espanha, Austrália, Brasil, Taiwan, Índia e China, e incluiu nove mil cuidadores não profissionais— aquela pessoa com algum vínculo afetivo com quem está sendo assistido e que não tem necessariamente formação na área nem remuneração.

Segundo o estudo, 64% dos cuidadores não profissionais afirmaram que a pandemia tornou mais difícil o papel de cuidador; no Brasil, o número sobe para 68%. A situação financeira piorou para 54% dos cuidadores experimentassem uma piora na situação financeira, e 76% deles no geral (83% apenas no Brasil) disseram que o cansaço aumentou de forma excessiva.

Suporte emocional

Um dos pontos levantados pelos entrevistados foi o surgimento de uma nova função: com as incertezas e o clima de medo da pandemia, 57% deles afirmaram que precisaram assumir também o papel de suporte emocional na relação. Em comparação com os outros países, o Brasil está em terceiro lugar com essa afirmação (65%), ficando atrás apenas de Índia e China.

As habilidades também tiveram que mudar nesse período, já que 68% dos cuidadores ouvidos apontaram que precisaram de mais orientação e treinamento sobre como usar a telemedicina, ferramentas online e aplicativos móveis para manter os cuidados de saúde em dia.

Isso teve ainda um impacto direto na quantidade de horas "trabalhadas": no geral, eles gastaram 46% a mais de horas com as pessoas que cuidam durante o pico da pandemia.

Saúde mental deteriorada

É comum encontrarmos cuidadores que deixam de realizar suas atividades do dia a dia como se alimentar corretamente, dormir pouco e até socializarem menos com suas famílias para se dedicar à pessoa que está sendo cuidada.

Essa dedicação excessiva— que pode ser integral e durar por longos anos— acaba causando desgaste físico e mental no cuidador. É comum que desenvolvam uma condição conhecida como estresse do cuidador, ou seja, uma tensão emocional decorrente do "trabalho" que exercem.

Durante a pandemia, a pesquisa da Merck mostrou que esse estresse se agravou. Entre os ouvidos, 61% afirmam que a saúde mental deles piorou durante o período (70% apenas no Brasil). O isolamento social, pouco tempo com os amigos e parentes, além do medo da contaminação pelo vírus, foram as principais razões mencionadas para isso.

Como saber se tenho o estresse do cuidador?

Se você cuida de algum idoso ou pessoa incapacitada no momento, e acredita que está sobrecarregado e se sente esgotado, é importante averiguar esses sintomas e checar o que está acontecendo. O estresse do cuidador causa irritação, frustração, tristeza e falta de perspectiva.

O cuidador ou a cuidadora se sente sozinho, desprotegido, com insônia, apresenta perda ou excesso de apetite e, em alguns casos, forte depressão. É comum relatarem um cansaço que não passa, descuidam da aparência e não tem tempo para si.

"É difícil termos uma estimativa de quantas pessoas são atingidas, já que os cuidadores, muitas vezes, não reconhecem os sintomas de alerta. A maioria acha que essa situação é algo normal, não procura ajuda e acaba sofrendo sozinho. Há um esgotamento sem perspectiva de cura ou evolução, pois não é como cuidar de uma criança. E ao final dos cuidados, no caso dos idosos, ainda há a possibilidade de perder a pessoa", explica Valmani Cristina Aranha, psicóloga e especialista em gerontologia e diretora da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia)*.

Outra questão que deve ser levada em conta é a dificuldade de aceitar a troca de papéis. Frequentemente, os cuidadores podem ficar confusos ou inseguros ao se tornarem responsáveis pelos seus pais, cônjuges ou amigos. E a falta de recursos financeiros e apoio também contribuem para aumentar ainda mais o sofrimento e a angústia.

Identificando o problema

O diagnóstico geralmente é realizado de forma indireta pelo geriatra ou médico que atende ao idoso/doente. Esses especialistas podem perceber que o cuidador também precisa de cuidados por causa dos sintomas apresentados e relatos do paciente.

"O estresse se apresenta inicialmente como uma forma de alarme e é mais leve. É comum esses cuidadores terem insônia ou falta de paciência nessa fase. Depois, o organismo do cuidador passa a dar respostas ao estresse: surgem as doenças como elevação da pressão arterial, taquicardia, enxaqueca ou gastrite. E, em seguida, há uma exaustão extrema que exige tratamento", relata Cristina Borsari, psicóloga e coordenadora da psicologia hospitalar da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

Veja, a seguir, alguns sinais que merecem atenção:

  • ansiedade e/ou depressão;
  • perder o contato com amigos;
  • estar sempre exausto;
  • irritação frequente;
  • sem energia;
  • negligenciar a própria saúde;
  • dores no corpo;
  • sentir culpa quando está longe;
  • ficar sempre preocupado e com pensamentos negativos;
  • falta de concentração;
  • dores frequentes de cabeça ou estômago;
  • imunidade baixa;
  • falta de tempo para o lazer.

O que pode ser feito para diminuir a sobrecarga

Histórias como a de Claudia são bastante comuns, mas algumas atitudes no dia a dia diminuem os impactos emocionais que levam o cuidador a ter mais problemas de saúde —emocionais e físicos. O primeiro passo é estabelecer uma rotina de cuidados reais, ou seja, fazer o que é necessário e não buscar a perfeição.

É fundamental dividir as tarefas e admitir que precisa de ajuda para dar apoio à pessoa assistida.

"É importante manter os exames de rotina em dia. É preciso sempre conversar com o médico sobre sintomas de depressão e ansiedade. Vale participar de grupos de apoio para desabafar e desenvolver o hábito de pedir ajuda e aceitar ser cuidado(a) também", completa Cristina Alves.

Outra questão é conseguir ter tempo para o lazer e evitar o isolamento. É fundamental manter relacionamentos com outras pessoas, não apenas com quem é assistido. Geralmente, os cuidadores passam longas horas cuidando do outro e esquecem que precisam de pausas ou de realizar atividades que tragam prazer como leitura ou assistir um filme. É necessário também manter a atividade física, tentar realizar um alimentação equilibrada e dormir bem.

Em alguns momentos, o cuidador percebe que está no seu limite. Muitos sentem uma depressão intensa e/ou mudam de comportamento, ficando mais irritados ou propensos a agressões ou desrespeito ao idoso ou pessoa doente.

"É muito importante cuidar de quem cuida. O cuidador pode perder a capacidade de lidar com essa situação. E é necessário averiguar se a pessoa não precisa buscar uma institucionalização para que o idoso ou doente tenha mais atenção e os cuidados necessários. É uma alternativa para melhorar a qualidade do cuidado, mas deve ser uma decisão individual", finaliza Aranha.

* com informações de reportagem de Samantha Cerquetani publicada em 17/07/2020.

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