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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Você não precisa produzir o tempo todo; reconheça a produtividade tóxica

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Bruna Alves

Do VivaBem, em São Paulo

12/04/2021 04h00

Resumo da notícia

  • O mito da produtividade é caracterizado pela produção excessiva de trabalho sem descanso
  • Em médio e longo prazo, os adeptos da produção inesgotável de trabalho ou outros afazeres terão problemas de saúde física e mental
  • Os mais comuns são problemas cardíacos, a síndrome de burnout e depressão
  • Para conseguir aproveitar melhor o tempo, sem desperdício ou exageros, é preciso ter e seguir uma rotina

A ordem é produzir, de manhã, tarde ou noite, não pode parar. Chamada de mito da produtividade, essa ideia associa o nosso valor exclusivamente àquilo que entregamos, seja no trabalho, em casa ou na faculdade —o tempo não pode ser desperdiçado. Apesar de ser comum, especialistas dizem que esse raciocínio não é nada saudável, e afirmam a importância do descanso mental, de ter um momento sem fazer nada, apenas deixando os pensamentos passarem.

"A pessoa acha que quanto mais ela produzir, mais reconhecida será, que vai conseguir conquistar mais coisas. Ela sente que precisa fazer alguma coisa o tempo todo; quanto menos folga tiver no dia, melhor o desempenho; quanto mais tarefas concluir o dia inteiro, melhor. Esses são algumas coisas que compõem esse mito", exemplifica a psicóloga clínica Marilene Kehdi.

No entanto, muitas vezes, o "não fazer nada" é fazer alguma coisa. Relaxar faz bem para o corpo e para a mente. O problema é que, por mais que isso pareça algo simples, é difícil de ser aplicado. Quando estamos em casa, de folga, por exemplo, queremos nos entreter, assistir a uma série, ler um livro, fazer uma caminhada, ou seja, devemos sempre estar fazendo alguma coisa e, quando isso não acontece, temos a impressão de que desperdiçamos o tempo.

A mente e o corpo agradecem quando você relaxa - iStock - iStock
A mente e o corpo agradecem quando você relaxa
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A psicóloga atribui esse comportamento, sobretudo, às mulheres, já que elas têm mais dificuldade de ficar sem fazer nada por muito tempo. Mas destaca a importância de ter esse período sem tarefa alguma: "Ficar o tempo todo ocupado não faz bem para a saúde física nem mental. É importante organizar a rotina por prioridades, delegar funções, compartilhar, dividir as tarefas, saber dizer não, reconhecer e respeitar os próprios limites, os pontos fracos, pedir ajuda, se necessário. Porque quanto mais organizada a rotina, menos estressante e mais produtiva ela vai ser", avalia Kehdi.

De acordo com a especialista, fazer várias coisas o tempo todo não significa que a pessoa está sendo produtiva. "Ser produtiva é fazer as tarefas que precisam ser realizadas, e o que não der para ser feito hoje, fica para amanhã. E muitas pessoas não conseguem fazer isso, aí passa a ser uma produtividade tóxica, porque faz mal", diz Kehdi, ressaltando que para haver uma produtividade saudável é preciso estar descansado.

Não há problema algum em querer aproveitar bem o tempo, quando possível, assim como não há problema em querer simplesmente relaxar e não fazer nada. Vale dizer que mesmo na hora do descanso, os pensamentos produtivos vêm, mas depende de cada um para que eles sejam desviados e o foco volte a ser o relaxamento.

"É preciso ter tempo para trabalhar, para descansar e para ter lazer. Quando você não divide seu tempo assim, você pode chegar no esgotamento emocional, na fadiga. Você pode começar a desenvolver transtornos mentais e doenças físicas", alerta Kehdi.

Cérebro viciado - iStock - iStock
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Cérebro precisa descansar

Júlio Pereira, médico neurologista da BP (A Beneficência Portuguesa de São Paulo), explica que durante o dia o ideal não é que as pessoas fiquem o tempo todo fazendo alguma atividade. "Se a gente fizer um estímulo constante do cérebro pode ocasionar um burnout no sistema nervoso central e até depressão. Então, o ideal é que nós tenhamos períodos de foco e períodos de total descanso".

Já em questões hormonais, segundo o neurologista, o cortisol (hormônio do estresse) é necessário no dia a dia, pois ajuda na concentração, no foco e na frequência cardíaca. "Quando você está produzindo, trabalhando, ele está sempre em alta", diz.

Por outro lado, num período de descanso e relaxamento, esse hormônio, além de outros semelhantes, é reduzido. O grande problema é que quando ficamos muito tempo sem ter nenhum descanso, há consequências. "O cortisol é bom, mas elevado de forma crônica pode prejudicar uma série de coisas, e um dos efeitos mais comuns é a piora da memória", destaca Pereira.

O especialista explica que quando estamos trabalhando, estudando, ou fazendo qualquer outra atividade, o cérebro está exercendo sua neuroplasticidade, que é como se novas conexões cerebrais fossem se formando. Mas essas conexões também precisam de um tempo para se consolidar. Para exemplificar, imagine uma atividade física: o treino serve para ganhar força, músculos, resistência, melhorar a saúde, entre outras coisas. Mas quando passamos do limite, ao invés de fazer bem, passa a fazer mal. Da mesma forma é o cérebro.

Um momento relaxando, sem fazer nada, faz muito bem à saúde - iStock - iStock
Um momento relaxando, sem fazer nada, faz muito bem à saúde
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O corpo também precisa relaxar

Quando estamos ligados no 220 o tempo todo, uma das consequências é a redução da produção de serotonina, o hormônio do bem-estar. Isso resulta numa perda de prazer, de se sentir bem. "A gente sabe que o estresse crônico está relacionado a problemas cardíacos e uma série de doenças que podem ter consequências nesse mito da produtividade", diz o neurologista.

Da mesma forma que há um consenso entre a comunidade médica sobre as oito horas de sono por noite, o ideal é passar pelo ciclo do dia de forma organizada: trabalhar, comer, relaxar, descansar a mente, ter lazer ou fazer alguma atividade física. "A gente precisa tirar de lição que produzir significa aprender a usar e a desfrutar do seu tempo, e não só viver em função de cumprir com tarefas", diz Aline Sabino, psiquiatra da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo.

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