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Não consigo ser eu mesma há 1 ano, diz psicóloga com sintomas persistentes

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Victoria Bechara

Colaboração para VivaBem

08/04/2021 10h00

Quase um ano após ter covid-19, a carioca Patricia Acácia, 37, ainda não conseguiu voltar à vida normal. Ela contraiu o vírus em abril do ano passado, teve sequelas, uma embolia pulmonar e passou alguns dias internada em um CTI de covid-19, de onde chegou a pensar que não sairia. Mesmo depois de um ano, a psicóloga ainda tem sintomas persistentes da doença.

"Não consigo mais ser eu mesma desde abril do ano passado", afirma Patricia. Ela conta que, mesmo depois de tanto tempo, ainda sente falta de ar, cansaço extremo e não consegue ter a rotina que seguia antes de ter a doença. "Fazia atividade física e depois ia atender. Hoje, se fizer atividade física, não consigo atender", relata.

"Trabalhava o dia todo. Agora vou revezando os horários. Trabalho só à tarde, ou um dia só pela manhã, fico com horas espaçadas para descansar", completa.

Estudos comprovam

Os chamados sintomas persistentes são cada vez mais comuns para pacientes de coronavírus. Resultados preliminares de uma pesquisa da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (Universidade de São Paulo) mostraram que 64% dos pacientes recuperados tiveram algum sintoma persistente seis meses depois do início da doença.

Outro estudo, divulgado em março pela Universidade de Leicester, no Reino Unido, aponta que mulheres entre 40 e 60 anos têm mais risco de problemas a longo prazo depois de terem alta da covid-19.

Dor de cabeça, cansaço e embolia

Patricia não sabe como contraiu o vírus, mas acredita que possa ter sido no consultório, onde ia para usar a internet e fazer os atendimentos online, ou que a doença foi transmitida pelos seus pais.

Ela era saudável, fora do grupo de risco e não tinha nenhuma comorbidade. Na metade de abril, começou a ter alguns sintomas, como febre, fadiga, dor de cabeça e tosse. Foi para a emergência com 25% do pulmão comprometido e os médicos pediram que ela voltasse para casa.

Os 14 dias da doença passaram, mas a dor de cabeça forte durou quase 50 dias. "Esse tempo todo em casa eu continuei com sintomas. Cada dia descobria uma coisa diferente, sentia um amargo na boca que durou por volta de três meses. Era um cansaço extremo e só pensava: isso não vai passar?", conta a psicóloga.

Em maio, Patricia voltou a procurar atendimento médico. Segundo ela, todos diziam que estava tudo bem, que os sintomas iam passar e que a solução era esperar. "Não conseguia fazer absolutamente nada. Pentear o cabelo era muito difícil, tomar banho… Acordava, pegava um pouquinho de sol e tinha que dormir para conseguir atender um paciente ou dois. Não conseguia fazer mais do que isso."

No fim de maio, ela foi para a emergência novamente, fez exames e foi internada com embolia pulmonar. "Se não tivesse ido para lá naquele momento, provavelmente teria morrido em casa", afirma. "Via todo mundo intubado ao meu lado, era a única que estava consciente. Ali pensei se sairia do hospital ou não. As pessoas não fazem a menor ideia do que está acontecendo por aí".

Depois de passar cinco dias internada, Patricia recebeu alta e continuou com o tratamento com anticoagulante em casa, o que a fez ter sangramentos por um mês inteiro. Em julho, agosto e setembro, ainda não respirava bem como antes.

"A pior coisa é aceitar que seu corpo é completamente diferente depois de passar por tanta coisa", diz a psicóloga. "Hoje sou muito intolerante a dor e tenho que lidar com isso todos os dias. Acabo ficando alerta o tempo todo. Se tenho uma dor de cabeça, lembro do que passou um ano atrás, como se fosse um trauma", conclui.

Rede de apoio

Depois de tudo que passou, Patricia resolveu tentar ajudar outras pessoas que também enfrentam as sequelas da covid-19. Em junho, criou um grupo no Facebook, o "Covid-19 - Sintomas Persistentes Brasil", uma espécie de rede de apoio que hoje conta com pouco mais de 2.800 membros.

As postagens do grupo variam entre notícias sobre a pandemia e relatos dos participantes, que compartilham as dificuldades de lidar com as sequelas da doença e pedem conselhos.

Em uma enquete feita com os participantes em dezembro, a maioria citou cansaço extremo, fraqueza e dor de cabeça como sintomas mais frequentes. Sequelas relacionadas à saúde mental também são comuns, como ansiedade, insônia e síndrome do pânico.

Patricia costuma responder aos comentários no grupo e apoiar os participantes, mas em um futuro próximo quer usar a profissão para ajudá-los de outra forma.

"Quero fazer um tratamento terapêutico com essas pessoas. Mas por conta do cansaço, depois de um dia todo de atendimento ainda não consigo ter energia para isso."

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